Escrevo estas linhas longe dos livros e perto das árvores, ouvindo apenas no clarear da madrugada, que parece sair lentamente de dentro das coisas, como um grande botão que desabrocha, os ruídos com que a natureza tece o seu silêncio — o grilo na grama, o bentevi no coqueiro, um galo ao longe, os sapos no brejo. O lirismo vulgar da roça brasileira. E, ao mesmo tempo, a universal sedução do homem da cidade pelo campo.

Thomas Morus, cuja figura aqui tento esboçar, sentiu como poucos essa atração. E em plena mocidade, escrevendo a um amigo, queixava-se das cidades e exaltava a vida rural. “Que existe nesta cidade para levar um homem a bem viver?… Sim, as próprias casas me privam de uma parte da luz do céu, reduzindo nosso horizonte à altura dos seus tetos”. Ao passo que no campo — “por toda a parte em que se pousem vossos olhos, oferece-lhes a terra aspectos agradáveis, a doçura do ar refres-
ca-vos os sentidos, a vista livre do céu vos encanta, não vedes senão os magníficos dons da natureza e os símbolos sagrados da inocência”.

É preciso ler essas linhas do grande ex-chanceler da Inglaterra, do humanista, do embaixador, do conselheiro da coroa, do controversista, do amigo de Erasmo e de Holbein, do homem mais popular da sua terra e mesmo da Europa, em certo momento da história, e enfim do mártir e hoje santo canonizado pela Igreja, — é preciso lê-las no azul da madrugada campestre, com a figura de Morus presente à imaginação, para lhes sentir todo o trágico encanto e toda a verdade profunda. É-me grato, pois, que seja neste ambiente de absoluta paz e simplicidade primitiva que evoco, mais para mim que para o público, a imagem desse grande exemplar de humanidade, que quisera viver esquecido no silêncio estudioso de seus livros e suas coleções e cujo nome é hoje um símbolo que os séculos vão levando de continente em continente.

Esse nome só lembra, a muitos, o de um fantasista que se divertiu em inventar uma sociedade imaginária, num livro que raros leram, mas que todo o mundo cita, pelo feliz neologismo que criou. E’ uma imagem um tanto sumária, de quem representou, na história não só de seu povo mas da Europa e não só da Europa mas do humanidade, podemos dizê-lo sem o mínimo exagero, um papel como muitos poucos homens têm representado, em seu tempo e em todos os tempos. E o fez com tanta naturalidade que nos sentimos à vontade junto dele, a despeito do número de coisas que dele nos separam, tempo, língua, situação, gênio, santidade, como à vontade se sentiu êle no seu tempo, entretanto, tão profundamente diverso do seu temperamento e do seu caráter.

Thomas Morus viveu, entre 1478 e 1535, cinquenta e sete anos bem vividos, não tanto pelo número ou pela grandeza dos acontecimentos em que tomou parte, mas principalmente pelo sentido e pela repercussão que tiveram no curso da história. Henry Adams, confrontando o século XIII com o século XIX, escreveu que o mundo medieval vivia sob o signo da unidade e o mundo moderno sob o da diversidade. Entre os dois se coloca justamente o Renascimento, que fez a transição entre a unidade e a diversidade e de que Morus foi e não foi, conforme o ângulo do qual o encaremos, um dos tipos mais representativos.

De um lado, foi Morus uma das figuras mais expressivas de sua grande época. Fez parte dessa pequena família de humanistas, que pairava sobre a Europa e trocava o espírito medieval pelo espírito da antiguidade Clássica. Desde os sete anos que seu pai, o grave e reputado jurista John More, o colocava sob a direção do latinista Holt, em Londres, de onde passou pouco mais tarde para a corte do cardeal Morton, então Lord Chanceler, também reputado latinista. Apenas atingia 14 anos, no ano mesmo em que Colombo descobria a América, passava-se o filho do jurista John More para a Universidade de Oxford, onde se ia colocar sob a direção do famoso helenista Grocyn.

