1. A oração mental é uma árvore plantada pela mão de Deus no paraíso da Igreja para sustento da vida espiritual; sua raiz é aquela grande excelência de ser um colóquio da alma com o mesmo Deus, e daqui procedem seus copiosíssimos e dulcíssimos frutos.

2. Quem obra depois que ora não segue tanto os impulsos da natureza como os ditames da razão e luz de graça, e o concerto de suas ações e honesto fim que com elas pretende, lança de si certo resplendor que bem se deixa conhecer de fora.

3. A oração é como âmbar, que um só grãozinho deixa fragrância no recipiente por pouco tempo que nele estivesse. Mas, o não aproveitar-se tanto quanto pudéramos, nasce primeiramente de que não acompanhamos a oração com mortificação; e porque o monte de mirra, em que se figura a mortificação, é mais dificultoso de subir do que o outeiro do incenso, em que se figura a oração, não nos determinamos, como a alma santa, a subir um e outro: Vadam ad montem myrrhae et collem thuris (“…irei ao monte da mirra, e à colina do incenso”, Cântico dos cânticos, 4, 6). Outros não fazem senão começar e largar, tecer e destecer. Muitos contentam-se com apanhar flores, que são os atos de ternura sensível, e não tratam dos frutos, que é lidar sempre consigo sobre a vitória de suas paixões e reforma de seus defeitos. E outros não resistem às distrações e vagueações do pensamento, e, claro está, que a oração quanto tem de distraída tanto não tem de oração.

4. Duas coisas fazem bom ou mau qualquer desejo: uma é a coisa desejada, se é boa, ou má, ou absoluta, ou determinadamente nestas ou naquelas circunstâncias. Outra é o fim ou intento da vontade em desejar a tal coisa.

5. A boa oração não está em correr muita terra, senão em cavar para o fundo; não está em salpicar muitas considerações, passando por elas levemente, senão em assentar bem um desengano e confirmar a vontade com repetidos propósitos, porque mais segura um prego com muitas marteladas do que muitos com poucas.

6. Deus não só é reto, senão também suave: Dulcis et rectus Dominus; reto para provar a alma com tribulações, e suave para a consolar com suas visitas. Parece que com uma mão fere e com outra sara: Percutiam et ego sanabo. E que se na esquerda tem espinhos, na direita tem consolações.

7. Quem se fia de si, bem se pode fiar do demônio; e se do demônio ninguém pode fiar-se, muito menos se pode fiar de si.

8. Ó como são vis e desprezíveis todas as coisas terrenas quando ponho os olhos nas celestiais! Bem considerado o mundo, sua grandeza é pequenez; sua abundância, pobreza; sua ciência ignorância; suas alegrias, tristezas; sua luz, trevas; sua felicidade, miséria; aqui a honra é um pouco de fumo, a fazenda é um pouco de terra e a vida é servir à corrupção. Passa o mundo como figura e todas as coisas que nele há por momento se mudam. Vaidade de vaidades e tudo vaidade; só o amor de Deus permanece e o prêmio que no Céu nos está preparado. Adeus, mundo; nada teu me enche os olhos; todo és uma mentira armada de infinitas mentiras. Quem bebe do teu cálice dourado, no fim lhe amargam as fezes; quem se coroa de tuas flores, por baixo o lastimam os espinhos. Basta já de enganar-me contigo; não queremos mais paz, nem de ti espero coisa que me satisfaça. Acima, coração; lá no Céu tens os bens verdadeiros para que foste criado. A Terra não é senão lugar de trabalhos, de mudanças, de enfermidades, de mentiras, de desgraças, ignorância, malícia e pecado, e tudo vem a parar na morte e em um incêndio universal, em que se há de abrasar o mundo. Só quem o não conhece o estima.

9. Que sou eu a respeito da redondeza da Terra? Não aparece o meu ser. Que é a Terra comparada com o Firmamento? Um pontosinho. Que é o Firmamento comparado com o Empíreo? Outro ponto. Que é o Empíreo comparado com a imensidade divina? É como se não fôra. Logo, que serei eu na presença de Deus e que vulto terá o meu ser diante da sua grandeza infinita? Sou nada e, se pudesse ser, menos que nada. Como se atreve o nada o presumir de si diante do Infinito Ser?

10. Ó quão grande é este Senhor em tudo? Se premia, dá-se a si mesmo; se castiga, dá um Inferno para sempre; se ama, oferece seu peito a uma lança e dá a beber seu Sangue e a comer seu Corpo. Toda a vida de um homem, que é seu inimigo, lhe está esperando que se converta e por um Pesa-me se esquece de todas as suas injúrias. Abriu a mão e semeou o Céu de estrelas; acenou ao mar e retirou-se, encolhendo as suas ondas; soprou na face do homem e ficou à sua imagem. Com uma palavra sua, foi universo o que era nada e o poder todo do universo não pôde fazer uma só aresta; com o madeiro de uma Cruz escalou o Inferno, matou a morte e resgatou o gênero humano.

11. Ó como é certo que as vitórias de Cristo são a confiança dos pecadores! Venceu Cristo o mundo, venceu o Inferno, venceu a morte, venceu o pecado, e não poderá vencer-te a ti e fazer que venças tudo?

12. Deus é imenso; mete a Deus em teu coração e terás um coração imenso.

13. Caíste outra vez em tuas misérias antigas? Mais antigas são em Deus as suas misericórdias; e para vires a cair nas suas misericórdias, permitiu Deus que caísses nas tuas misérias.

14. Que coisa são orações jaculatórias, com que se acompanha a presença de Deus, e como se exercitam? Pelo exemplo da seta se entenderá melhor. Porque a seta é arma de longe, ligeira, pequena e penetrante, e que se atira com força, e quem peleja com setas não usa de uma só, senão de muitas, que para isso tem guardadas na aljava. Assim, estas orações devem ser breves, frequentes e fervorosas e sobem ao Céu com força a ferir o coração de Deus.

15. Oração (como todos sabem) é subida do espírito a Deus para tratar com ele amigável e familiarmente. Se é subida, requer que o espírito não esteja pegado a coisas da Terra, que puxam por ele para baixo; se é trato com Deus, requer que se retire uma pessoa (quanto seu estado lho permitir) do trato com as criaturas; e se é comunicação amigável com o mesmo Deus, requer que a alma o não ofenda com pecados. Da pouca diligência, que ordinariamente pomos em tirar estes impedimentos, se verá clara a razão porque não aproveitamos neste santo exercício, ainda depois de frequentado por muitos anos.

Padre Manuel Bernardes nasceu em Lisboa, em 20 de agosto de 1644, e morreu em 17 de agosto de 1710. Pertenceu à Congregação do Oratório de São Filipe Nery. Homem de vasta cultura e grande piedade, é tido como um dos maiores escritores da língua portuguesa. Sua obra mais famosa é a Nova Floresta (em cinco volumes), clássico da literatura portuguesa. Escreveu também Pão Partido em Pequeninos (1694), Luz e Calor (1696),  Exercícios Espirituais (1707), Sermões e Práticas (2 Volumes, 1711), Os Últimos Fins do Homem (1726), Estímulo Prático para bem seguir o bem e fugir o mal (1730), e Armas da Castidade (1737).