“Das devoções tolas, e dos santos mal-humorados, livrai-nos, bom Senhor.” (Santa Teresa d’Avila)

Algumas noções e distinções, tanto religiosas como literárias, são necessárias para o estudo da situação dos escritores e da literatura católica atual, que só terá a desejável clareza a partir da definição dessas categorias tão amplas.

O que é literatura católica, e como deve ser um autor para ser considerado um escritor católico? Prefiro definir ambos os termos de modo estrito e específico; para tanto, este ensaio focalizará apenas a literatura católica de imaginação — ficção, poesia, teatro e memórias — e não os textos teológicos, eruditos e devocionais.

Surpreendentemente, pouca literatura católica de criação é explicitamente religiosa; e menos ainda devocional. A maior parte toca em temas religiosos indiretamente, enquanto fala de outros assuntos, não sagrados, mas profanos, tais como amor, guerra, família, violência, sexo, mortalidade, dinheiro e poder.

O que caracteriza a escrita católica é o tratamento dessas questões, marcado por uma visão de mundo particular. Essa cosmovisão católica não é uniforme, mas mesmo assim é possível descrever algumas características que, entre os escritores, abarcam tanto o fiel como o apóstata.

Os escritores católicos tendem a ver a humanidade combatendo num mundo decaído, associando o desejo de graça e redenção a um profundo senso da imperfeição humana e do pecado. O mal existe, mas o mundo da matéria não é mau em si mesmo. A natureza é sacramental, cintilando com sinais de coisas sagradas. De fato, toda a realidade está misteriosamente carregada da presença invisível de Deus.

Os católicos compreendem o sofrimento como algo redentor, pelo menos quando suportado em imitação da paixão e morte de Cristo. E também possuem, em geral, uma visão abrangente das coisas — estão voltados para o tempo de Cristo e dos césares, enquanto olham para a frente, em direção à eternidade. (A latinidade da Igreja pré-Vaticano II mantinha uma significativa continuidade com o antigo mundo romano, que alcançou até a classe operária de Los Angeles dos anos sessenta, onde fui criado e educado.)

O catolicismo é também intrinsecamente comunitário, uma noção que vai muito além de sentar-se à Missa com os fiéis locais, estendendo-se a um senso místico de continuidade entre vivos e mortos. Finalmente, há o hábito do auto-escrutínio e do exame de consciência moral — uma fonte da soi-disant culpa católica.

A cosmovisão católica não requer um “assunto sagrado” para exprimir o seu senso da imanência divina. O maior equívoco da literatura católica é buscar enquadrá-lo somente pelos seus assuntos. Tal literalismo não é somente redutivo; ele ignora, também, esses elementos espirituais que dão aos bons textos o seu valor especial. As intuições religiosas via de regra emergem naturalmente das representações da existência mundana, ao invés de serem impostas intelectualmente sobre o trabalho artístico.

A literatura católica raramente é piedosa. De uma forma que algumas vezes perturba ou confunde certos leitores, tanto protestantes como laicos, os escritos católicos tendem a ser cômicos, irrequietos, rudes e até violentos.

Os católicos, em geral, preferem escrever mais sobre pecadores do que sobre  santos. (Não só porque os pecadores dão, em geral, protagonistas mais interessantes, mas porque suas falhas revelam de forma mais viva o estado decaído da humanidade.) A confraria dos tolos, de John Kennedy Toole, por exemplo, apresenta um enorme elenco de personagens, todos eles almas perdidas ou réprobos, os quais, com seus muitos vícios e desilusões, ridiculamente cambaleiam na direção de uma graça e de uma redenção provisórias.   A mesma visão cômico-sombria impregna os romances de Evelyn Waugh, Anthony Burgess e Muriel Spark. Atticus, de Ron Hansen, começa com a investigação da vida de um assassino.

A ficção de Flannery O’Connor está repleta de ressentimento, violência e raiva. “O bem e o mal parecem estar juntos, como parte da espinha dorsal de cada cultura”, disse ela certa vez, e a violência é “estranhamente capaz” de fazer com que seus personagens voltem “à realidade, preparando-os para aceitar os seus momentos de graça.” Quando Mary Karr intitulou sua coleção de poemas de Bem-vindos, pecadores, poderia estar descrevendo a própria tradição literária católica.

A questão sobre o que é, ou não, um escritor católico também requer algumas distinções. A resposta muda dependendo da definição do termo “católico”, se compreendido em sentido estrito ou vago.

Há três níveis de catolicismo literário, cada qual interessante de diferentes maneiras. Primeiro, há os escritores que são católicos praticantes, ativos dentro da Igreja.

Segundo, há os “católicos culturais”, escritores que foram criados na fé e muitas vezes educados em escolas católicas. Esses “católicos culturais” geralmente não saíram de forma dramática da Igreja, mas se afastaram lentamente. Sua cosmovisão permanece essencialmente católica, embora suas crenças religiosas (se ainda conservam algumas) sejam frequentemente heterodoxas.

Finalmente, há os católicos anti-católicos, escritores que romperam com a Igreja, mas permaneceram obcecados com suas falhas e injustiças, tanto genuínas como imaginárias.

Todos esses três grupos merecem ser examinados pela crítica literária. Este ensaio, no entanto, focalizará principalmente o primeiro grupo, com algumas referências ao segundo. Essas pessoas se qualificam melhor como escritores católicos — eles que, atualmente, são os menos visíveis numa cultura literária em que só o terceiro grupo, o dos dissidentes, tem relevância.

Em: https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today