Ia então, por todas as cinquenta e tantas universidades do velho Continente, uma grande luta em favor ou contra o helenismo. Os dois partidos de gregos e troianos disputavam, violentamente por vezes, a supremacia, tanto entre mestres como entre alunos. Os gregos eram os inovadores, os troianos os conservadores. O jovem Morus (e é curioso que, por toda a vida, só foi conhecido e apelidado como “o jovem Morus”, tal a jovialidade incomparável do seu gênio), que aos 15 anos já revelava sua extraordinária capacidade de absorção cultural, inscreveu-se naturalmente entre os inovadores e em breve se tornava um dos mais eruditos humanistas do seu tempo.

Data de então, ou mais precisamente de 1499, quando alcançava a maioridade, nas vésperas de nascer o Brasil para a civilização cristã, sua grande e fiel amizade por outro desses vultos que enchem a sua época e marcam o início dos tempos modernos, na história da humanidade ocidental — Erasmo. A amizade, que por todo o resto da vida de ambos uniu estreitamente esses dois grandes homens de espírito, é hoje um dos traços característicos e inesquecíveis da história do inteligência, sobre a terra. Representaram ambos, em seu tempo, o grau mais alto da cultura, da erudição e da inteligência. Poetas, introdutores do espírito platônico contra o espírito aristotélico da Idade Média, inimigos da escolástica decadente, comentadores de Luciano — o grego mais sutil e mais irônico de sua raça e do seu espírito — flageladores sarcásticos dos abusos e dos erros de sua época, conversadores eméritos, abridores de novos horizontes para a cultura e as letras — Morus e Erasmo foram certamente o que o Renascimento nos deixou de mais extraordinariamente típico em matéria de espírito e de obra.

Foi em casa de Thomas Morus, em 1505 — no ano de seu primeiro casamento com Jane Colt, a uxorcula Mori”,  minha mulherzinha, como 20 anos mais tarde ele graciosamente gravou no epitáfio que preparou para si, poucos anos antes de morrer, quando deixou as funções de Lord-Chanceler e pressentiu lucidamente que a sua atitude não conformista o arrastaria fatalmente à perseguição do Rei e do Corte —, foi em casa de Morus ainda moço, com os seus 27 anos irradiantes, que o errante Erasmo foi compor o seu Elogio da Loucura, que até hoje conservou a frescura e o amargor com que foi escrito.

Dez anos mais tarde, ou mais precisamente onze, em 1516, estando em Flandres, como representante da City para discutir problemas ligados à exportação de tecidos britânicos para o continente, foi pensando no livro do seu amigo Erasmo, escrito em sua casa, que Thomas Morus teve a ideia e começou a escrever, como simples divertimento para encher as longas horas de ócio e de expectativa, sua obra mais famosa e conhecida, essa Utopia, de certo modo ligada à história do Brasil. Seja ou não exata a hipótese, levantada há pouco por Afonso Arinos de Melo Franco, de que a ilha visitada por Hythloday era Fernando de Noronha, o certo é que Morus teve ideia de escrever o seu livro, encontrando-se em Antuérpia, por acaso, com um dos 24 companheiros que Américo Vespúcio deixara em Cabo Frio. As cartas de Vespúcio, publicadas em 1507, haviam tido um êxito incomparável. A América ficou em moda, em poucos anos, e todas as classes sociais, desde os criminosos que nela iam encontrar a liberdade até os homens de maior espírito do seu tempo, como Montaigne, Rebelais, Morus e os homens públicos mais em foco como Carlos V ou Lourenço de Médicis, todos sem exceção voltaram os olhos para o novo continente, que foi para a Europa de então o que seria para o mundo de hoje a descoberta de habitantes em Marte.

Se Erasmo fazia falar a Loucura, para fazer a sátira amarga do seu tempo, seu amigo fazia falar a Razão, tanto no descrever as desordens de sua época, como no imaginar o que poderia ser um mundo mais racional que a irracional civilização em que viviam. Thomas Morus escreveu seu livro, a princípio como simples passatempo e exercício de imaginação, suscitados pela conversa com o companheiro de Vespúcio e a leitura de seu livro. Um pouco também, como faria Cervantes criticando o espírito de cavalaria, como uma crítica ao espírito de cavalaria dos oceanos, que enchia o seu tempo. Voltando para a Inglaterra, mudou de propósito e passou a escrever uma outra parte, e essa a sério, fazendo não mais bordados sobre os indígenas brasileiros, mas a sátira direta aos abusos de seu tempo e de seu país. Essa parte, aliás, é a primeira do livro, se bem tenha sido escrita depois da segunda.

