O conceito de cancelamento da distinção entre o sagrado e o profano é ensinado pela teologia há décadas, pelo menos desde a década de 1960.

Em 1969, Ladislaus Boros escreveu que, uma vez que Cristo se encarnou, Deus se encontra no homem e o mundo se tornou graça.

Dois anos depois, Gustavo Gutiérrez, pai da teologia da libertação, insistiu no mesmo conceito: “Se Deus se tornou homem, a humanidade, cada homem, a história, são o templo vivo de Deus. O profano, o que está fora do templo, não existe mais”, e concluiu seu raciocínio: “Se a humanidade, e se todo homem é um templo vivo de Deus, nos encontramos com Deus no encontro com os homens, no compromisso histórico com a ‘humanidade’”.

Clodovis Boff, irmão do mais conhecido Leonardo Boff, em seu livro A graça libertadora no mundo, argumentou que não devemos mais falar da graça, como faz a Igreja, mas deixar a graça falar, o que significa que a graça opera no mundo, e fala através dos fatos do mundo.

Anteriormente, em 1964, Jürgen Moltmann havia explicado que havia uma evolução da presença de Deus entre os homens: primeiro na tenda, depois na Arca, depois no templo, até que Deus habitou na própria humanidade.

Pannenberg falou sobre a revelação como história, Schlette de epifania como história, Cullmann da salvação como história. Todas essas teologias sustentaram que Deus se teria revelado não através de uma teofania direta, mas de maneira indireta através dos eventos da história.

O sagrado, entendido como o lugar e a dimensão direta da revelação e da teofania, deve, portanto, ser substituído pelo profano, entendido como o caminho indireto em que Deus se revela e pelo qual guia a história da salvação.

Edward Schillebeecks escreveu, em 1965, que “toda vida profana constitui uma espécie de explicitação daquilo que a oferta íntima da graça da fé quer nos dizer”.

No mesmo ano, Harvey Cox declarou que “Deus ama o mundo e não a Igreja”.

No entanto, se queremos ir às origens dessa identificação do sagrado com o profano, precisamos falar de Karl Rahner. Para ele, o mundo como existência é o lugar da auto-revelação de Deus para o homem. Nunca conhecemos os ensinamentos de Deus; e Deus não nos deu ensinamentos diretos. Vemos o mundo e os homens, e Deus se comunica anonimamente, desprovido de conteúdo, por uma via que aceita e funda nossa liberdade.

É daí que surge “a tendência moderna de falar não de Deus, mas do próximo; não de pregar o amor a Deus, mas o amor ao próximo; não de dizer Deus, mas mundo e responsabilidade perante o mundo”.

A história da salvação coincide, portanto, com a revelação e com a história da humanidade, deixando de haver distinção entre a história sagrada e a história profana: “O cristianismo não conhece nenhum setor sagrado delimitado, no qual podemos encontrar Deus”. O mediador entre os homens e Deus tornou-se agora o mundo.

Esses exemplos podem testemunhar, adequadamente, que a utilização dos templos católicos para atividades não religiosas é alimentada por certa visão da relação entre o mundo e a Igreja que já dura há algumas décadas. São ideias que vêm direto das cátedras universitárias para as pequenas paróquias suburbanas, onde se organiza a entrada do mundo na igreja sem que se tenha lido diretamente Cox ou Rahner, mas de qualquer modo seguindo os seus ensinamentos.

Se Deus se manifesta, antes de tudo, no mundo através de eventos históricos, então Ele é encontrado, na prática, ao trazer-se “eventos históricos” para dentro das igrejas. Negligencia-se, assim, o fato de que a Igreja é o lugar onde os fiéis podem entrar em contato com o que não é   histórico. O espaço sagrado é o lugar do eterno. A Igreja, pela presença do Santíssimo Sacramento do altar, é um lugar “metafísico” e não mais histórico: ali está o Alfa e a Omega da história, que, por isso mesmo, não é redutível à história.

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