O valor da civilização ocidental hoje está fora de moda, quando não é negado. Mas Rodney Stark vai contra a corrente e contesta a oposição entre modernidade e cristianismo. É o assunto do seu livro O TRIUNFO DO OCIDENTE, lançado em Portugal pela Editora Guerra e Paz, em 2014. A seguir, entrevista com o historiador americano

Ocidente é uma palavra equívoca. Lembra opressão e tendências imperialistas, horrores coloniais e obscuros projetos de hegemonia global, tanto que as conquistas historicamente nascidas no quadro da tradição ocidental – da ciência e da arte até às liberdades cívicas e políticas, passando pelo mercado livre – no discurso público têm de ser reconduzidas a outras tradições para não incorrer no pecado capital do etnocentrismo. As pretensões de universalidade no âmbito da filosofia e da ciência são na realidade sintoma desse complexo de superioridade com que a cultura ocidental alimentou ao longo dos séculos a sua prepotência. No limite, o ocidente é apresentado como o mais astuto e temível predador do engenho humano: os gregos imitaram a cultura egípcia, a Europa cristã roubou a ciência ao islão e a tecnologia à China. Não é mais do que um copy-paste do melhor da cultura global, perpetrado com meios ilícitos (frequentemente violentos) e sem sequer citar as fontes.

Em linha com esta concepção, nas últimas décadas os cursos sobre a civilização ocidental têm sido sistematicamente eliminados das universidades americanas e nas elites acadêmicas a negação da identidade ocidental tornou-se uma posição comum. «Está incrivelmente fora de moda estudar, ou até mesmo falar, de ocidente nestes tempos», escreve Rodney Stark no seu último livro O Triunfo do Ocidente, publicado em Portugal pela Guerra e Paz Editores (2014).
Stark nunca receou ir contra a corrente no debate sobre o ocidente. Refutou a superioridade tecnológica da cultura asiática na Idade Média, desmantelou a vulgata das cruzadas enquanto guerras de conquista, pôs até em questão a famosa tese de Max Weber sobre a ética protestante como origem do capitalismo: muito antes da Reforma tinha-se desenvolvido na Europa um sistema bancário florescente. Em dezenas de volumes e artigos, o eminente sociólogo que, segundo diz, se começou a dedicar à religião “por acaso”, explicou o contributo inegável da civilização ocidental, certamente cravejado de contradições, descarrilamentos e erros mas, ainda assim, motor positivo para o desenvolvimento humano e não sarjeta dos males do mundo que importa desmontar.

Nascido em 1934 em Jamestown, no North Dakota, numa família luterana, Stark explorou a fundo o desenvolvimento do fenômeno religioso, identificando os elos entre a civilização ocidental – com os seus progressos e ambições universais – e o facto cristão que a cultura mainstream tende a obliterar ou a reduzir. Se no processo de desmantelamento se admite que o ocidente deu algum contributo original à civilização humana, o mérito cabe à modernidade secularizada, que livrou o homem das cadeias mentais do obscurantismo e da superstição cristã.
Stark, que, quando em 2007 foi nomeado professor na Baylor University do Texas se definiu como um “cristão independente”, propõe uma leitura oposta: o cristianismo foi um fator decisivo no desenvolvimento das ideias, das instituições políticas, dos sistemas econômicos, das conquistas cívicas e do avanço tecnológico que agora o mundo exalta, mas só na condição de lhe censurar a origem. Talvez seja precisamente nisto que consiste a grandeza do contributo de Stark: ter trazido novamente à luz a ligação entre cristianismo e cultura que séculos de ideologia tentaram sepultar sob espessas camadas de lugares comuns e dicotomias intencionalmente criadas. Entre estas, a radical oposição entre cristianismo e modernidade: daqui parte a conversa com o professor norte-americano. (Mattia Ferraresi)

O cristianismo é frequentemente apresentado em oposição à modernidade. Mas o senhor, pelo contrário, defende que a modernidade é um produto do cristianismo, ainda que por vezes se apresente como uma “verdade enlouquecida”, para usar a expressão de Chesterton. Qual é a origem da sua leitura?
A base fundamental da modernidade é a fé na razão e a convicção de que o universo é razoável; portanto, em certa medida compreensível. Esta é uma prerrogativa do ocidente, baseada na concepção judaico-cristã de um Deus criador racional. A sua criação assentava, portanto, em leis racionais que podem ser descobertas através da observação e do uso da razão.