O autor da Utopia, ou Em parte alguma, como etimologicamente significa o feliz neologismo, é pois um tipo bem representativo do seu tempo. Pelo amor da antiguidade, pelo seu humanismo requintado, pela intimidade com os homens de Universidade (de que frequentou ao menos Oxford, Louvain e Paris), por seu espírito satírico, pela sedução do Novo Mundo, por certa ilusão do “bom selvagem”, aliás nele muito temperada pelo seu realismo londrino, por tudo isso e ainda pela alegria de viver, pelo amor da beleza, da música, da pintura, da poesia, pela insaciável e universal curiosidade de espírito que fazia de sua casa de Chelsea um museu das coisas mais estranhas, desde macacos do novo continente até manuscritos antigos e veneráveis, — por tudo isso foi Thomas Morus um homem típico do Renascimento.

Mas foi também muito mais do que isso e de certo modo um homem contra o seu tempo, por ter sido essencialmente um espírito embebido de eternidade e portanto um homem acima do tempo. E por isso mesmo é que hoje o sentimos tão próximo a nós. Pois a posteridade só se reconhece nos homens que não quiseram ser demais do seu tempo. Esse sentido da eternidade superou em Morus tudo mais e explica a posição que hoje ocupa nos altares da Igreja. Em moço, teve a suspeita veemente de que era mais chamado à vocação monástica que à vocação jurídica. Seu pai, quando viu sua paixão pelo helenismo em Oxford, temendo que ele se contentasse em ser um humanista, como seu mestre Grocyn, fê-lo estudar direito, na Faculdade de Londres, o que, aliás, decidiu da sua carreira profissional e dos episódios supremos de sua vida. Habitou durante esses estudos jurídicos num convento de monges cistercienses. E Erasmo, estando em Londres nesse tempo, em uma das muitas cartas em que faz a apologia do seu amigo (dizem que Thomas Morus foi o único homem de quem Erasmo nunca falou mal…), no-lo mostra em plena inquietação vocacional religiosa: “Ele se aplicava de corpo e alma a exercícios de piedade, meditando sobre a sua vocação monástica, em vigílias, jejuns, orações e outras práticas austeras”.

Entre essas práticas austeras, referidas por Erasmo, já estava talvez uma por ele suspeitada, mas por Morus, que foi o mais discreto dos Santos, a todos ocultada, a não ser à sua amada filha Margarida, sua confidente — o uso do cilício. Esse homem sociável como nenhum outro, de quem Pace dizia parecer ser filho do Humor e da Alegria, que amava da vida os seus aspectos mais amáveis e delicados, e tinha a mais espirituosa das conversas, que gostava de fazer grandes brincadeiras, no meio das circunstâncias mais austeras, (como quando quis, em pleno tribunal, instigar um pick-pocket a filar a carteira de outro juiz, seu companheiro, que absolvia todos os ladrões de carteira, porque dizia que só os imbecis se deixavam roubar) — e reunia em sua casa deliciosa de Chelsea, de onde se via toda Londres e as curvas suaves do Tâmisa, a fina flor do humanismo britânico e continental, para fazer música  e epigramas, esse homem que recebia visitas do Rei em sua casa e dos homens mais poderosos da Corte, como o duque de Norfolk ou o astucioso, o intrigante Thomas Cromwell, esse homem que tudo pôde no Conselho do Rei e no Parlamento, que era ídolo da City, mas tudo trocava paro passar noites esquecidas em grandes troças de espírito, com o seu amigo Erasmo, esse homem que mor-
reu sorrindo, usou a vida inteira um áspero cilício.

E por esse aspecto capital de sua figura, aparentemente diverso do que o faz tão típico do espírito versátil do Renascimento, é que vemos em Thomas Morus uma das figuras mais acabadas do homem eterno, em seus traços mais simples e ao mesmo tempo mais sublimes. Nele se reuniam qualidades que dificilmente se encontram juntas num só homem. O insuspeito Erasmo dele nos diz o que basta para que uma figura humana atravesse os séculos. Escrevendo a Richard Whitford, assim se exprime sobre Morus: “A meu ver, nunca a natureza produziu espírito mais hábil e mais pronto, mais sutil e avisado, jamais realizou criatura mais bem dotada e de maior ressonância. Junte a isso uma facilidade de conversa que está à altura do seu extraordinário gênio, um modo de ser, revestido da mais franca liberdade, um espírito luminoso e ágil, mas que nunca deixa de
ser amável”.

