MAURIAC? – Otto Maria Carpeaux

Tive um amigo — há muitos anos saudosos —, grande entusiasta das letras francesas, cuja clareza cartesiana não tinha conseguido aclarar as confusões terríveis da sua fraca memória. “Estou tresnoitado”, disse, encostando a cabeça na mesa do pequeno café literário. “Li durante toda a noite, e estou ainda fascinado. Que romancista, este Mauriac! Reúne nos seus romances a curiosidade psicológica das suas engraçadas biografias romanceadas e a severidade clássica das suas doutrinas políticas! Mauriac! Estou fascinado!” Mauriac? E eu compreendi que o meu pobre amigo, fascinado por Mauriac, não sabia quem é Mauriac: confundiu-o com Maurois et Maurras.

Mauriac é fascinante. Todos se sentem fascinados por ele, todos os leitores de romances, e sobretudo as senhoras, que constituem entre eles a maioria. Mauriac é fascinante. Chega a perturbar de tal modo as cabeças, que não se sabe, enfim, quem é Mauriac.

Quem é Mauriac? A resposta parece fácil: um grande romancista católico. O romance francês possui uma maravilhosa tradição; na França, até os estreantes já dispõem de certas qualidades de psicólogo profundo e de construtor admirável. O romance francês, em geral, é psicologicamente agudo e classicamente construído. François Mauriac representa, dentro dessa tradição, a atitude católica. Como os clássicos do século de Luís XIV, reúne à abundância de vida emotiva o rigor da moral cristão. Neste sentido, o romancista católico François Mauriac é um clássico.

É um clássico ainda em outro sentido, mais barato: excede pelo valor literário todos os seus correligionários precedentes. Mauriac, cheio de vida existencial, é superior às construções mecanicamente regulares de Paul Bourget, para não falar das misérias literárias dum Henry Bordeaux. Em que consiste essa superioridade? Mauriac reconheceu a realidade do pecado.

Nos romances de Bourdeaux, o pecado é uma espécie de espantalho para crianças adultas, produzindo as complicações dos Malheurs de Sophie católicas. Em Bourget, snob de aristocracias imaginárias, o pecado é uma tentação mundana, produzindo os Malheurs de Comtesse Sophie. Em Mauriac, o pecado é algo mais: caminho da morte e da vida. Ele lembra, ao mesmo tempo, Oscar Wilde, que sabia que “o pecado é o último fio de cor, no tecido cinzento da vida moderna”, e Sinclair Lewis, em cujo Main Street “a pequena cidade americana tem apenas uma saída para o mistério: a missa católica”. Mauriac toma a sério a vida e a missa, ao mesmo tempo; o pecado é para ele uma realidade.

Se o pecado não é um prazer nem um espantalho, é uma coisa inquietante. E Mauriac é inquietante. É o romancista da inquietação. Inquieta ao mundo burguês dos seus romances e dos seus leitores, como os burgueses do jansenismo se inquietavam com a flama escura das paixões de Racine e se tranqüilizavam com a sua conversão edificante. Na verdade, Mauriac possui algo da arte de Racine. Não é por acaso que Asmodée o revelou como dramaturgo. Todos os seus romances têm força dramática: a do teatro e, às vezes, da ópera.

O teatro é essencialmente uma arte de fascinação, e a ópera o é por todos os meios. Mauriac é fascinante. Mas isto não representa uma definição de valores literários. É possível que o prazer da fascinação satisfaça plenamente aos leitores. Mas há leitores e leitores. Albert Thibaudet distinguiu o “liseur” e o “lecteur” de romances, observando que entre os “liseurs” prevalecem as “liseuses”. Foram as “liseuses” que fizeram o êxito enorme de Mauriac. Mas eu não sou uma “liseuse”. Sou um “lecteur”, e permito-me perguntar: romancista católico? Romancista como Balzac, ou romancista como Bourget? Católico como Bloy, ou católico como Bordeaux? Romancista católico como o mendigo Bloy, como o exilado Bernanos? E já sei que François Mauriac não é mendigo, e sim acadêmico; que não está exilado, e sim na França, onde, como ele escreveu recentemente, “le fleuve français continue a courir”. Isto é, a vida burguesa de Mauriac continua. Perguntando implacavelmente: “Qual é a atitude do escritor?” – a atitude que define o valor – recebemos a resposta: “Mauriac é um bem-pensante.”

