Os sinos são uma invenção muito antiga. Na forma, porém, como os conhecemos ainda hoje, é uma criação católica da Idade Média. E, até hoje, é impossível dissociar essas duas coisas: sino e catolicismo. Conta-se que, quando nasceu São João de Deus, em Portugal, no dia 8 de março de 1495, todos os sinos de sua aldeia começaram a bimbalhar sozinhos, embora ninguém pudesse suspeitar que profetizassem a futura santidade do menino.

Os sinos eram a voz da Igreja e, indiretamente, a voz de Deus. Por eles é que convocava festivamente as pessoas para a Santa Missa e demais ofícios religiosos. Podiam dobrar grave e melancolicamente, anunciando funerais de cristãos. Tinham, também, uma função oposta à religiosa: servir de relógio, bater as horas, administrar o tempo, contribuir para a vida cotidiana das cidades, sem deixar de marcar, em três grandes momentos (às seis da manhã, meio-dia e seis da tarde), a Hora do Ângelus, Hora suprema da vida cristã, em que o tempo e a eternidade se cruzaram: o anúncio a Maria do nascimento de Jesus.

Contudo, mesmo quando exercia essa função meramente prática, de auxiliar dos relógios, os sinos não deixavam de imprimir, no ar, o timbre solene do mistério religioso. Se lidava com assuntos do tempo, fazia-o pela perspectiva da vida eterna. Enfim, eram os sinos (do latim “signum”) um sinal do sagrado. Ao crente, fazia lembrar-se de Deus; aos incréus, provocava uma grande nostalgia do Criador.

A presença dos sinos, na literatura, era muito frequente. Não há grande romance do século XIX em que não se ouça a voz de um sino, tocando geralmente pela tardinha. Poemas românticos e simbolistas se deixaram impregnar de seu misterioso apelo. O poeta americano William Carlos Williams, que não era católico, gostava de ouvir os sinos que soavam na nova igreja de tijolos, em sua pequena cidade. Sentia-os tocar por tudo: pelos fenômenos naturais, pelo início da vida e pela velhice, pelas novenas e pelos fiéis, pelo seu amigo surdo que já não os podia ouvir e pelos filhos de seu amigo surdo. “Que toquem”, dizia o poeta, “toquem sempre!”

O poeta brasileiro Manuel Bandeira, mesmo em suas crises religiosas, não deixava de fazer repicar sinos em seus poemas. Mencionava a voz noturna dos sinos (“de repente nos longes da noite um sino”); a voz das manhãs cantando pelos sinos; os sinos da redenção; o “sino de Belém, pelos que inda vêm! Sino da Paixão, pelos que lá vão!”

O escritor americano Ernest Hemingway, mesmo ateu, batizou um romance, ambientado na Guerra Civil Espanhola, com o sugestivo título de “Por quem os sinos dobram”, extraído de um texto de John Donne, poeta e pastor anglicano inglês, o qual, pensando nos sinos que tocavam em funerais, escreveu estas belas e célebres palavras: “Nenhum homem é uma ilha. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Pelo início da década de setenta, no gélido inverno de 1974, ouvi do adro da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, os mais belos sinos da minha vida. Tinha dezoito anos e era um fim da tarde de junho, muito frio. O som dos sinos vinha de uma igreja vizinha, um pouco mais abaixo, e da qual eu só via o telhado (Ouro Preto é a campeã dos declives).

O sineiro saltava de uma torre a outra, correndo pelo próprio telhado. Colocava um sino para funcionar e corria até o outro, permanecendo nesse ziguezague por algum tempo. Um toque tão impressionante, que me deixou uma profunda lembrança. Por muitos anos, ainda conseguia lembrar-me de sua estranha melodia, vibrando cadenciadamente na memória. Era, certamente, um lembrete de Deus a um jovem, no momento em que começava a dar mais ouvidos às coisas do tempo que da eternidade…