Ócio, a base da cultura, segundo Josef Pieper

Josef Pieper foi um filósofo católico alemão, professor de sociologia e antropologia na Universidade de Munster. Estudou Santo Tomás, Platão e Aristóteles. Pieper possuía o dom único da clareza: refletiu sobre virtude e vício, pecado e redenção, beleza e cultura, em livros que podem ser facilmente compreendidos e facilmente apreciados.

O livro Ócio, o fundamento da cultura foi escrito em 1952. Mostra muito bem que o ócio — a capacidade de perceber, contemplar e celebrar o mundo que nos foi dado — é um dom de Deus. Ser totalmente humano é aceitar o dom divino do ócio, cultivando a serenidade, a alegria e a paz. O ócio, afirma Pieper, não é ausência de trabalho — uma ociosidade… Ao contrário, refere-se ao cultivo da bondade na alma: tem a ver, por isso, com literatura, música, celebração e assombro.

Em 1958, escrevia Mortimer Adler: “O ócio consiste em atividades que não se reduzem são a brinquedo ou jogo, mas são antes expressões da virtude moral e intelectual — coisas que um homem bom deve fazer, pois são intrinsicamente boas para si e o seu grupo social, tornando-o melhor enquanto homem e favorecendo a civilização em que vive.

Pieper crê que o ócio é a base pela qual podemos crescer em sabedoria — e, por extensão, a base pela qual podemos formar uma família e uma cultura verdadeiramente cristãs.

O estudo da grande literatura é uma forma de ócio. Hoje, em nosso tempo livre, costumamos desligar com frequência as nossas mentes, nossos corações, nossa imaginação. Ao contrário, o verdadeiro ócio é a utilização de mentes e corações para criar uma relação mais profunda com Cristo e sua Igreja.

Penso sempre em meu pai, trabalhando todo dia para manter a casa, mas, ainda assim, conseguindo arranjar tempo suficiente para escrever um pequeno livro sobre a história da nossa família. Não escreveu o livro por dinheiro ou fama (só foi lido por nossa família). Ele o fez, penso eu, para aproveitar o seu tempo de ócio, através de uma discreta ocupação intelectual que, além de lhe trazer muito gosto e alegria, conquistou-lhe o apreço da família. Foi, no fim das contas, um trabalho que o ajudou a enxergar melhor a realidade.

O livro de Pieper pode ser compreendido como uma espécie de chave — um amplo esboço de modos pelos quais a imaginação literária pode formar e renovar a cultura cristã. Se queremos transformar a cultura, devemos começar cultivando nossas mentes para Cristo. O ócio, um verdadeiro ócio, é a ação de colocar nossas mentes, corpos e corações a serviço de Deus. Josef Piepper compreendeu-o muito bem; e é assim que também devemos fazer.

(James D. Conley é bispo da diocese de Lincoln, Nebraska, EUA. Este ensaio foi publicado no National Catholic Register, em 31 de maio de 2015)

https://www.ncregister.com/images/documents/Literature_Section_053115.pdf