No tempo de Júlio Diniz e de Machado  de Assis, de que nos ocupamos nas crônicas passadas, o romance ainda era a exceção. Hoje, é a regra. Em Portugal o autor da Morgadinha dos Canaviais sucedia a Camilo Castelo Branco e era sucedido por Eça de Queiroz. Cada um a seu tempo,  tranquilamente, enchendo a sua época,  quase solitários. No Brasil, contavam-se a dedo os romancistas. José de Alencar sucedia a Macedo, como Machado  sucedia a José de Alencar. Em torno deles, figuras menores e escassas. Havia como que uma corte literária: um rei e alguns vassalos, de maior ou menor nobreza de brasões. Tudo simples e ainda provinciano. Largos espaços de sombra marcavam os intervalos entre   os poucos romancistas que surgiam. E o âmbito de sua repercussão era diminuto.

Hoje, como tudo mudou! Sucedem-se os romances a dois, três e quatro por mês. Vêm do norte e do sul, do litoral e do sertão. Chegam carregados de pensamento ou estuantes de sensualidade. Descem das classes mais elevadas ou sobem do povo inculto. Ultrapassam em realismo tudo o que as imaginações mais depravadas de outrora podiam sequer imaginar (e são desgraçadamente a regra), ou excedem em delicadeza de expressão tudo o que a pena mais casta poderia desejar. Refletem os dramas sociais mais modernos ou evocam o passado histórico ou mesmo pré-histórico da humanidade. Mergulham em pleno nacionalismo literário, procurando febrilmente a expressão original, a língua nova, as figuras regionais, ou populares mais autênticas — ou se espraiam pelo cosmopolitismo de uma terra cada vez mais pequena e mais dividida contra si mesma ou então pelo humanismo em que se revê a figura do homem eterno e universal.

Todos os gêneros coexistem e todas as originalidades individuais se lançam à procura da expressão mais nova e mais aguda. Surgem romancistas novos cada mês, cada semana quase. Os editores não têm mãos a medir e podem selecionar os manuscritos, sem temor de não servir, a tempo e a hora, a curiosidade insaciável de um público que devora toneladas de papel impresso indistintamente, desde que tenham na capa a palavra mágica — “romance” .

Se o consumo, no mercado da ficção, cresce de modo geométrico, não há que temer qualquer espécie de maltusianismo literário, por parte da produção, que não cresce de modo aritmético, mas em proporções de uma geometria não euclidiana.

Estou longe, aliás, de ser pessimista quanto à qualidade dessa massa de romances que ultimamente vêm invadindo as vitrines das livrarias e as nossas estantes. Não sei mesmo de ano literário que possa apresentar tal soma de romances dignos de ser lidos, como este que ora está para findar. Se o romance foi o gênero literário triunfante em 1939, pela preferência tanto de autores como de público, foi também porventura aquele em que obras de melhor quilate vieram a lume. José Vieira, Telmo Vergara, Dinah Silveira de Queiroz, Guilherme Figueiredo, Guilhermino Cesar, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Galeão Coutinho, Lúcia Miguel Pereira, Menotti dei Picchia. Érico Veríssimo, Vianna Moog, “et j’en passe”, se nos deram novelas ou romances de valor desigual, algumas das quais  pouco ou nada serão daqui a alguns anos — também nos deixaram algumas obras que ficarão entre as coisas mais sérias de nossas letras de hoje e mesmo de sempre.

Entre esses romancistas, cuja mensagem é das que ficam e não das que apenas encantam de passagem nossa imaginação, dois já se impuseram de modo imperativo às exigências mais difíceis do nosso paladar saturado de hoje em dia — os senhores Cornélio Pena e Octavio de Faria.

Há, entre os dois, grandes afinidades. E há também rigorosas diferenças específicas. São ambos romancistas do Mistério, da Solidão e da Morte. Mas um é prolixo e o outro conciso. Um pretende refletir, como Balzac ou Proust, uma geração e uma época. O outro, pelo contrário, vem trazer-nos o drama das consciências profundas e totalmente isoladas do seu meio e do seu tempo.

(Artigo publicado em O Jornal, em 14 de Janeiro de 1940. O Jornal foi o primeiro órgão de imprensa de Assis Chateaubriand, célebre pelo império jornalístico dos Diários Associados.  Fundado em 1919, O Jornal deixou de circular em 1974.)