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A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito, e de principal intento, mas por acaso, indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de El-Rei D. Manuel, no ano de 1500 para a Índia como capitão-mor de onze naus. Afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia notícia alguma; foi costeando-a alguns dias com tormenta até chegar a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou com o mesmo nome.

Ali desembarcou o dito capitão com seus soldados armados, para pelejarem, porque mandou primeiro um batel com alguns a descobrir campo, e deram novas de muitos gentios que viram; porém não foram necessárias armas, porque só de verem homens vestidos e calçados, brancos, e com barba (do que tudo eles carecem) os tiveram por divinos, mais que por homens, e assim, chamando-lhe “caraíbas”, que quer dizer na sua língua coisa divina, se chegaram pacificamente aos nossos.

Assim como os índios da Nova Espanha, quando viram desembarcar nela os espanhóis, lhes chamaram “viracoches”, que significa escumas do mar, parecendo-lhes que o mar os lançara de si como escumas, e este nome lhes ficou sempre, assim somos ainda destoutros chamados “caraíbas” e respeitados mais que homens.

Mas muito mais cresceu neles o respeito quando viram oito frades da ordem do nosso Padre São Francisco, que iam com Pedro Álvares Cabral, e por guardião o Padre Frei Henrique, que depois foi bispo de Cepta, o qual disse ali missa e pregou, onde os gentios, ao levantar da hóstia e cálix, se ajoelharam e batiam nos peitos como faziam os cristãos, deixando-se bem nisto ver como Cristo senhor nosso neste divino Sacramento domina os gentios, que é o que a igreja canta na invitatória de suas matinas, dizendo:

 Christum regem dominantem gentibus, qui se manducantibus dat spiritus pinguedinem, venite, adoremus.

[Vinde, adoremos o Cristo, Senhor de todas as nações, que dá o Pão da Vida aos que Dele se alimentam.]

Do deus Pã, os antigos gentios diziam que dominava e era senhor do universo, e disseram verdade, se o entenderam deste Pão divino; porque sem falta ele é o Deus que tudo domina, e apenas há lugar em toda a terra onde já não seja venerado, nem nação tão bárbara de que não seja querido e adorado, como estes brasis bárbaros fizeram.

Bem quiseram os nossos frades, pela facilidade que nisto mostraram para aceitarem a nossa fé católica, ficar-se ali, para os ensinarem e batizarem; mas o capitão-mor, que os levava para outra seara não menos importante, partiu daí a poucos dias com eles para a Índia, deixando ali uma cruz levantada, como também dois portugueses degradados para que aprendessem a língua, e despediu um navio a Portugal, de que era Capitão Gaspar de Lemos, com a nova a El-Rei D. Manuel, que a recebeu com o contentamento que merecia tão grande coisa, tão pouco esperada.

(…) O dia em que o Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz (…) era 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz, em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra, que havia descoberta, de Santa Cruz, e por este nome foi conhecida muitos anos.

Porém, como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha nos desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de cor abrasada e vermelha, com que tingem panos, [substituindo] aquele divino pau, que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja, e sobre o qual ela foi edificada e ficou tão firme e bem-fundada como sabemos.

(Parágrafos inciais da História do Brasil, de Frei Vicente de Salvador, primeiro historiador brasileiro. Nasceu em Salvador, Bahia, em 1564, e ali mesmo faleceu em 1636.)