“Em um dos mais pobres dos hospitais da cidade fora internada uma mulher, por nome Cesca, afetada por uma enfermidade repugnante que a impedia de viver entre os seus. Sendo o hospital dos mais pobres, e não possuindo Cesca nada de seu, as religiosas não sabiam como prover-lhe a subsistência. O estado da mulher piorava cada dia, e quando ficou patente tratar-se de lepra, ninguém mais quis ocupar-se dela. Catarina ouviu falar na doente e pediu autorização para ocupar-se dela. Trouxe-lhe medicamentos e víveres, preparava-lhe ela mesma as refeições e lhe lavava o corpo mal cheiroso e coberto de chagas antes de untá-lo com uma pomada apropriada para lhe acalmar as dores e as coceiras.

Cesca não era de trato agradável. Catarina prometeu visita-la de manhã e à noite, enquanto vivesse, e a infeliz encontrava como que um triste conforto em atormentar tanto quanto lhe era possível aquela moça sadia e robusta que podia circular livremente pela cidade.

Habituou-se a tratá-la como se fosse sua serva; sobrecarregava-a de injúrias e falava-lhe em tom que uma senhora honrada jamais usaria com uma empregada. Tudo o que Catarina fazia era mal feito aos olhos de Cesca. Se acontecia à moça demorar-se um pouco mais na igreja e atrasar-se em chegar ao hospital, a velha megera acolhia-a com sarcasmos: “Seja bem-vinda, nobre senhora, seja bem-vinda, rainha e dona de Fontebranda. Onde passou a rainha toda a sua manhã? Vossa Majestade não se cansa nunca da companhia dos frades?”

Atormentando Catarina dessa forma, procurava fazê-Ia encolerizar-se; só conseguia, porém, que esta se desvelasse mais em seus cuidados. “Pelo amor de Deus, minha boa Cesca, não se zangue, tudo estará pronto num instante.” Com toda a delicadeza de que era capaz, tratava da leprosa com a competência profissional que todos lhe reconheciam. Ninguém podia deixar de admirar a solicitude infinita que dedicava à megera de língua viperina e chagas nauseabundas.

Não deixava, porém, de atormentar-se em segredo pela alma de Cesca, pois a velha estava evidentemente muito pouco disposta a receber a graça de Deus, e, à mais leve menção do assunto, mostrava-se mais maldosa ainda. Catarina nada podia fazer senão rezar por ela.

Lapa intervinha com frequência, procurando evitar para a filha o que lhe parecia um contágio fatal. Catarina, que fundava em Deus toda sua esperança, procurava acalmar os temores da mãe. Chegou, porém, o dia em que se viu forçada a reconhecer nas mãos, que tanto haviam lidado com a leprosa, os sinais insofismáveis da afecção. Não teve um minuto de hesitação. Pouco lhe importava o que sucedesse ao seu corpo, desde que pudesse oferecer ao Esposo uma obra digna de Sua aprovação. Sabia de cor as palavras do Sermão da Montanha. Abandonar a doente naquele momento equivalia a abandonar seu Deus.

Cesca morreu, afinal. Frei Raimundo parece acreditar que o sacrifício de Catarina acabou por comover a leprosa a ponto de levá-la a atender às palavras de conforto da jovem, no momento de expirar. O cadáver era um espetáculo horripilante, porém assim mesmo Catarina fez-lhe a última “toilette”, vestiu-o e deitou-o no caixão. Terminado o ofício dos mortos, foi ainda ela a se encarregar com suas próprias mãos do sepultamento, ninguém ousando aproximar-se. Ao erguer-se, porém, de sobre o túmulo recém-coberto, verificou que nas mãos sujas de terra não se viam mais os sinais das chagas; estavam mais alvas e mais belas do que nunca.”

(In . Catarina de Siena. Trad. de Maria Helena Amoroso Lima Senise. Rio, Agir, 1956)