No entanto a razão parece perder-se quando se julga auto-suficiente.
Não é de surpreender que o homem possa abusar da razão e as nossas conquistas científicas possam ser o terreno onde cresce um orgulho desmesurado, é um dos pecados capitais. Quando leio intelectuais antirreligiosos, como por exemplo Richard Dawkins, impressiona-me sobretudo a sua incrível arrogância e o facto de não se darem conta da desproporção entre os seus reduzidíssimos conhecimentos e as maravilhas do universo.

O senhor diz que historicamente o ocidente venceu, mas continua a vencer ainda hoje? Logo após o colapso da União Soviética parecia que a história ia no sentido da natural difusão do modelo ocidental em termos políticos, económicos e ideais, mas um olhar à nossa volta basta para entender que não foi assim.
A civilização, na forma dos valores iluminados e das instituições liberais, é sempre precária. Especialmente agora que a modernização tecnológica inventada pelo ocidente se propagou, mas muitas vezes sem a civilização. Na realidade, também no ocidente a civilização poderá desaparecer, como sucedeu na Alemanha nazi e na União Soviética, deixando nações inteiras com aviões e tanques, mas sem moralidade.

Quer dizer que a civilização não está conquistada de uma vez por todas?
Infelizmente muitas pessoas nos países democráticos do ocidente esqueceram, ou nunca refletiram convenientemente, a necessidade de se defender a civilização de semelhante barbárie, então como hoje. Pior, muitas dão por adquiridos os privilégios e parecem incapazes de ver a necessidade de um sacrifício.

Qual é a origem desta atitude?
Creio que não se trata de um fenômeno novo. Durante anos hesitamos quando se tratou de travar Hitler e Estaline. Infelizmente quem aprendeu pela experiência que era necessário travar a opressão não conseguiu transmitir a mesma urgência às gerações mais jovens. Por isso é que demasiados jovens americanos e europeus pensam que a Guerra fria foi um grande desentendimento e não se querem maçar com problemas distantes, em lugares como a Ucrânia ou o Médio Oriente. Li recentemente que um terço dos jovens inglese não sabe que foi Churchill. Em 2006 dois terços dos americanos entre os 18 e os 24 anos não conseguiam indicar o Iraque no mapa.

Dedicou-se durante longo tempo às transformações religiosas na América. Como tem evoluído a relação dos americanos com o fenômeno religioso? Há quem defenda que existe um regresso da necessidade religiosa, acompanhado porém de uma profunda crise das igrejas tradicionais.
O ponto de observação menos favorável para tentar perceber o que sucede na América é uma sala de professores onde os professores falam entre si e apenas leem coisas escritas por eles ou por jornalistas que vivem igualmente isolados do mundo real. Apesar de todos estes estarem à espera de uma mudança do sentimento religioso na América, continuou incrivelmente estável. A participação nas vidas das igrejas é estável há cinquenta anos, mais de oitenta por cento dos americanos acredita nos anjos, a maior parte reza (um terço reza mais de uma vez ao dia) e os ateus são 4 por cento da população desde 1944, o primeiro ano de que há dados significativos.

Onde nasceu o erro de perspectiva? 
Muitas vezes a falsa impressão de secularização é originada por líderes religiosos que perderam a fé ou estão completamente afastados do sentimento geral, mas a tendência de estabilidade permanece porque estes líderes conduzem denominações que estão a perder rapidamente os seus fiéis, os quais se voltam para igrejas que “conservaram a fé”.

A Europa parece decididamente mais secularizada. 
Sim, é verdade. Mas é muito mais uma crise das igrejas do que uma questão de irreligiosidade. E isto em parte é o reflexo da falta de competição entre igrejas. Onde muitas trabalham para os seus membros, como sempre sucedeu nos Estados Unidos e agora também na América Latina, nota-se um nível mais profundo de religiosidade. Estou a trabalhar sobre as perspectivas religiosas europeias num livro que vai sair no próximo Outono, significativamente intitulado The Global Religious Awakening: the Triumph of Faith Over Secularity. (26-01-2015)

Em: http://www.revistapassos.pt/default.asp?id=483&id_n=301&ricerca=chesterton