Mas é impossível! Como podem coexistir a inquietação e a atitude burguesa? A casa burguesa de Mauriac, onde rumoreja a inquietação jansenista, é a casa tradicional do romance francês: muito bem construída com as pedras regulares da matemática cartesiana, como um quebra-cabeças que convidasse a desarmá-lo, a analisar a construção analítica precisa do plano do edifício: isto é, da atitude do escritor.

Todo o romance tradicional francês, essa maravilha de construção psicológica, gira em torno da mesma palavra, que é também a palavra-chave de Mauriac: o pecado. O elemento pessoal em Mauriac é a união virtuosa da inquietação romântica e da estilização clássica, e o meio dessa estilização é o seu estilo. É o seu estilo, sobretudo o seu estilo, pelo qual a sua curiosidade psicológica e o seu rigor tradicionalista se distinguem da famosa “curiosidade das almas femininas” de Maurois e do rigoroso classicismo de Maurras, com os quais aquele coitadinho o confundiu. O segredo de Mauriac, da sua inquietação burguesa ou da sua burguesia inquieta, está no seu estilo.

Felizmente possuímos uma excelente análise do estilo mauriaquiano, de autoria do Sr. Yves Gandom: o estilo de Mauriac, muito romântico, caracteriza-se pelo uso freqüente do pronome demonstrativo para designar coisas ainda desconhecidas, o que gera a impressão do déjà vu, da “realidade do sonho”; pelas mudanças perpétuas do tempo, o que produz a vivacidade; pelas apóstrofes do autor ao herói, o que facilita a identificação psicológica do herói com o leitor, este também apostrofado pelo romancista; pela inserção das análises psicológicas nas descrições exatas de coisas exteriores, o que cria a atmosfera de pesadelo pelos freqüentes parênteses, pelos “sim” e “não” entremeados nas meditações interiores das personagens.

Sabemos, agora, bastante. Esta é a linguagem do monólogo. O romance de Mauriac é composto de árias, como uma ópera, o que ocasiona os efeitos dramáticos. São monólogos: autocontemplação ao espelho, monólogos narcísicos. Ora, o narcisismo é o modo de viver específico da puberdade, da puberdade que representa para nós todos um déjà vu. A atmosfera de pesadelo nos romances de Mauriac é própria dos “sonhos diurnos” dos adolescentes, que confundem continuamente o seu mundo interior de amanhecer sexual com a realidade, apenas pressentida, do mundo exterior; e as freqüentes mudanças do tempo ligam aquele passado, do qual todos nós nos lembramos um pouco vagamente, ao presente da leitura. Aludem a coisas que para o adolescente são ainda coisas desconhecidas, mas que ele reconhece logo quando designadas pelo pronome demonstrativo. A sensação primordial de Mauriac é a primeira experiência sexual, a puberdade.

A vida literária de Mauriac é uma puberdade prolongada. Ele exprime sempre, em formas ligeiramente variadas, as sensações da primeira queda pecadora e da primeira graça da comunhão. Mas quando o adolescente François voltou, de mãos postas, do banco de comunhão, viu já, no primeiro assento da igreja, a jovem, inacessível e inviolável como todas as jovens da sua burguesia provinciana; sonhou, com elas, os sonhos mais solitários e mais perversos de um adolescente, e fugiu, enfim, para os braços das belas pecadoras, que são tão misericordiosas e tornam necessária outra confissão contrita, para se conseguir, outra vez, a graça no banco da comunhão. E assim in infinitum. A obra de Mauriac é cheia de recidivas. O seu “fleuve français continue à courir”. Repete-se sempre. Continua o prisioneiro das suas Madalenas esse Madaleno, mesmo quando em torno dele o rio da vida francesa ameaça secar. Lembra a obsessão sexual de certos padres que perguntam, no confessionário, apenas pela vida sexual, negligenciando todo o resto. Lembra certas altas autoridades eclesiásticas, que, em meio ao incêndio da civilização cristã e à difamação do nome cristão por povos cristãos, se ocupam dos maiôs na praia. Mauriac, porém, não escreve cartas pastorais. O moralista Mauriac escreve romances, e estes são mais divertidos do que aquelas. Misturam agradavelmente a mística e a sexualidade, chegam a atribuir importância exagerada, quase exclusiva, à sexualidade, o que excita os aplausos dos interessados nesse exagero: as “liseuses”.