Estamos vendo, nesse Morus que Erasmo e outros contemporâneos nos revelam, esse tipo de homem que nos reconcilia com a natureza humana, e que tudo pode receber da vida, em matéria de fortuna e posição como em matéria de adversidade e sofrimento, sem nunca perder o sorriso ou a paciência, o espírito ou o bom humor, e, como bom britânico que era, o mais delicioso humour que vem enriquecer com um traço inédito a galeria indefinida de tipos humanos que a Igreja tem canonizado, como representantes mais altos do que é capaz o homem em virtudes heróicas. São Thomas Morus é o santo do humour. E’ um exemplo, para toda a humanidade e todos os tempos, que a mais alta santidade nada tem de incompatível com a alegria mais franca, o espírito mais vivo e mordaz, a cultura intelectual mais vasta e variada, o espírito de invenção mais sagaz, os postos públicos mais elevados, as missões diplomáticas mais árduas, a ironia mais sutil.

Esse homem, por exemplo, que combateu por fatos e por palavras o preconceito ainda dominante em seu tempo contra a educação das mulheres e fez de suas filhas sábias tão autênticas que uma delas descobriu as falhas do texto grego de São Cipriano, confirmadas depois pelos eruditos, e deram duas delas, perante o rei, a demonstração de um diálogo filosófico, — esse homem que foi amigo do seu lar como ninguém e dele fez um pequeno mundo, que era o modelo de toda a Inglaterra, — não perdia vasa de uma ponta de ironia com as mulheres. E quando lhe perguntavam porque se casara com uma mulher tão baixinha (como era Jane Colt, sua primeira esposa), respondia —”dos males o menor”. Ou, então, quando a segunda esposa, que era boa dona de casa, mas não tinha um caráter muito fácil, nem soube compreender o homem imenso que tinha por marido, quando ela certa vez disputava a outra dama a posse de um cachorrinho que encontrara, More, primeiro juiz da Inglaterra e que no momento se lembrou por certo do julgamento de Salomão, postou sua esposa e a outra nas duas paredes opostas de uma sala, e soltando o cãozinho no centro entregou-o a sua dona verdadeira, para quem o animal naturalmente correu quando se viu livre.

Esse homem feliz, entretanto, nunca se deixou vencer pela felicidade. A imagem das coisas que ele amava na terra acima de tudo — sua Chelsea, um texto de Platão, de Luciano ou de Santo Agostinho, alguns amigos raros, suas coleções, — nada disso o desviava da sua silenciosa e inabalável confiança nas coisas divinas. Todos os dias ia à missa e frequentemente se aproximava dessa Eucaristia, de que em breve se ia tornar o defensor, em seus escritos, e o confessor, por seu sangue generoso derramado pela Fé.

Tão pouco o perturbaram os sorrisos da Fortuna. E essa o lisonjeou toda a vida. Subiu sempre, desde menino, cuidadosamente educado por um Pai a quem tanto reverenciava que, mesmo homem feito, mesmo primeiro ministro do Rei, ao passar pela porta do tribunal onde se sentava o velho juiz, não deixava de entrar para ajoelhar-se e piedosamente tomar-lhe a bênção. Subiu sempre, desde moço, o primeiro entre os helenistas de Oxford, como o primeiro entre os juristas de Lincoln’s Inn, onde estudou direito. Continuou subindo quando os mercadores de Londres, essa poderosa City que até hoje é a maior força da velha cidade de Londres, o enviaram à Câmara dos Comuns, como seu deputado e onde estreou se opondo a certas pretensões do rei Henrique VII e do poderoso Cardeal Wolsey, a quem iria suceder na Chancelaria do Reino. Subiu ainda quando foi vitorioso nas negociações de Flandres, em que defendeu os interesses dos exportadores de lãs inglesas e, sobretudo, no Tratado de Cambrai ,em 1529, em que, por mais tempo talvez que Chamberlain, em circunstâncias análogas em nossos dias, trouxe a paz à Europa, único feito de que em vida se ufanou e o tornou o homem mais popular da Inglaterra. Subiu ainda quando o êxito de suas embaixadas o forçou a aceitar o serviço do Rei, que começou a distingui-lo com uma amizade  incomoda,  como são sempre as amizades dos poderosos, e no caso lhe seria  mesmo fatal.

