O filósofo católico italiano Stefano Fontana acaba de lançar o livro Igreja gnóstica e secularização – A antiga heresia e a desintegração da fé (Fede & Cultura, Verona 2018), do qual o jornal La Nuova Bussola Quotidiana publica um bom trecho da introdução, em http://lanuovabq.it/it/libro-sulla-gnosi-leresia-delle-eresie-nella-chiesa

A gnose é uma heresia e as heresias são sempre uma dilaceração da realidade e da verdade de Cristo. A heresia é um fato dramático. É preocupante que, hoje, ela seja compreendida como uma contribuição ao debate teológico ou, de fato, como estímulo dialético útil para fazer progredir a vida da Igreja. Essa concepção de heresia como pólo dialético de um processo de desenvolvimento positivo — e, portanto, positiva em si mesmo em sua negatividade dialética — é uma visão gnóstica. Preocupa, também, que hoje a reflexão sobre heresia seja deslocada do conteúdo errôneo da doutrina herética para as “intenções” do heresiarca. Também deriva da Gnose esta separação entre conteúdo e forma, realidade e consciência, objeto e sujeito.

A gnose é uma heresia que confunde as ideias sobre heresia; é uma heresia enganosa que influencia negativamente todo o processo de distinção/separação entre verdade e erro. É por isso que a Gnose tem sido vista como “a heresia de todas as heresias”, o mesmo que Pio X dizia do modernismo, que era e é uma heresia gnóstica. A gnose é camaleônica e multifacetada, apresenta-se de maneiras diferentes e, portanto, penetra mais profundamente, muitas vezes de forma inadvertida. Ao ocultar seu perigo, ela é aceita por aquilo que não é, tendo também conseguido fazer com que, na Igreja, não se fale mais de heresia.

A gnose tentou atacar a fé cristã desde o início. É de origem oriental e sincrética, mas com Marcião e Pelágio tornou-se uma heresia cristã. Nega a criação, a encarnação e a salvação como uma obra da graça que purifica a natureza. Contra a Gnose maniqueísta lutaram Santo Irineu e Santo Agostinho. Contra a Gnose cátara lutaram os dominicanos, com santidade e pregação, enquanto os Cruzados de Simon de Montfort lutavam com a espada. Contra a Gnose do aristotelismo heterodoxo lutou São Tomás de Aquino, através da verdadeira filosofia e da verdadeira teologia. Contra a Gnose dos “espirituais” e de Joaquim de Fiore lutou São Boaventura. Contra a Gnose modernista lutaram Pio X e o Cardeal Merry del Val. Hoje, no entanto, quem está lutando contra ela?

A gnose coloca a salvação do homem nas mãos do próprio homem, que se salvaria conhecendo algo ou fazendo alguma coisa. O pecado original é o arquétipo de todo o gnosticismo. Progressismo, positivismo, socialismo e marxismo são formas de Gnose, assim como a ideologia de gênero e o trans-humanismo. Onde quer que o homem afirme poder dar a si mesmo a salvação, eis aí o gnosticismo. É o pecado original que se renova.

De acordo com a Gnose, existem duas divindades, uma boa e outra má. Marcião opunha ao Deus do Antigo Testamento o Deus do Novo; o primeiro, legislador e vingador; e o segundo, clemente e misericordioso. Quando se contrapõe a lei antiga à nova lei, o Decálogo às Bem-Aventuranças, é da Gnose que estamos falando.

O mesmo ocorre quando o Cristo da história é oposto ao Cristo da fé. O protestantismo contém essa dilaceração no mais íntimo de seu pensamento. Tanto a desmitização, quanto a deselenização do cristianismo, ambas de origem protestante, são aspectos gnósticos. Desmitização significa negar o Cristo da história, considerando os relatos dos Evangelhos como mitos, até o ponto de não se considerar mais necessária para a fé a própria existência de Jesus. Deselenização significa a separação do cristianismo e a filosofia grega, ou seja, da razão que conhece o real por via natural. Também este é um efeito da doutrina das duas divindades: o Deus do mal falaria à razão, o bom Deus falaria ao coração. O primeiro seria o Logos e o segundo a Caritas. Entre os dois haveria uma incompatibilidade, sendo necessário libertar a fé da razão, e a caridade da verdade.

Quando ouvimos falar sobre misericórdia sem justiça, ou de amor sem verdade, notamos aí os ecos dessas visões gnósticas. Quando alguns bispos afirmam que a fé não tem nada a dizer sobre a condiçao do embrião e do feto, porque seria uma questão filosófica; ou quando alguns outros sustentam que só a ciência, e não a fé, é que deveria dar um juízo sobre a pílula (abortiva) do dia seguinte, estamos claramente no âmbito gnóstico, com sua dilaceração da verdade e a realidade.

Segundo a Gnose, a matéria é ruim. Portanto, a criação e a procriação humanas são também coisas más. A Gnose — especialmente na forma do catarismo medieval — celebra a sexualidade estéril e, portanto, a relação homossexual. Ainda hoje celebramos a sexualidade estéril, em homenagem à perene Gnose, enquanto a sexualidade fértil é penalizada e denegrida. A contracepção, o aborto, a fertilização artificial e o útero de aluguel dependem dessa concepção da matéria e, portanto, da natureza criada e do corpo como coisas instrumentais que nada significam para nós. Para o gnóstico, é possível administrar o corpo como um instrumento de prazer dissoluto e, ao mesmo tempo, salvar-se, pois a matéria nada tem a ver com o espírito, podendo este permanecer puro mesmo na imundície.

A contenção da natalidade politicamente programada; o empenho conjunto de organizações internacionais para o crescimento zero ou abaixo de zero; a convergência dos grandes centros financeiros, das cortes internacionais de justiça e dos poderes políticos transnacionais para impor o aborto como um direito; a esterilização; a destruição de embriões humanos; o planejamento da substituição de povos inteiros por meio da imigração; o propósito de superar as religiões confessionais para chegar-se a uma única religião mundial sincrética ou genericamente humanística, de acordo com o projeto maçônico; a perseguição do cristianismo e, especialmente, do catolicismo, encurralado entre a afirmação da própria identidade e a submissão ao mundo: são aspectos macroscópicos e planetários da Gnose contemporânea, que observadores como Michel Schooyans, Marguerite Peeters, Gabriele Kuby e Riccardo Cascioli têm mostrado com clareza, e tudo isto muito bem documentado pelos Relatórios Anuais sobre a Doutrina Social da Igreja no mundo, do Observatório Cardeal Van Thuan (http://www.vanthuanobservatory.org/eng/).

Esta é a Nova Desordem Mundial ou, como também é chamada, a Sociedade Aberta. A aceitação da homossexualidade, mesmo em círculos católicos; o fato de que o exercício da sexualidade fora do casamento seja visto com normalidade; ou o fato de que mais de 70 por cento dos católicos já não mais considerem a masturbação como um pecado, são efeitos da longa influência do Gnosticismo.

Quem acredita poder ser salvo espiritualmente, contribuindo para a aprovação de leis e políticas contra o direito natural, está dissociando o Cristo criador do Cristo redentor: é o que pretende o Gnosticismo.

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