Mas eu não sou uma “liseuse”. Sou um “lecteur”. Não quero ficar divertido nem fascinado. Quero saber se a atitude de Mauriac é coerente, fato de que depende a consistência literária da sua obra: flama escura ou fogo de artifício. Quero saber como ele resolveu literariamente o problema de pecado e graça. Literariamente, não teologicamente. Solução teológica não existe; em 1598, a discussão sobre a graça entre os jesuítas e os dominicanos foi proibida pelo papa Clemente VIII, e a Congregatio de auxiliis gratiae, instituída para resolver o problema, foi dissolvida em 1607, sem haver pronunciado decisão. A conseqüência dessa irresolução foi o jansenismo, que passou, aos olhos dos ortodoxos, por obra do demônio. E Mauriac precisava, para resolver o seu problema, da ajuda do demônio.

Mauriac é filho do Sul da França, da região clássica dos rebeldes católicos. Tem em si o espírito que era a última inquietação do bem-pensante Bourget e que lhe deu o título do seu último romance: Le démon du midi. Certos moralistas católicos afirmam que a dúvida nasce quase sempre das resistências ao sexto mandamento. Não acredito. No caso Mauriac, porém, está quase certo que o “démon du midi” foi despertado pela curiosidade de puberdade do bom filho-família, educado pelos padres marianitas para continuar bom filho-família. O primeiro romance do jovem Mauriac chamou-se L’enfant chargé de chaînes. Descobriu a realidade do pecado, e descobriu-a “au sein de sa famille”: na vida matrimonial do Fleuve de feu – um “fleuve qui continuera a courir” -, no Baiser au lépreux, até em Génitrix, no amor materno. O romancista torna-se especialista no pecado: Le désert de l’amour, Thérèse Desqueyroux. Escreve, enfim, o romance do pecado especificamente católico, do endurecimento do coração, petrificado num catolicismo de fórmulas vazias: Destins. Então a verdadeira significação de Génitrix se manifestou: o desafio ao amor materno, exagerado e sufocador, é um desafio à mãe Igreja. Na obra de Mauriac, esse romance tem significação análoga à do Disciple na obra de Bourget; é um ponto crítico. Mas Génitrix é um Disciple inverso: o discípulo dos padres marianitas, candidato a eterno bom filho-família, foge dos padres e da família. Enfim, o mundo está aberto diante do filho pródigo. O guia para esse mundo chama-se André Gide.

O puritano apóstata Gide justificou ao católico ameaçado Mauriac o romance do pecado; deu ao estilista romântico a boa consciência da construção clássica do romance. Mauriac, porém, não apostatou. O seu olhar de moralista era aguçado pela sabedoria moral multissecular dos confessionários, e quando Gide lhe propunha a sentença de Blake — “Nenhuma grande obra de arte nasce sem a colaboração do Demônio” —, Mauriac reconheceu no Demônio de Gide o próprio “démon du midi”, no Diabo de Gide o Deus dos jansenistas. Foi o próprio Gide que o converteu.

Uma conversão jansenista, porém, tem conseqüências literárias, ou, antes, antiliterárias. Assim como o convertido jansenista Pascal renunciou à ciência, assim como o convertido jansenista Racine renunciou ao teatro, assim o convertido jansenista Mauriac deveria renunciar ao romance. Um católico de rigor — e um jansenista é um católico de rigor potenciado — deve tornar-se um santo; mas um santo não escreve romances. Desse dilema salvou-se o romancista católico Mauriac pela autoridade de Maritain, o qual lhe demonstrou que santidade e vida não se contradizem. A própria vida, assunto do romance, é o caminho da santidade; e o gideano Mauriac pode calmamente continuar a escrever romances: romances verdadeiramente católicos.

Continua a escrever romances, romances católicos e gideano-demoníacos ao mesmo tempo. Romances católicos, com Deus como centro invisível, e nos quais, embora nem sempre obras-primas, o Demônio colabora. E, no fundo, o Diabo de Gide e o Deus de Mauriac é uma e a mesma pessoa.

