Formação cultural

Os homens e as mulheres que tiveram mais influência em minha vida foram leitores. Professor John Senior, meu professor e padrinho, parecia ter todo o cânon da poesia e da literatura ocidental na palma da mão. Beato John Henry Newman, meu mentor espiritual, era um homem de letras. Meu avô era um ávido leitor de história da América, e meu pai foi leitor e escritor — em seu escasso  tempo livre, escreveu um livro sobre a ascendência indígena de nossa família.

O dramaturgo russo Anton Chekhov disse, certa vez, que “o negócio da literatura não é para responder perguntas, mas para formulá-las de forma justa”. Não tenho certeza de que isto seja verdade. A literatura levanta questões, mas também pode — com o testemunho das ideias, personagens ou histórias — nos apontar as respostas finais, as coisas permanentes.

Uma boa literatura forma cosmovisões: oferece-nos uma compreensão mais profunda de nossas famílias, de nossas comunidades e de nós mesmos. A grande literatura oferece-nos uma compreensão mais profunda de nosso relacionamento com Deus e o mundo.

A literatura reflete e, ao mesmo tempo, cria cultura. A história da cultura ocidental pode ser traçada pelas narrativas que elaboramos no último milênio. Leiamos muito ou não, fomos todos formados, ao menos em parte, pelas ideias e esperanças expressas na história da literatura ocidental.

Hoje, enfrentamos uma crise cultural sem precedentes. A família se desintegra diante de nossos olhos. Mulheres e crianças se realizam de novas e perigosas maneiras. A pornografia é ubíqua. O aborto se disseminou. O discernimento civil e moral se tornou uma arte perdida.

Eu falo muitíssimo sobre beleza. E sou questionado algumas vezes, no meio de nossa crise atual, se dedicar atenção à literatura, música, poesia e arte não seria uma perda de tempo. Perguntam-me se não seria mais prudente gastar nossas energias no combate dos efeitos políticos do secularismo, antes de perder tempo com bibliotecas e livros.

Numa situação tão grave como a nossa – para a vida familiar, a liberdade religiosa e os nascituros – esta é a verdadeira questão.  Precisamos ser ativos na arena política – cada um de nós, como cristãos. Precisamos propor ações políticas que favoreçam a dignidade da pessoa humana, as instituições que a animam e a ordem social. É necessário proteger o nascituro, a liberdade de consciência, a concepção tradicional do casamento e a soberania da família. Mas não seremos bem sucedidos, na arena política, se antes não tivermos sucesso na transformação da vida cultural. A crise que enfrentamos, hoje, é uma crise cultural, com consequências políticas. Boas ações políticas nascem de boas cabeças e bons corações. E políticas nocivas nascem de mentes acanhadas e visões curtas, do egoísmo, da ganância, da luxúria. Nossa luta não é somente por ações políticas: é uma luta por mentes e corações.

(James D. Conley é bispo da diocese de Lincoln, Nebraska, EUA. Este ensaio foi publicado no National Catholic Register, em 31 de maio de 2015)

https://www.ncregister.com/images/documents/Literature_Section_053115.pdf