Muitos comentaram as afirmações recentes de Don Maurizio Chiodi, teólogo e membro da Pontifícia Academia para a Vida, sobre a contracepção [que, em certos casos, a contracepção não só é possível, mas obrigatória]. Em geral, no entanto, nos concentramos em suas declarações e menos nas motivações ou admissão de princípios. Esses últimos, expressamente mencionados por ele, são dois: o princípio da interpretação da Humanae vitae à luz de Amoris Laetitia e a “reviravolta antropológica” de Karl Rahner.

Pode ser útil ressaltar esses dois princípios porque, a partir deles, prof. Chiodi foi absolutamente consistente em suas conclusões, ao abrir-se à licitude da contracepção na moral católica. Deve-se também compreender que os dois princípios estão intimamente ligados entre si.

A “reviravolta antropológica” de Karl Rahner, como tentei mostrar em um livro recente (A nova Igreja de Karl Rahner, 2017), não consiste genericamente num olhar dirigido ao homem, uma espécie de novo humanismo ou novo personalismo cristão. Consiste na aceitação radical da historicidade completa do homem. “Reviravolta antropológica” significa que Deus se encontra no homem e em seu mundo histórico. O homem está sempre “dentro” da história, sempre estruturalmente “situado”, sempre com algo por trás dele que o condiciona, um horizonte que vem antes de sua experiência histórica e a torna possível.

Para retomar uma imagem de Étienne Gilson, é como se o homem estivesse diante de uma cenografia teatral e, tentando ir além do palco para conhecer a realidade, algo nele produzisse uma outra cenografia, sem jamais sair da sucessão de cenografias. O homem não encontra jamais o transcendente, mas só o imanente, já que ele — esta é precisamente a “reviravolta antropológica” — é estruturalmente parte do problema que gostaria de resolver, que é o do sentido da vida; ele é estruturalmente parte dele; não pode jamais ver as coisas de um ponto de vista externo e transcendente, mas sempre de dentro.

A revelação de Deus acontece, assim, na história humana e de maneira humana, através de eventos humanos: Deus não está na história, mas só o homem; e, se queremos falar de Deus, temos que falar sobre o homem; se queremos ver Deus, devemos olhar para o homem. Deus se encontra no homem e o mundo é graça.

É imediatamente claro que, devido a essas premissas, não podemos pensar na existência de proibições morais que sejam respeitadas sempre e em todas as situações. Nem a Humanae vitae nem a Veritatis splendor podem permanecer nesse contexto teológico, que as expelirão de si mesmo e, se as admitir, provocarão a sua revisão radical.

As pretensões de princípios morais absolutos devem ser consideradas ideológicas. Após a viragem antropológica de Rahner, de fato, toda posição doutrinária definitiva, tanto dogmática quanto moral, deve ser considerada uma pretensão ideológica de querer ver Deus como se fosse uma coisa deste mundo, ao passo que, em vez disso, vemos apenas o homem; a pretensão de escapar do condicionamento estrutural em que nos encontramos e reduzir a verdade cristã a definições, leis, normas, estruturas; a pretensão de ouvir a Palavra de Deus definitiva, enquanto, ao contrário, Ele é Silêncio e expressa-se atematicamente (ou seja, sem nos fornecer conteúdos) a partir do interior dos eventos humanos. Deus não pode ser visto, nem a sua doutrina imutável: na história só se pode fazer perguntas (a chamada “questionabilidade”), discernir sempre provisoriamente as situações, seguindo em uma busca sem pretensões.

Ao declarar seus princípios iniciais, o Prof. Chiodi demonstrou-se coerente nas conclusões. O problema é que ele considera a “revoravolta antropológica” de Rahner um pressuposto óbvio e inquestionável, enquanto ainda há quem o conteste. Não há dúvida de que este princípio representa, hoje, uma nova Escolástica, que o teólogo que a negar terá dificuldades na vida acadêmica, que as aplicações que dela derivam se espalharam e se tornam o pão cotidiano mesmo na menor das paróquias católicas. O certo, porém, é que a “revoravolta antropológica” de Rahner ainda não é a doutrina da Igreja.

E, finalmente, chegamos ao segundo dos princípios indicados pelo prof. Chiodi. Seria normal pensar que, dado que há uma tradição da Igreja, é o último documento magisterial que deva ser lido a partir dos precedentes, e não vice-versa. Ao contrário, o magistério deveria ter publicado o último documento garantindo que ele está alinhado aos anteriores e, portanto, implicitamente admitindo, desde a conclusão e publicação autorizada do novo texto, que ele deve ser lido dessa maneira.

Mas, se nos colocarmos dentro da nova perspectiva da “reviravolta antropológica”, emerge uma exigência contrária. Os dogmas e os princípios morais mudam, porque Deus os revela em presumíveis “tábuas” fora do tempo, mas nos próprios eventos da história e, portanto, hoje poderia ser o próprio Deus a desejar que a Igreja dê esse passo adiante no assunto da contracepção.

http://www.lanuovabq.it/it/rahner-la-chiave-per-scardinare-duemila-anni-di-fede