O equilíbrio está, assim, conseguido. Charles Du Bos censurara a Mauriac o possuir este mais sensibilidade católica do que inteligência católica. Agora, a sensibilidade de Gide está nele assegurada pela inteligência de Maritain: o que faz o romancista católico. Pode calmamente voltar à família, escrever, no Noeud de vipères, o romance, realmente magistral, da conversão pela família. O “démon du midi”, enfim lavado e penteado como filho-família bem criado, filho da Génitrix e dos padres marianitas, enfim digno dos salões e mesmo do supremo salão: François Mauriac, de l’Académie Française.

Agora, está tranqüilo. Mas eu não estou tranqüilizado. Não sou uma “liseuse”. Sou um “lecteur”. Mauriac, o grande romancista católico, inquietou-me tão profundamente que não dormirei antes de saber o que é isto: romancista católico.

Chamam-lhe “romancista católico” porque, como católico, reconheceu a realidade do pecado, e como romancista, descreveu-a, ou, melhor: transfigurou-a. Mas parecem intenções contraditórias. Quem reconheceu a realidade do pecado, dificilmente pode transfigurá-lo, e a transfiguração se faz em detrimento da realidade. A sinceridade humana e a sinceridade literária de Mauriac, ambas fora de dúvida, contradizem-se. A sinceridade de Mauriac impede que lhe apliquemos a frase de La Rochefoucauld: “L’hypocrisie est un hommage que le vice rend à la vertu.” Mas aplica-se-lhe a frase inversa, indicando o assunto de toda a sua obra: “La franchise est un hommage que la vertu rend au vice.” Manifesta-se o abastardamento do conjunto Gide-Maritain: longe de mim lançar ao próprio Mauriac a frase que Bourget lançou, com pouco amor cristão, a um católico; mas vou aplicá-la a todas as personagens do romancista católico: “bâtards d’un prêtre et d’une danseuse”.

Assim, as qualidades católicas de Mauriac prejudicam o romancista, e as suas qualidades literárias prejudicam o católico. Balzac podia aliar as mesmas convicções católicas à plenitude de vida romanceada, porque o seu gênio ingênuo desconheceu os remorsos do moralista; ficando firmemente do lado da vida, não teria nunca imaginado expiar as aventuras de belas pecadoras por meditações sobre a quinta-feira santa. Em Mauriac, o romancista é o dupe do católico, o católico é o dupe do romancista. Tenta ocultar a sua fraqueza sob o véu do misticismo, dum misticismo que não passa de mistura de incenso e perfume. Fascina com isso os “liseurs” e sobretudo as “liseuses”. Mas eu não sou uma “liseuse”. Como católico, não desejo ser tentado; como leitor, não desejo ser convertido. Quando preciso de um confessor, não me dirijo ao romancista; quando preciso de um romancista, não me dirijo ao confessor. E não sei como chamar a Mauriac: se romancista confessado ou confessor romancista confessado ou confessor romanceado.

Mauriac tornou-se romancista quando a realidade do pecado lhe foi revelada no confessionário. Não esqueceu nunca essa origem da sua arte. A inquietação dos seus romances é fruto das horas inquietas do adolescente no confessionário. Continuou filho fiel do seu confessor, tornou-se, enfim, o próprio confessor das suas leitoras, assegurando-lhes um fim edificante às suas aventuras. É um compromisso, como foi compromisso a dissolução da Congregatio de auxiliis gratiae, medida que gerou, consecutivamente, o laxismo dos jesuítas, a resistência dos jansenistas e a descristianização da França aburguesada; Bernard Groethuysen, nas Origines de l’esprit bourgeois en France, bem o descreveu. Agora, estamos num mundo descristianizado, burguês, onde os católicos constituem irremediavelmente uma minoria. Mas o católico Mauriac é, ao mesmo tempo, o filho fiel da família, da burguesia francesa. A sua qualidade de “romancista católico” — o romance é um gênero bem burguês — significa nova tentativa de mediação, em vez de resolução, novo laxismo em favor dos burgueses católicos, e sobretudo em favor das burguesas. Homem muito gentil — gentileza dos salões e da Academia —, facilitou um pouco a relação entre o pecado e a graça. Kierkegaard, porém, o inimigo mortal de toda “mediação”, tê-lo-ia amaldiçoado por esse “pouco”, que resolveu um problema pessoal e falsificou uma atitude.

