Vivemos numa época de saneamento linguístico, que visa, aparentemente, proteger algumas categorias de indivíduos de certas palavras antipáticas e estigmatizadoras (o que seria, em princípio, algo bom, “filantrópico”).

Por essa operação saneadora da linguagem, transformam-se surdos em deficientes auditivos, gagos em disfluentes, aleijados em portadores de necessidades especiais (ou cadeirantes), velhos em idosos, velhice em terceira idade, gordos glutões em obesos vitimados pelo marketing alimentar, etc.

O objetivo claro é abrandar a linguagem, suavizá-la, defendendo as pessoas de certos carimbos verbais que possam indicar preconceito ou segregação. Aparentemente humanizador, tal saneamento linguístico tem, no entanto, um nítido propósito político, indiscutivelmente revolucionário: passar a limpo a realidade, a partir do seu invólucro linguístico.

O espírito revolucionário necessita da palavra e da espada para vencer suas batalhas culturais, mas os revolucionários sabem qual é a arma mais adequada a cada circunstância histórica. Perceberam que, na época da informação — nosso aqui e agora submerso num furioso oceano de mensagens —, a linguagem seria o seu principal aliado. “Entre o verbo e a espada, o momento é, predominantemente, do verbo”, disse o marxista Heinz Dieterich Steffan, em sua obra O socialismo do século XXI.

Bom exemplo é o que ocorre no abrandamento do léxico homossexual, visando cortar não só termos populares carregados de malícia — que de fato não harmonizam com a caridade cristã —, mas encontrar palavras que colaborassem na tarefa política de eliminar qualquer traço de anormalidade no comportamento dessa minoria (que ambiciona, pela ideologia LGBT, transformar-se em maioria — e nisto nada há de cristão…). A palavra “homossexualismo”, com o suspeito “ismo” indicativo de crença, tendência ou patologia, deveria ser substituída por “homossexualidade”, substantivo abstrato livre de manchas semânticas.

Várias palavras se candidataram para designar a pessoa que é atraída por outra do mesmo sexo: “homossexual”, “gay”, mas nenhuma tem maior poder suavizador do que a mais recente delas, “homoafetivo”, cuja aceitação linguística já seria meio caminho andado para a instituição social e jurídica do chamado “casamento gay”. Na mesma esteira, surgiu o termo “homofobia”, que designa a pessoa preconceituosa em relação aos homossexuais em geral.

Algo semelhante aconteceu com os negros, vítimas da injustificável violência da escravidão. Contudo, só começaram a reagir, publicamente, diante das palavras usadas para nomeá-los, a partir do momento em que alguns deles se organizaram em grupos ativistas de esquerda, atribuindo-se o poder de representar o conjunto. Os descendentes de africanos já foram “pretos”, depois “negros” e agora são “afro-descendentes”.

De qualquer maneira, o trabalho dos militantes consistia em convencer suas “minorias” do direito de exigir novo tratamento linguístico, e as maiorias do dever de substituir os termos ofensivos, velhas palavras que deviam ir para o baú de guardados da língua vernácula. Essa “revolução linguística” é parte de uma “revolução cultural” que, por sua vez, desaguaria na revolução total, com a transformação radical de todas as instituições sociais.

Essa importância atribuída à palavra, à função transformadora da linguagem, vem da suspeita de que a linguagem, mais do que simples veículo de significados, é uma usina produtora de realidades: os nomes dados às coisas determinariam nosso modo de vê-las e de lidar com elas.

Um linguista soviético, o russo Ivanov, reafirmando a noção de que as línguas são meios de transporte das ideias válidas em determinado grupo social, garantia que o indivíduo assimila, já na infância, junto com o mecanismo da língua, o sistema de valores da sociedade embutidos naquela. Assim, aprender a falar, a ler e a escrever seriam, em vez de início da libertação do espírito, o começo do aprisionamento ideológico, e a língua um verdadeiro instrumento de controle comportamental.

Daí a necessidade, segundo os revolucionários, de começar a virada pela linguagem e seus produtos, como a literatura e as demais artes. “Entre o verbo e a espada, o momento é, predominantemente, do verbo”.

É hora, portanto, dos contrarrevolucionários mais intimamente ligados à “palavra” — escritores, jornalistas, professores, leitores habituais, políticos bem intencionados — tomarem consciência do fato de que estamos numa guerra de palavras, uma guerra cultural. A primeira atitude deve ser a de permanente vigilância em relação aos novos termos que as mídias despejam online, não assimilando nem propagando certas palavras ou expressões que, mais do que neutras e inocentes transportadoras de significados, são poderosos “cavalos de Tróia” que penetram como vírus na alma das pessoas, debilitando-as e predispondo-as às ideologias da moda.

Em seguida, como eficazes contravenenos aos poluentes revolucionários da linguagem, recomendam-se as grandes obras literárias de sempre, os “clássicos” referendados pelo tempo — lendo-os, divulgando-os, ensinando-os. São remédios sem contraindicação, cuja principal serventia é defender as palavras que herdamos dos nossos antepassados e fortalecer o espírito que nos foi dado pelo Criador.

Se a revolução, hoje, começa pela linguagem, é por ela que o espírito contrarrevolucionário deve reagir.