Subiu sempre, quando, de membro do Conselho Privado, em 1518, passou a speaker e presidente da Câmara dos Comuns em 1523, até que em outubro de 1529 lhe tocou a árdua e trágica sucessão de Wolsey. O velho Cardeal, ambicioso e matreiro, em cujo coração como no de quase todo o episcopado inglês, de então, a Fé cedeu à ambição, à intriga e ao servilismo, havia visto frustrado o seu intento e o seu ímpio compromisso de arrancar das mãos trêmulas de Clemente VII a falsa nulidade do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão para lhe permitir a união ilegítima com a astuciosa Anne Boleyn. Resistindo o Papa e o Concílio às pretensões do Rei que há pouco merecera o título de “Defensor Fidei” pela sua atitude contra a invasão da Inglaterra pela heresia luterana e agora cedia aos encantos misteriosos da medíocre Ana Bolena, — a sorte de Wolsey estava traçada. Teve de abandonar o posto e para preenchê-lo era mister alguém que pelas suas qualidades pudesse impor-se dentro e fora da Inglaterra, junto ao povo da City como junto ao Papa, junto à Corte e às Câmaras como junto à opinião letrada do tempo e às Cortes estrangeiras. Um nome se impôs logo pela sua ciência e pela sua sabedoria, pela sua habilidade de diplomata como pela sua popularidade que o fazia desde 1520 objeto de exemplos num compêndio de retórica adotado em todas as escolas do Reino, onde se lia o seguinte exercício: “Exprimir em latim, de quatro modos diferentes, esta proposição: Morus é um homem de espírito angélico e de inigualável saber”.

Foi a mais alta posição a que ia Thomas Morus subir em sua carreira terrena. Ascendia ao posto mais eminente a que podia qualquer pessoa aspirar na Inglaterra, ia merecer a confiança, mais do que isso, a secreta e pérfida esperança do Rei. Alguns anos antes, quando Henrique VIII frequentava a casa de Morus, com quem gostava de discutir teologia, seu genro Roger felicitara-o um dia à saída do Rei, pela familiaridade com que este o tratava. E Morus, que não era homem de ilusões, respondeu: “Se a minha cabeça pudesse valer-lhe um castelo em França, não pesaria muito tempo sobre os meus ombros”.

Era, pois, sem ilusões também que o grande humanista recebia a árdua herança de Wolsey, compreendendo bem o que é que esperavam do seu prestígio e de sua habilidade. Morus, porém, não era um temperamento que pusesse obstáculos ao curso normal das coisas. Se a Providência o encaminhava para essa cruz, procuraria tirar dela os maiores serviços para sua pátria, para sua fé e para sua alma. E aceitou o encargo, com simplicidade, como tudo o que fez em vida e na morte. Tentou separar radicalmente o caso pessoal do divórcio do Rei, da invasão luterana que começava a operar-se. Prosseguiu na tarefa, pouco antes iniciada a pedido do próprio rei, de refutar a Tyndalo e outros heresiarcas. Henrique VIII, se pretendeu e impôs a supremacia do Rei sobre a Igreja, revoltando-se contra a autoridade do Papa e arrancando a Inglaterra da unidade católica, foi sempre rigorosamente antiluterano; escrevera pessoalmente um livro contra Lutero e incitou Morus a continuar sua tarefa de campeão da Fé contra a heresia. Morus se desempenhou como sempre, nobremente, da tarefa cometida, escrevendo vários volumes de controvérsia antiluterana, em meio às suas múltiplas ocupações no Conselho da Coroa e depois na Chancelaria.

Em pouco sentiu, porém, que não conseguiria opor-se à onda que subia. O despeito do Rei contra o Papa atingia o auge, pois Ana Bolena habilmente manobrara a paixão real, e o Parlamento, com os olhos fitos nas riquezas dos conventos para haurir novas taxas, fiscais e distribuir os latifúndios entre os nobres, votava em pouco um ato proclamando a supremacia do Rei sobre a Igreja inglesa. Era o poder temporal aniquilando o poder espiritual, procurando colocá-lo a seu serviço, e dando início a esse espírito totalitário que hoje atinge a plenitude do seu monstruoso erro original.

