Um conto de duas cidades, de Charles Dickens

Devo confessar que gosto muito de Charles Dickens. Tenho lido suas obras desde a faculdade, e espero continuar a ler. Seus romances são inteligentes, interessantes, frequentemente divertidos e comovedores. Dickens escreveu sobre as coisas que conheceu — conheceu a pobreza, conheceu as lutas, conheceu aqueles personagens. Escreveu para homens e mulheres comuns, que viveram vidas muito parecidas às de seus personagens, entre trabalho pesado, grandes esperanças e muito amor.

Dickens escreveu a partir de sua experiência, de sua imaginação e de sua fé cristã. Foi um anglicano devoto (trabalhou por anos reescrevendo a história de Cristo). Com suas obras, esperava que as pessoas comuns pudessem ser vistas como de fato eram: filhos e filhas amados de Deus, dotados de uma inabalável dignidade. O conto de duas cidades está entre as suas melhores obras, assim como Grandes esperanças, David Copperfield e A casa soturna.

Um conto de duas cidades, o primeiro livro que li desse autor, é um típico romance dickensiano. Um resumo do enredo não faria justiça à obra. A história acontece durante a Revolução Francesa, em Paris e Londres, com personagens,  bons e maus, que experimentam morte e vida, trevas e luz, e, por fim, redenção e ressurreição.

Um conto de duas cidades não é a mais divertida nem a mais trágica das obras de Dickens. Certamente, contém humor e tragédia. Na verdade, é uma história muito humana, de pessoas reais, enfrentando situações difíceis,  algumas vezes dando o pior de si, noutras o melhor. É uma história de famílias e de amizade.

É uma história sobre os nossos corações humanos, ansiosos e batalhadores; e também sobre a surpreendente graça divina. Antes de sua morte, escreveu Dickens: “Sempre me esforcei, em meus escritos, para exprimir a veneração que tenho pela vida e pelas lições de Nosso Salvador; pois é isto o que sinto.”

A obra de Dickens pode ser pensada como uma espécie de “reflexão sócioliterária”. Ele dá rosto e nome às classes sociais que fazem parte do seu mundo. Mostrou ao pobre como era ser aristocrata, e à aristocracia  como era ser pobre. Revelou como o vício pode ter grandes consequências em nossas vidas, assim como a virtude.

Sua obra é um apelo à consciência sobre os efeitos nocivos da sociedade sobre as pessoas de carne e osso, debilitando frequentemente a sua humanidade, de forma nem sempre intencional, mas com graves consequências.

Muitos escritores de fé escreveram interessantes reflexões sobre o papel da sociedade na vida das pessoas. Dostoievski, que escreveu Os irmãos Karamazov, entre outras coisas, examinou o pecado, a graça e a redenção no contexto da vida familiar, da Igreja e do Estado. Sigrid Unset, uma norueguesa convertida que escreveu algumas décadas depois de Dickens, é autora de Kristin Lavransdatter, uma bela trilogia que mostra as maneiras pelas quais a cultura cristã conduz seus cidadãos à justiça e à santidade.

Cada um desses romances revela a presença da injustiça na vida dos personagens, sem deixar de apontar o caminho que leva à fonte da justiça em Jesus Cristo.

(James D. Conley é bispo da diocese de Lincoln, Nebraska, EUA. Este ensaio foi publicado no National Catholic Register, em 31 de maio de 2015)