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Os últimos métodos da diabólica perseguição de que está sendo vitima a religião, por parte dos detentores do poder na Rússia, foram revelados pelo Bispo d’Herbigny numa reunião há pouco realizada em Londres, da qual dão noticia os semanários católicos ingleses “The Universe” e “The Catholic Times”.

Monsenhor d’Herbigny foi Presidente da Comissão Pró-Russia e é Presidente honorário do Instituto Oriental Pontifício. Conhece profundamente a Rússia, onde esteve em missão da Santa Sé.

“O Inferno, de Dante, disse S. Exa. Revdma., nada é em comparação aos horrores dessa perseguição, que nasce do materialismo dialetico, sobre o qual assenta todo o esquema bolchevista”.

Não ha lugar para um ideal solitário espiritual, ou para um simples pensamento religioso, ou mesmo para a conciência, num sistema materialista.

A perseguição torna-se possível pelo poder absoluto e fiscalização do governo sobre qualquer atividade dos cidadãos.

Mais de 90°/o da população russa é composta de camponeses e menos de 10% dela é de moradores urbanos. Nas cidades foi fácil compelir os habitantes a abjurar sua religião, negando-se-lhes as licenças de moradia, de trabalho e de alimentação. O Estado dirige tudo, e a não ser que um cidadão esteja disposto a assinar uma declaração de ateísmo militante, pode ser e é levado à miseria, para morrer de fome.

Semelhantes declarações são impressas nos compêndios escolares. Nesses compêndios há pequenos poemas antirreligiosos e contra Deus, os quais as crianças são obrigadas a escrever em seus cadernos de cópia.

Leu e traduziu o Bispo, num desses compêndios, o seguinte exercício para uma criança de cinco ou seis anos:

“Copie em seu caderno e numa folha separada os seguintes versos, assine o seu nome e coloque a folha no canto dos Sem-Deus da escola:

 

“Não cremos nos padres nem nas suas historias idiotas;

Não queremos seu celestial paraíso;

Não celebramos sua estúpida páscoa;

Festejaremos nosso brilhante dia de Maio;

Não acreditamos nos contos das velhas;

Não queremos festa alguma de páscoa;

Nenhum sino de igreja tocará em nossa aldeia”.

 

Estas sentenças são seguidas de uma exortação: “Não celebrem a Páscoa; esta é a União dos Sem-Deus”.

Uma vez assinado o papelucho, a criança torna-se automaticamente membro da União dos Bezboznik (os Sem-Deus), e seus pais perdem toda autoridade sobre ela, constituindo um duplo delito ensinar uma ideia ou cerimonia religiosa, inclusive fazer o sinal da cruz. [Nota do OpusMaterDei: Bezboznik, que significa em russo “O Sem-Deus”, era também o nome de um jornal satírico, antirreligioso e ateu, publicado nas décadas de vinte e trinta pela “Liga dos militantes ateus”, chegando a atingir a tiragem de duzentos mil exemplares.]

Esses fatos não são história antiga. Estão se passando em nossos dias, este ano [1937]. Nas aldeias, a fim de obter privilégios, sem os quais se morre de fome, o camponês é forçado a entrar nas agremiações dos “Sem-Deus”.

Um dia é especialmente escolhido para a cerimônia da apostasia de toda a aldeia, e é impossível escapar ao ato de apostasia individual sem correr o risco de ser condenado a morrer de inanição ou deportado para os campos de prisão.

Todos, sem exceção alguma, têm de assinar o ato de apostasia no dia marcado. Não é, pois, de admirar que Yaroslavski [Nota do OpusMaterDei: Yaroslavski foi um jornalista soviético, militante antirreligioso e diretor do jornal Bezboznik] possa publicar longas listas de apostasia com o titulo “Nossas vitórias”.

Padres e bispos têm sido presos e desterrados em massa, do que resulta podermos testemunhar, na Rússia, o verdadeiro sentido da profecia de Malaquias: Religio depopulata (religião despovoada).