Thomas Morus alegou doença para se exonerar. O Rei, sentindo que o nobre Chanceler não poderia servir aos seus intentos, aceitou a demissão, sem romper logo com ele, tanto assim que pediu ao duque de Norfolk que lhe fizesse o elogio. Morus, porém, não tinha ilusões. Foi então, três anos antes de morrer, que traçou seu epitáfio. Saiu pobre de um posto em que todos os ocupantes acumulavam imensos haveres. Doente, envelhecido, não pôde mais manter a sua deliciosa residência de Chelsea, que foi um centro de humanismo famoso em toda a Europa, como pendant ao jardim do Cardeal Bembo, na Itália. Dispersou a família, que era o seu encanto. Nem por um minuto, porém, se lhe amargou o ânimo ou se deixou vencer pelo infortúnio. Pelo contrário. Foi então que começou a maior ascensão de sua vida. Um calvário de três anos, em que a Corte, os Nobres, o Rei, todos tentaram tudo para reduzir essa alma tão deliciosamente simples como indomável. O cerco começou de mansinho e foi crescendo pouco a pouco. Tentaram desmoralizá-lo na sua reputação de Juiz Supremo. O pai de Ana Bolena armou-lhe uma armadilha, intentando-lhe um processo para mostrar que recebera um copo de ouro de certa senhora a quem dera ganho de causa num processo. Morus, humorista como sempre, confessou que recebera o cálice de ouro. Levanta-se teatralmente o pai da favorita, já então Rainha da Inglaterra, para cantar vitória. Morus aguarda que cesse a declamação do sogro real e tranquilamente conta que realmente recebeu a taça de ouro das mãos da tal senhora, bebeu à sua saúde, e, devolvendo-lhe o objeto, pediu-lhe que bebesse à saúde do seu marido… Terminava mal, para seus adversários, a primeira escaramuça. Mas os inimigos do futuro mártir não desanimaram por tão pouco.

Thomas Cromwell, o secretário do Rei, inventou nova acusação contra Morus. Este se prevalece de suas prerrogativas de ex-chanceler para pedir o comparecimento perante a Câmara dos Lordes. Temendo o seu prestígio e a sua eloquência, negam-Ihe o pedido. Organizam um tribunal de poucos membros. Sendo demasiado inepta a acusação, declaram-no ainda uma vez inocente, mas instam com ele para que aprove o divórcio do Rei e a sua política com relação à Igreja. Morus se esquiva. O duque de Norfolk, seu amigo, lembra-Ihe o perigo que corre e que a — indignatio príncipis, mors est. Morus se limita a responder: “É só isso, milord? Nesse caso só haverá uma diferença entre nós dois, é que eu morrerei hoje e Vossa Mercê amanhã”.

Ao voltar da sessão, estava tão alegre que seu genro e mais tarde biógrafo o felicitou. “Estou contente, respondeu o grande homem, porque passei a perna ao demônio e já agora fui tão longe com esses Lordes que não poderei voltar atrás sem me desonrar”.

Morus não procurava o martírio, mas não fugia a ele. Não desafiava a autoridade, mas não aceitaria nunca a desonra. Procurava a sombra, sem bravatas e sem preocupações. Mas o Rei sentia que todos podiam aprovar sua conduta, podia ter por si toda a plebe e toda a aristocracia, o Parlamento e o Episcopado, toda a Inglaterra, mas faltava-lhe o único apoio que o interessava, o único homem que ele realmente respeitava, o único caráter cuja aprovação podia apaziguar seus remorsos. Todos os Lordes, todos os Comuns, todo o Corpo universitário aprovara a conduta do Rei, com exceção de poucos e acima de todos desse extraordinário John Fisher, bispo de Rochester, que nunca cedeu, salvou sozinho a honra do infame e servil episcopado britânico de então, foi feito Cardeal quando prisioneiro e morreu como mártir pouco antes do próprio Morus. Henrique VIII, cansado de solicitar, por bem, a aprovação do sábio Morus, ia, sem querer, transformá-lo em santo.

