A identidade não se encontra na superfície. (Flannery O’Connor)

Como o atual declínio do catolicismo nas letras americanas poderia ser adequadamente caracterizado? Com que critério seria melhor mensurado e julgado?

Uma perspectiva útil é recuar até os meados do século passado e analisar as duas décadas posteriores ao final da Segunda Guerra, de 1945 à morte de Flannery O’Connor em 1964.

A comparação entre o período de pós-guerra e os dias de hoje é esclarecedora, para não dizer chocante… Sessenta anos atrás, os católicos desempenhavam um proeminente, prestigioso e insubstituível papel na cultura literária americana. De fato, eles desempenhavam um papel tão significativo, que seria impossível discutir com seriedade as letras americanas de meados do século XX sem reconhecer um número considerável de autores católicos observantes e o impacto de sua convicção religiosa na obra que produziram.

Eram escritores que se destacavam no mundo literário. Entre eles estavam alguns famosos ficcionistas — Flannery O’Connor, Katherine Anne Porter, Walker Percy, J. F. Powers, Ernest Hemingway, Paul Horgan, Jack Kerouac, Julien Green, Pietro di Donato, Hisaye Yamamoto, Edwin O’Connor, Henry Morton Robinson e Caroline Gordon. (O sociólogo Fr. Andrew Greeley haveria ainda de experimentar sua formidável mão na ficção.). Havia também ficção científica e literatura policial, como a praticada por Anthony Boucher, Donald Westlake, August Delerth e Walter Miller, Jr., cuja obra Um cântico para Leibowitz se tornou um clássico tanto de ficção científica como da literatura católica.

Houve uma igualmente forte presença católica na poesia americana, com Allen Tate, Robert Lowell, Robert Fitzgerald, Kenneth Rexroth, John Berryman, Isabella Gardner, Phyllis McGinley, Claude McKay, Dunstan Thompson, John Frederick Nims, Irmão Antoninus (William Everson), Thomas Merton, Josephine Jacobsen, e os irmãos Berrigan, Philip and Daniel. Quase toda a estética da poesia americana estava representada por esses autores. Houve até representantes católicos do gênero haicai, notavelmente Raymond Roseliep e Nick Virgilio.

Na mesma época os Estados Unidos desfrutaram da presença de um notável grupo de imigrantes católicos, como Jacques Maritain, Czesław Miłosz, Dietrich von Hildebrand, Henri Nouwen, René Girard, John Lukacs, Padraic e Mary Colum, José Garcia Villa, Alfred Döblin, Sigrid Undset e Marshall McLuhan. Alguns escritores chegavam aos EUA fugindo do comunismo ou do nazismo. (O filósofo jesuíta  Teilhard de Chardin chegou aqui, em idade avançada, para escapar da hierarquia católica européia.) Esses escritores foram apoiados por respeitados e atuantes críticos e editores católicos, como Walter Kerr, Wallace Fowlie, Hugh Kenner, Clare Boothe Luce, Robert Giroux, William K. Wimsatt, Thurston Davis e Walter Ong.

O mundo intelectual era, alem disso, enriquecido pelos “católicos culturais” cuja base intelectual e criativa tinha sido moldada por sua educação religiosa — escritores como Eugene O’Neill, John O’Hara, J. V. Cunningham, James T. Farrell, John Fante, Mary McCarthy e  John Ciardi, assim como — já no fim desse período — John Kennedy Toole e Brian Moore, natural de Belfast.

A proeminência cultural das letras católico-americanas de meados do século passado amplificava-se pelas tendências literárias internacionais. O renascimento católico inglês, liderado por escritores comoGraham Greene, Evelyn Waugh, J. R. R. Tolkien, Edith Sitwell, Ronald Knox, Hilaire Belloc, David Jones, Muriel Spark, Elizabeth Jennings and Anthony Burgess, fornece um bom exemplo contemporâneo de como rapidamente uma cultura literária protestante e secular poderia ser reanimada por novas vozes. (G. K. Chesterton morreu em 1936, mas continuou a exercer enorme influencia tanto sobre escritores ingleses como americanos.)

Ao mesmo tempo, na França, surgia um semelhante renascimento católico, guiado pelos romancistas Georges Bernanos e François Mauriac, além dos poetas Paul Claudel e Pierre Reverdy, todos eles muito lidos nos EUA. Outro fator estimulante para os autores católicos americanos, grande número dos quais eram irlandeses-americanos, foi a ascensão da moderna literatura irlandesa. Por longo tempo sob o domínio dos protestantes, as letras irlandesas do século XX de repente começaram a falar com os sotaques católicos de escritores como James Joyce, Sean O’Casey, Frank O’Connor e Flann O’Brien.

De forma nada surpreendente, os escritores católicos americanos viam a si mesmos como partes de um movimento internacional.

Em: https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today