Por anos tenho refletido sobre o paradoxo cultural e social que está na origem da diminuição da vitalidade e da diversidade das artes nos EUA. Esse enigma cultural revela, também, o retrocesso intelectual e a inércia criativa da vida religiosa americana.

É paradoxal que, apesar da Igreja Católica ser o maior grupo religioso e cultural dos EUA, o catolicismo atualmente quase não tenha presença nas belas-artes americanas — seja em literatura, música, escultura, ou pintura.

Não se trata somente de um paradoxo demográfico. Assinala, também, a maior mudança histórica – um empobrecimento, na verdade uma desfiguração — do catolicismo, que por dois milênios desempenhou um papel enormemente inspirador e educativo nas artes.

O catolicismo romano hoje se classifica, esmagadoramente, como a maior denominação religiosa dos EUA, com mais de 68 milhões de membros. Há um visível contraste com o segundo maior grupo, os Batistas do Sul, que têm 16 milhões de membros.

Representando quase um quarto da população americana, os católicos também constituem a maior minoria cultural da nação. Em apoio à sua tradicional afirmação de ser a Igreja universal, o catolicismo americano ostenta uma vasta diversidade étnica, nacional, linguística e social. (Em minha primeira paróquia em Washington, D.C., não era raro ver, nas Missas, funcionários do Congresso, imigrantes da América Central e moradores de rua ocupando o mesmo banco de igreja.)

Enquanto muitas igrejas protestantes continuam a declinar, o catolicismo tem crescido constantemente nos últimos duzentos anos através da combinação de imigrantes, nascimentos e conversões.

Considerando o aspecto puramente demográfico, seria de se esperar que houvesse uma grande e crescente presença católica nas belas-artes americanas. Contudo, se se pedisse a um jornalista da área artística que apontasse, entre os melhores que estão vivos, um pintor ou escultor, diretor ou coreógrafo, compositor ou poeta, que pratiquem o catolicismo, suspeito que o crítico fosse incapaz de mencionar um único nome.

Poderia, seguramente, identificar uns poucos ex-católicos, como Andres Serrano, Terrence McNally, ou Mark Adamo, que usam assuntos religiosos em sátiras, críticas ou “shock value” [apresentações artísticas provocativas]. Crítica ao catolicismo acabou se transformando num gênero literário usual, que vai do ridículo (como a peça Irmã Maria Inácio explica tudo isso para você) ao tendencioso (O evangelho de Maria Madalena).

Se a pesquisa abrangesse o romance — que é a mais sociológica das belas artes — um crítico literário bem informado pode oferecer alguns poucos nomes de romancistas, como Ron Hansen ou Alice McDermott, autores cujos assuntos são muitas vezes abertamente católicos. É o que há de artistas católicos visíveis em nossa cultura. A reação imediata do jornalista, no entanto, seria considerar ingênua ou tola essa preocupação; um crítico sério não deve perder tempo com essas trivialidades intelectuais…

O fato é que, hoje em dia, as artes e o cristianismo parecem só remotamente conectados (quando muito). Afinal, a cultura contemporânea já não é uma cultura secularizada?

Na verdade, ninguém quer quotas para artistas católicos. Não é curioso, porém, que a religião de um quarto da população americana tenha retrocedido ao ponto de invisibilidade nas belas-artes? (A situação do catolicismo nos entretenimentos populares é tema de outro ensaio nosso).

É especialmente irônico que essa desaparição tenha ocorrido durante um período em que a tão celebrada diversidade cultural tenha se tornado um objetivo explícito das artes nos EUA; desconfia-se que algumas espécies de diversidade são mais convenientes que outras.

Por acaso tal declínio gerou controvérsia cultural? Não, particularmente. Nem o mundo das artes, nem a alta hierarquia católica, parecem se preocupar muito com esse problema, como se houvesse um tácito acordo, de ambos os lados, que na prática (se não na teoria) o catolicismo e as artes não se misturam mesmo — um consenso que teria surpreendido não só Dante, como também um Jack Kerouac.

As consequências dessa situação são lamentáveis, em vários aspectos, tanto para o mundo da cultura como para a Igreja. Para começar uma investigação séria sobre tão complexo assunto, é necessário ser factual e específico. Apesar da decadência do catolicismo ter ocorrido no plano cultural, este ensaio focalizará somente a literatura, o que já nos dará, contudo, uma perspectiva útil para a compreensão das demais artes.   Espera-se, da mesma maneira, que o exame da situação dos escritores católicos possa lançar luz sobre a situação atual de todos os escritores cristãos.

https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today

[Dana Gioia é um poeta e crítico-literário católico americano. Nasceu em 1950. É casado e tem três filhos.] http://danagioia.com/