Nunca fora Morus um herói profissional, desses que usam a honra en écharpe, como dizem os franceses. Sempre foi um homem de estudo, amando a vida, a conversa, a Música, os epigramas gregos, as palavras de espírito, as coleções, os métodos, as ciências novas que Leonardo da Vinci pusera em moda, o convívio alegre e erudito de suas filhas, tão letradas quanto carinhosas, e de seus amigos fiéis, que de toda a Europa iam con-versar com êle sobre as últimas estátuas gregas desenterradas na Toscana, os epigramas de Gringoire contra Julio II, as sátiras de Marot ou as canções de Margarida de Navarra.

No entanto, não falhou um só minuto durante esse longo martírio. O Rei, querendo lançar a luva definitivamente ao Papado, obrigara todos os súditos a jurarem o Ato de Supremacia da Coroa sobre o poder espiritual. Recusou Morus, naturalmente, sem ter a mínima dúvida sobre as consequências de sua recusa, — crime de alta traição, chumbo fundido pela garganta, evisceração ainda vivo e esquartejamento. Foi o martírio que sofreram vários monges cistercianos que Morus, já então prisioneiro na Torre de Londres, viu saírem da prisão, e passarem de propósito em frente à janela, em que se encontrava com sua filha Margaret, para que o ânimo do santo se dobrasse. Este, porém, resistiu a tudo. No julgamento solene a que foi submetido, em presença das mais altas autoridades do Reino, fez ele mesmo, como jurista consumado que era, sua defesa. Mostrou a inani-dade de todas as acusações levantadas contra ele. Deixou a nu a perfídia de seus acusadores e depois da sentença de morte, sem se abater um minuto, e valendo-se do direito que os acusados tinham de dar os motivos por que julgavam injusta a sentença, abriu então de par em par o seu coração. Mostrou o servilismo do Parlamento. Mostrou como o seu ato, proclamando a supremacia do Rei sobre a Igreja, era contrário à própria constituição da Cristandade. A uma objeção de que ele estava sozinho, a opor-se ao ato, quando todos o haviam aceito, respondeu: “Sozinho não, tenho comigo toda a Cristandade. Tenho comigo os mortos. Eis porque não posso ceder minha consciência aos conselhos de um reino contra o Conselho geral da Cristandade. Os santos bispos de que vos falei e que me apoiam, são mais de cem contra cada um dos vossos bispos; contra um de vossos conselhos e de vossos parlamentos e (Deus sabe o que eles valem), tenho por mim todos os concílios reunidos há mais de mil anos. E por este reino, que aqui está, tenho  todos os reinos cristãos”. E terminou sua justificação final, como sempre, com um sorriso, convocando seus juízes e acusadores a se reunirem em breve todos no céu. “Tenho confiança sincera e rezarei por isso com fervor que, embora Vossas Senhorias me hajam condenado à morte, ainda nos encontraremos todos no céu. E assim desejo que também suceda com Sua Majestade, que Deus defenda e preserve”.

Na Torre de Londres, no cubículo úmido e escuro, passou mais de um ano, num regime dia a dia mais rigoroso, pois Thomas Cromwell sempre guardava a esperança de arrancar, pelas privações, a retratação desse homem amigo das belas e boas coisas da existência. Permitira-lhe a visita da esposa e das filhas, com a esperança de que o seu coração fosse vencido pelos rogos daquelas que ele amava acima de tudo na terra, e lhe imploravam por tudo que acedesse, como os outros. Morus, porém, não era como os outros, ou pelo menos como a maioria deles. Sorria, acariciava as cabeças amadas, dissuadia  com um epigrama os amigos e vasava o seu coração em páginas inesquecíveis, poemas, meditações, um Diálogo para o conforto nas tribulações, que foi como que seu diário, em cartas em que conta como tudo o que lhe sucedia foi maduramente previsto pelo seu espírito lúcido e realista.

“Nas circunstâncias atuais”, escrevia êle à sua adorada Meg, “não me esqueci dos conselhos do Cristo no Evangelho, que antes de começar a construir esta fortaleza para salvaguarda de minha alma, era mister considerar com calma o que poderia suceder. Pesei tudo isso, Margaret, durante muitas noites de insônia; enquanto minha mulher dormia, julgando-me também adormecido, pesei bem o perigo que ia correr; calculei tudo de tão perto, que agora tenho a certeza de que nada de imprevisto pode suceder-me. E avaliando tudo isso, minha querida filha, eu tinha o coração bem pesado. Entretanto agradeço a Deus, pois, apesar de tudo, nunca pensei em voltar atrás e a última coisa que, por acaso, me possa suceder, é que o medo seja mais forte do que eu”.