O problema pessoal de Mauriac consistiu em reunir a inteligência de Maritain e a sensibilidade de Gide. Com efeito, a dialética engenhosa de Maritain parecia destinada a incorporar o inferno gideano — e todo o inferno —  ao mundo católico de Mauriac. Precisava para isso duma verdadeira dialética, dum movimento como o representam os três estádios — estético, ético, religioso — de Kierkegaard. Toda dialética, porém, é movimento; e Mauriac não suporta o movimento. O movimento febril dos seus romances mal oculta a sede de tranqüilização que encobrirá o romântico nas dobras sublimes do classicista. O classicismo à Luís XIV de Mauriac é mero subterfúgio, como o monarquismo tradicionalista de Maurras é mero subterfúgio, disfarce do burguês bem-pensante em marquês cavalheiresco, para salvar, com a espada richelieuiana do acadêmico, a sociedade burguesa. É uma atitude febril, mas antidialética. E se Kierkegaard nos ensinou que o cristianismo e a burguesia se contradizem essencialmente, está comprovado que o cristão François Mauriac é muito bom burguês. O produto do abastardamento chama-se: bem-pensante.

Não gosta de nenhuma dialética. Não gosta de movimento algum. Gosta só de tranqüilidade, de estabilidade. Desfigura o seu cristianismo em moralismo, para libertar-se dos instintos românticos da puberdade, para poder voltar “au sein de sa famille”. Desejou, com o ardor mais febril dos adolescentes tentados, a estabilidade no seio da sociedade burguesa, no seio da família burguesa, onde ao filho pródigo está sempre assegurado o perdão da mãe e, após ligeiras dificuldades, o perdão do confessor. Conseguiu. O discípulo de Gide e de Maritain é o filho recuperado da Génitrix, dos padres marianitas e de todas as “liseuses”. Está, com isso, muito bem. Bloy morreu como mendigo; Bernanos está no exílio; e para Mauriac, “le fleuve français continue à courir”.

E se o meu amigo saudoso fosse ainda vivo, eu pedir-lhe-ia perdão, confessando: — “Você teve razão. Mauriac é um gênio universal. Reúne a famosa curiosidade das almas femininas de Maurois ao classicismo burguês de Maurras. Mais ainda: é mais profundo do que Maurois e é mais cristão do que Maurras. Mas isto não é grande coisa.”

Contudo, Mauriac é um excelente romancista. As suas qualidades, porém, são qualidades da grande tradição novelística francesa, qualidades de composição acertada e de psicologia penetrante num sentido, aliás, que parece — em face das últimas experiências novelísticas — já bastante antiquado. É uma tradição clássica, e nesse sentido Mauriac é um clássico, como era clássico daquela tradição um Paul Bourget. A diferença entre eles é mais de ordem moral do que de ordem literária. O Disciple, de Bourget, que foi um acontecimento, gerou uma corrente de idealismo, uma sede espiritual; — não o esqueçamos — foi o “discípulo” católico Péguy quem morreu nas campinas do Marne. A obra de Mauriac forjou uma boa consciência — esse travesseiro do diabo — a muitos jovens católicos, os colaboracionistas de hoje. Para eles, a vida continua. “Le fleuve français continue à courir.”

Mauriac, ele também, continua. Continua a escrever romances, sempre os mesmos. No meio dos “Malheurs de la France”, continua os “Malheurs de Sophie”, sempre recidiva; exatamente como o velho Bourget, entre as tormentas de inflação e revolução social, continuara as aventuras edificantes das suas comtesses. Não esqueçamos que Bourget era também um grande nome em seus dias: chamaram-no escritor clássico, psicólogo penetrante, romancista de êxito mundial, e católico intrépido. Havia, em tudo isso, uma parcela de verdade. A posteridade, porém… a posteridade será mais misericordiosa com o sub-Bourget dos nossos dias?

(Em Otto Maria Carpeaux, Origens e fins)