Crise literária

Nossa crise é, em muitos aspectos, uma crise literária e, portanto, uma crise da imaginação. Bem poucas pessoas, hoje, leem bons livros. Estamos ocupados com nossas famílias e nossas profissões. A televisão, com seu canto de sereia, tenta-nos a gastar um tempo enorme e sem sentido com esportes, comédias grosseiras ou as improvisações melodramáticas do reality show.

A internet também reclama nossa atenção; e mesmo quando lemos online, é uma leitura fragmentária, vendo e-mails, tweets, blogs, com tantas informações  vazias e bisbilhoteiras. Ou, então, lemos livros que não satisfazem a nossa inteligência, nem a nossa imaginação (como histórias pornográficas de zumbis e vampiros).

Leem-se também obras técnicas, em busca de modernos métodos de aprendizagem nessa ou naquela área, com certas habilidades necessárias que nos preparam para uma profissão, mas que não nos tornam mais completamente humanos.

Na melhor das hipóteses, o conteúdo cultural que consumimos, hoje, é pouco inspirador. E a mídia em si, ela própria — a tecnologia pela qual consumimos esses conteúdos —, é muito perigosa. Nossos celulares e tablets possuem um grande potencial, mas podem também nos tornar pessoas estreitas, de mentes limitadas, viciadas em satisfação imediata, vítimas do tédio se não têm estimulação frequente; estão distantes dos relacionamentos reais (que são substituídos por mensagens de texto, tweets e curtidas no Facebook).

Algumas vezes, se usada com moderação, a televisão pode valer a pena, e a internet pode ser uma fonte de grande bem; mas, se não tivermos cuidado, toda essa tecnologia pode nos transformar em almas vazias, pessoas verdadeiramente solitárias e entediadas.

A verdade é que perdemos a cultura literária que formou os heróis da história ocidental. Nós a substituímos por ruídos. A literatura, que já formou mentes e corações em direção ao alto, anda esquecida; mas ela — e com ela a música e as belas artes —  é o antídoto para essa cultura desanimada que está aí; possui as ferramentas necessárias para resolver nossa grave crise cultural. Precisamos compreender a humanidade através de Platão, Santo Agostinho e Shakespeare; é o caminho para compreendermos a nossa própria humanidade.

Nas trevas do atual e deliberado analfabetismo, corremos o risco de perder a visão até de nós mesmos.

(James D. Conley é bispo da diocese de Lincoln, Nebraska, EUA. Este ensaio foi publicado no National Catholic Register, em 31 de maio de 2015)

https://www.ncregister.com/images/documents/Literature_Section_053115.pdf