Em toda a Rússia Asiática, não há neste momento mais do que um padre católico. Numa área quarenta vezes maior do que a França, não há padre católico, nem igreja. Na Ucrânia existe apenas um velho padre cego. Em Kiev, não há padre algum. Em Odessa, também não existe um só padre e, assim, poderíamos percorrer toda a Rússia encontrando capitais e cidades com grandes populações católicas sem recurso de espécie alguma para as suas necessidades espirituais.

Em Moscou e Leningrado, por causa dos turistas, a situação é um pouco melhor; porém, mesmo assim, agora apenas existe um padre católico onde antes havia quarenta, e as poucas igrejas deixadas abertas estão inteiramente cheias de fiéis

“Agradeçamos a Deus”, disse o Bispo d’Herbigny, “por estas almas fidelíssimas que não se curvam diante de qualquer perseguição e que antes preferem se arriscar ao suplício da fome, ao desterro, à morte,
do que dobrar o joelho a Satanás”.

Professar uma religião pode ser tecnicamente permitido na Rússia, mas o proselitismo é expressamente proibido; e mesmo a piedade pessoal é considerada “propaganda”, julgada motivo para prisão, principalmente se se percebe que o exemplo de um está influindo sobre os outros.

Ultimamente, uma nova técnica se tem desenvolvido por lá — o processo da morte lenta — e nesse sentido são expedidas ordens desse teor: “Não os mateis, mas deixai que morram. Apertai suas mortes nos círculos de vossos regulamentos e no tratamento que lhes dispensardes, porém não os assassineis”. Daí a barbaridade das prisões
e detenções.

Os suspeitos são conservados semanas e semanas sem dormir, em continuas orgias de luz, dia e noite. São interrogados por dias a fio, até ficarem fora de si.

Para mostrar que a perseguição até a morte não é assunto de historia antiga, Monsenhor d’Herbigny citou a morte, nestes últimos dois anos, de diversos bispos, muitos dos quais ele mesmo havia consagrado quando esteve na Rússia.

Vitimas da satânica perseguição bolchevista tombaram o Bispo Nicholas Barthelmy Theodorovitch, que pleiteiou a reunião da Igreja Ortodoxa com a Igreja Romana, e sobre quem Monsenhor d’Herbigny revelou o comovedor e interessante fato de se haver convertido ao Catolicismo muitos anos antes de sua morte; o Bispo
Kroshenski, russo-alemão de Karlsruhe, cidade assim chamada em honra a sua homônima alemã; o Bispo Maleski; o Bispo Butkievitch, o Bispo Yolnierovitch; o Bispo Frissant; o Bispo Markoushevski — todos mártires do presente momento.

Monsenhor d’Herbigny pediu aos sacerdotes e leigos presentes que celebrassem uma missa ou fizessem uma comunhão pelos padres ou fiéis russos impossibilitados de fazê-lo, devido à perseguição; e disse que, conquanto estivesse cheio de fé no triunfo que Deus
havia de obter de todo o horror dessa perseguição, prevenia a todos de que o sonho russo-sovietico (de importação messiânica) de dominação do mundo inteiro através do ateísmo e materialismo militante, era uma ameaça para todos nós, ameaça que já provara
a sua força no México e nas repúblicas sul-americanas, na Espanha e alhures.

O vírus vermelho está se espalhando, país algum está livre da contaminação. Tudo é habilmente planejado.

“Ainda ha poucos dias”, acrescentou Monsenhor d’Herbigny, “estava eu conversando com o Bispo Besson, de Friburgo, na Suíça, e ele me assegurou que os Bolchevistas estão agora projetando fazer da Suíça o quartel-general europeu do ateísmo militante, de modo
a que possam estar aptos a desferir os seus golpes em todas as partes da Europa”.

Monsenhor d’Herbigny concluiu a sua inteRessante e inspirada palestra com palavras de fé cristã e otimismo, sendo calorosamente aplaudido pela distinta e numerosa assistência.

 (Dom Arthur Hinsley era Arcebispo de Westminster, Presidente Permanente do Conselho dos Bispos da Inglaterra e do Pais de Gales, quando em 1937 fez esse pronunciamento. O texto foi publicado no mesmo ano pela revista brasileira A Ordem, dirigida por Alceu Amoroso Lima e mantida pelo Centro Dom Vital).