A obra que nos oferece o autor de Maquiavel e o Brasil é o segundo volume da sua Tragédia Burguesa e a segunda parte de Mundos Mortos com que há um ano iniciara o seu “roman fleuve” (Octávio de Faria, Os Caminhos da Vida, José Olympio, 1939). Muito jovem ainda, pois apenas ingressou na terceira década da existência, e tendo iniciado em 1933 sua carreira de publicista, já nos oferece entretanto vários prismas de uma personalidade literária inconfundível — sociólogo com Maquiavel e o Brasil (1931) e Destino do Socialismo (1933); crítico com o estudo sobre Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes ( Dois Poetas, 1935); homem de pensamento com Cristo e César (1937) e Fronteiras da Santidade (1939), revelou-se romancista com Mundos Mortos e homem de teatro com Três tragédias à sombra da Cruz (1939), de que há pouco nos ocupamos. Isso, fora o grande número de obras que nos promete nos gêneros já publicados. Foram, como vemos, seis anos de verdadeira incontinência literária. Tem-se a impressão de um rio cujas águas ficaram algum tempo represadas e que, de repente, rompeu as barreiras e extravazou violentamente por dentro e por fora do mesmo leito.

E o curioso é que essa incontinência literária, que carrega indistintamente o joio e o trigo, se manifesta, tal como a literatura cifrada e dirigida do sr. Cornélio Penna, por uma profunda ausência de “literatura”. Bem sei quanto é difícil graduar, na obra de um autor, os limites da intenção literária, mas se entendermos por intenção literária o propósito de simples divertimento, imaginação e descrição, adorno , ou exibição — é certo que não encontramos vestígio dessa deturpação do verdadeiro sentido da literatura na obra de qualquer um desses dois romancistas do pós-modernismo, em nossas letras. É mister, aliás, acrescentar que uma das feições típicas do romance atual é justamente essa ausência crescente de preocupação estética, que atinge por vezes o desleixo e a facilidade.

No caso do sr. Octavio de Faria logo se nota essa coexistência de um borbulhamento interior de impressões e conceitos, que procuram vazão com a inexistência de qualquer propósito de atitude, de conquista, ou mesmo de objetividade estética. Sua obra de romancista, de teatrólogo, de critico ou de sociólogo se passa exclusivamente (ou aspira a passar) no plano da Verdade. Pode-se mesmo dizer que só a Verdade o interessa. E como ainda não a encontrou ou, antes, perdeu-a e ainda não conseguiu descobrir o caminho de volta — debate-se violentamente contra tudo e contra todos que possam, de qualquer modo, afastá-lo desse único e supremo objetivo. Daí o caráter trágico ou mesmo pessimista de sua obra de romancista, de político ou de publicista. É em tudo um antiburguês, um anticonformista. Daí também a sua preocupação pelo problema da santidade, de que oportunamente nos ocuparemos, mesmo sem ter resolvido os problemas políticos, sociais ou literários que a vida tem desdobrado em seu caminho.

Não se conforma com as meias verdades, a meia beleza, a meia honestidade, a meia autoridade, essa mediocridade normal da vida que é a maior das armas com que o Demônio combate a lei de Deus. Seu amor simultâneo a Cristo e a Cesar, que a muitos pode inquietar ou parecer uma traição (aos cesaristas uma traição a Cesar, aos cristãos uma traição a Cristo), e que ele procurou sustentar dramaticamente, como tudo que escreve (pois é sempre dramático e polêmico) — é uma das modalidades da sua revolta perene contra essa terrível desdignificação do homem, com que a vida vai polindo as arestas mais vivas. O sr. Octavio de Faria, longe de deixar que as ondas da idade venham polir as arestas dos seus rochedos interiores, reage sempre e procura mesmo violentar-se, contanto que possa aguçar, com isso, a sua cidadela intangível ou “intocável”, segundo um dos termos que só ele usa e que sempre voltam em seu estilo, tantas vezes descuidado e deselegante. Não “à dessein”, como faria um esteta requintado, mas pelo acúmulo de águas interiores que o rio tem de desaguar constantemente.

O autor do Destino do Socialismo começou por dois livros de violenta realidade política e de realismo sociológico desabusado. Em face do grande júbilo dos “homens de ação”, que já festejavam o aparecimento de um “homem”, na novissima geração — lançou o seu “non possum” e firmou-se no seu terreno puramente intelectual. Essa incapacidade congênita para a ação talvez lhe proviesse, não apenas de um temperamento totalmente introvertido, mas ainda de sua sede de absoluto, de sua insatisfação pelas meias-realizações que a ação exige, mormente num meio conformista e complacente como o meio brasileiro. Sentindo fechadas, por natureza, as suas comunicações como esse campo de ação, que tanto amava de longe, por ser aquele em que a vida mais se realiza em seu vigor indomável, jogou-se então no romance como um refúgio. Era uma tribuna mais ampla para proclamar, de dentro de sua aparente misantropia intratável, o seu doloroso amor pelos homens, pela tragédia dos homens. E começou então a escrever a tragédia de sua classe, a tragédia burguesa.

Em Mundos mortos era o drama da adolescência, como também Os caminhos da vida, em que volta à infância por vezes, e por vezes começa a invadir o limiar da mocidade. As figuras de Branco e Pedro Borges Borges, que haviam surgido pouco a pouco da penumbra dos adolescentes indistintos de Mundos Mortos e tinham chegado à luta corporal à saída do enterro de Carlos Eduardo — voltam a ser as figuras centrais de Os caminhos da vida. Carlos Eduardo fora o anjo que Branco venerava, na sua eterna procura do absoluto e da pureza, nesse “angelismo” que nos tortura antes de encontrarmos a Deus. Branco, em que tantos traços autobiográficos repontam, é a busca ansiosa da verdade, o homem interior, sensível, delicado, ferido pela brutalidade e pela vulgaridade do mundo. Pedro Borges, ao contrário, é o adolescente convencional e vulgar de nossos dias, ávido de conquistas, brutal, fescenino, desabusado, imperioso e vitorioso na luta de ódios, espertezas e instintos que a vida nos reserva.

A luta entre os dois prossegue em nós, através desses novos tomos do romance. E é toda a vida interior e exterior da adolescência que continua a projetar-se ao longo dessas páginas estuantes de vida, de sofrimento, de experiência, de desespero tantas vezes, e muito vagamente ainda dessa esperança transcendental, desse apelo a Deus, dessa vocação divina que ilumina de longe as trevas duríssimas dessa vida angustiada de Branco e que, só ela, pode satisfazer essa alma toda cheia da grandeza e da miséria do ser humano.

Literalmente, o que me parece mais forte no livro é o episódio de “Geralda ou o ninho entre os astros”, no qual o autor nos apresenta um verdadeiro poema dos olhos, do Olhar, desse sentido do contato dos tímidos com as coisas do mundo, que Machado de Assis multiplicou em sua obra e culminou no famoso episódio do penteado de Capitu. O prelúdio de Tristão e Isolda, em que o tema do olhar, antes, durante e depois do filtro, nos envolve em suas chamas de modo aniquilador, é a música que conviria ouvir para lermos alto as páginas em que Branco faz Geralda “nascer” sob as chamas concentradas, ardentes e distantes dos seus olhos.

(Artigo publicado em O Jornal, em 14 de Janeiro de 1940. O Jornal foi o primeiro órgão de imprensa de Assis Chateaubriand, célebre pelo império jornalístico dos Diários Associados.  Fundado em 1919, O Jornaldeixou de circular em 1974.)