Vem chegando o Natal. Diante do pequeno e humilde presépio, olhando a criancinha de braços abertos num cocho de animais, é inevitável a pergunta: por que Deus sujeitou-se a tudo isso? Outras religiões monoteístas, o judaísmo e o islamismo, que também creem num Deus único e superior a toda a matéria, não aceitam essa “humilhação” divina professada pelo cristianismo: o Todo-Poderoso decidiu ser homem como nós, submisso a todas as nossas limitações, exceto o pecado.

Santo Tomás de Aquino, na terceira parte da sua Suma teológica, que trata do desafiador mistério da encarnação, pergunta se era mesmo conveniente que Deus se encarnasse num corpo como o nosso — Ele que é puro espírito, nós que somos mudança e degeneração.

O santo teólogo começa por dar voz a seus adversários, admitindo, de início, que de fato não parecia razoável que seres infinitamente diferentes pudessem se unir, pois o resultado seria, no mínimo, monstruoso. Infinita é a distância existente entre o puríssimo espírito de Deus e a miserável carne dos homens; portanto, não seria de modo algum oportuno que o Todo-Poderoso, eterno e infinito, ilimitado por natureza, viesse unir-se a um corpo tão cheio de restrições como o nosso.

Além do mais, como é que Deus, suprema bondade, viria revestir-se de uma carne teimosamente especializada em pecar? Como é que a Majestade Celeste — que tudo pode, tudo sabe, em todos os lugares se encontra, diante da qual o imenso universo é infinitamente menor do que um átomo —, viria tomar para Si o corpinho frágil de uma criança completamente subordinada aos pais? Como é que o maior de todos os seres, que governa tudo o que existe, se deixaria engaiolar pelo tempo e pelo espaço, em tão ínfima prisão de carne e osso? Não faz sentido… Não tem lógica…

Era o que diziam os adversários da encarnação divina. A seguir, Santo Tomás de Aquino passava a expor o seu pensamento (que é o mesmo da Igreja). Segundo ele, é conveniente que cada coisa faça o que está em sua natureza, em sua essência. A principal característica de Deus é a bondade; e faz parte do ser bom o fazer o bem aos outros. Já que Deus é o sumo bem, o supremo ato de sua bondade foi unir o seu Espírito eterno ao corpo e à alma de uma criatura, desde as etapas mais elementares da formação do corpo humano. Foi pela infinita bondade de Deus que o Verbo se fez carne, que a segunda pessoa da Trindade veio habitar num corpo frágil e pobre de um bebê nazareno.

Ressalte-se, aqui, que o Verbo de Deus, a segunda pessoa divina, não deixou de estar unido à Trindade, depois de encarnar-se no pequeno filho de Maria. Esse é um dos maiores mistérios de Deus: permanecer uno e trino em Si mesmo, sem deixar de estar totalmente em todas as partes criadas, sustentando-as no ser.

O que Santo Tomás pretende nos ensinar? Manifesta-se, na encarnação, o poder infinito de Deus, pois nunca houve nada maior do que o fato de Deus ter-se feito homem. Fica também evidente a Sua bondade, que veio em socorro da fraqueza de sua criatura, e a Sua sabedoria, que soube dar a mais bela solução ao mais difícil dos problemas.

Se, portanto, a carne humana não merecia unir-se a Deus por seus méritos, essa união era conveniente a Deus pela infinita excelência da sua bondade, que só desejava a salvação humana. Só a “lógica” do amor divino, da suprema bondade de Deus, pode explicar essa união entre coisas tão distantes: o Espírito eterno e a efêmera matéria criada. Ninguém vai dizer que a pessoa de Jesus, produto da união do Espírito divino com a alma e o corpo de um ser humano, fosse um conjunto monstruoso. Ao contrário: nada há de mais harmoniosamente belo do que Jesus, com seu limitado corpo humano, caminhando sobre as águas do mar de Galileia.

Deus, ao assumir a nossa precariedade, tornou-se visível e sofreu tudo o que podia sofrer (aquilo que, como puro espírito, não podia sofrer). Ao compartilhar das nossas dores, amou-nos da forma mais completa possível; pela imolação do próprio corpo sem mancha, redimiu nossa carne tornada mortal pelo pecado, transfigurando-a pelo mistério da ressurreição.

A resposta completa ao mistério da encarnação só pode ser dada por outros dois mistérios, que comemoramos alguns meses mais tarde, na Páscoa: o sacrifício da cruz e a ressurreição de Cristo. Por enquanto, degustemos o espírito natalino.