Não o foi. Caminhou para o suplício, com o sorriso nos lábios. Na prisão formulara, em uma prece sublime, o seu ato de sacrifício pelo puro Amor, antes de Santa Teresa, de São Francisco de Sales e de São João da Cruz: — “Dai-me, ó Senhor, o desejo de estar junto a Vós, não para me subtrair às calamidades deste mundo ou às punições do outro, nem mesmo para gozar das alegrias do céu, nem por qualquer espécie de interesse pessoal, mas única e exclusivamente por amor de Vós”. O sofrimento fizera do sábio um santo e o elevara às regiões da mais pura Mística.

Nunca, porém, lhe tirou ou diminuiu os traços típicos de seu caráter, seu bom humor, sua alegria de viver e seu humour que tomava por vezes tonalidades rabelaisianas. Assim é que, no dia da execução, quando seu amigo Pope veio trazer-lhe a notícia que a clemência do Rei havia comutado o seu suplício de evisceração em decapitação, começou por dizer: “Deus preserve os meus da clemência do Rei”. E depois como Pope continuasse em lágrimas, resolveu fazer uma das suas, para despedir-se alegremente da vida e então (permiti-me que conte o fato em inglês, não só para não lhe tirar o sabor com que seu neto o refere na biografia que dele escreveu, mas ainda porque creio que o inglês, como o latim, brave 1’honnêreté: “And further, to put him out of his melancholie, sir Thomas More took his urinall in his hand, and, casting his water, said merrily: “I see no danger but this man may live longer if it had pleased the King”. (E, além disso, para tirá-lo de sua melancolia, o senhor Thomas Morus pegou seu urinol na mão e, lançando fora a água, disse alegremente: “Não vejo perigo; mas esse homem poderia viver mais se satisfizesse o Rei”.)

Marchou para o suplício, depois de se depedir dos seus e enviar à sua filha Meg o seu cilício, com uma carta tão simples quanto patética.

Ao chegar ao patíbulo, pediu a alguém que lhe ajudasse a subir os degraus em mau estado, dizendo-lhe: “Ajuda-me a subir. Para descer, eu me arranjarei sozinho”. De cima, dirigiu-se em poucas palavras ao povo, dizendo-lhe que morria na Igreja Católica e por ela, e acrescentou: “Morro leal a Deus e ao Rei, mas antes de tudo a Deus”. Depois de pronunciar o Miserere, amarrou ele mesmo a venda aos olhos, e ao deitar-se no tronco, dirigiu-se ao carrasco, a quem deu uma moeda de ouro “pelo serviço que ele ia prestar”, brincando com êle: “Coragem, rapaz, não tenhas medo de fazer o teu dever. Tenho o pescoço curto. Não vás bater de lado com o machado, para não te desonrar como bom profissional”. E ao deitar-se levantou ainda a cabeça para ajeitar a longa barba branca que deixara crescer na prisão, dizendo: “Ela não deve ser cortada, pois não cometeu
traição alguma”.

E ao som dessa suprema palavra de ironia e gracioso desafio ao Rei todo-poderoso, desceu o machado sobre a nobre cabeça do invencível Morus. Fora feliz, em vida, como ninguém. Tudo tivera da fortuna, saber, fama, posições, um lar sereno, uma coroa de parentes e amigos fiéis, uma filha que o compreendia e amava. Mas nunca a amizade dos poderosos ou a gratidão dos humildes, que ele hospedava em sua casa de Chelsea, nunca a glória das letras ou o amor dos seus íntimos, lhe fizeram perder nem o sentido de sua eternidade, nem o espírito de ironia para com as coisas terrenas e passageiras. Pôde assim morrer, sorrindo, com a bravura que anula toda bravata, e coroar a mais nobre das vidas com a mais perfeita das mortes.

Por essa sua deliciosa simplicidade, por essa naturalidade extrema em seu modo de ser, por essa vida tão alta e por essa morte tão pura é que sentimos esse Santo tão próximo de nós, tão capaz de receber nossas confidências, e amparar nossas fragilidades.

[Publicado originalmente na revista A Ordem, em janeiro de 1940]