Resultado de imagem para finestra aperta sul cieloA doutrina do composto humano opõe-se à dissociação das funções espirituais e das funções corporais, ainda as mais estranhas ao pensamento puro. Santo Tomás subscreve este pensamento irônico de Aristóteles: “É tão ridículo dizer: só a alma compreende, como dizer: só ela constrói ou tece”; e sustenta estas proposições na aparência materialista: “As diversas disposições dos homens nas obras da alma dependem das diversas disposições de seus corpos”. “À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma”.

Não admira. O pensamento nasce, em nós, depois de demoradas preparações em que toda a máquina corporal entra em ação. A base de tudo é a química celular; as mais obscuras sensações preparam a experiência: esta é o produto do trabalho, dos sentidos que elaboram lentamente as suas aquisições e as fixam pela memória. O fenômeno intelectual produz-se no meio de fenómenos fisiológicos, em continuidade com eles e debaixo da sua dependência.

Ninguém pensa, mesmo que só utilize uma ideia adquirida, sem evocar uma série de imagens, de emoções, de sensações, que são os adubos com que se fermenta a ideia.

Quando queremos despertar nalguém um pensamento, servimo-nos apenas dum meio: produzir nele, pela palavra ou por sinais, estados de sensibilidade e de imaginação, de emoção, de memória, nos quais ele descubra a nossa ideia e a possa fazer sua. As almas não comunicam senão pelo corpo. Do mesmo modo, a alma de cada qual não comunica com a verdade e consigo própria senão pelo corpo, de sorte que a mudança pela qual passamos da ignorância à ciência se deve atribuir, segundo Santo Tomás, directamente ao corpo e só “por acidente” à parte intelectual.

Esta doutrina, que o Santo Doutor desenvolve a cada passo, tão essencial e providencialmente moderna, deve gerar a convicção de que para pensar, sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante uma vida inteira, é indispensável sujeitar ao pensamento não só a alma e as suas diversas potências, mas também o corpo e todas as suas funções orgânicas. Tudo, num intelectual, deve ser intelectual. O complexo físico e mental, a substância homem estão ao serviço desta vida especial que por certos aspectos parece tão pouco humana: não lhe ponham embargos! Tornemo-nos harmonia, que dê em resultado a conquista da verdade.

Ora, há aí duas coisas a encarar sem respeito humano, embora a primeira costume assustar os espirituais de juízo pouco firme.

Primeiramente, não vos envergonheis de cuidar da saúde. Gênios houve de saúde lamentável, e se Deus permite que assim suceda convosco, não discutamos. Mas se a culpa é vossa, então isso seria tentar a Deus e caso de grande culpabilidade. Tu que és aluno dos gênios estás seguro de possuir, como eles, bastante vigor para triunfar na luta incessante da alma contra a fraqueza da carne? Nada nos diz que os gênios não tenham visto as suas taras fisiológicas desviarem ou reduzirem-lhes os talentos.

Muitas anomalias intelectuais, mesmo entre os mais bem dotados, talvez se expliquem deste modo, bem como a fraca produção de alguns.

Em igualdade de dons, a doença é grave inferioridade: diminui o rendimento; entrava a liberdade no momento das suas delicadas funções; desvia a atenção; pode falsear o juízo pelos efeitos de imaginação e de emotividade que o sofrimento provoca. Uma enfermidade de estômago muda o carácter do homem e o carácter muda os pensamentos. Se Leopardi não tivesse sido o aborto que foi, quase decerto o não contaríamos no número dos pessimistas.

Tratando-se duma vida elevada, deveis preocupar-vos, ao mesmo tempo que com o pensamento, com todas as suas substruções orgânicas. “Alma sã no corpo são”: eis o ideal de sempre. O homem de pensamento tem uma fisiologia especial; precisa de velar por ela e de não recear consultar o homem da arte.

Em todo o caso, segui as prescrições correntes. A boa higiene é, para vós, uma virtude por assim dizer intelectual. Os nossos modernos, por vezes tão pobres de filosofia, são ricos de higiene; pois bem, não a desdenheis, porque ela enriquecerá a vossa filosofia.

Tanto quanto possível, vivei ao ar livre. A atenção, nervo da ciência, está em estreita correlação com a respiração e, para a saúde em geral, a abundância de oxigénio é condição primeira. Janelas abertas ou entreabertas dia e noite quando a prudência o permite, período frequente de respirações fundas, sobretudo combinadas com movimentos que as amplifiquem e as tornem normais, passeios que se entremeiem com o trabalho e com ele se combinem, consoante a tradição grega: eis aí outras tantas práticas esplêndidas.

É importante trabalhar em posição que desembarace os pulmões e não comprima as vísceras.

É bom interromper, de quando em quando, o estudo aplicado para respirar profundamente, para fazer dois ou três movimentos rítmicos que distendem o corpo e o impedem, por assim dizer, de se enrugar. Está demonstrado que são de grande eficácia largas aspirações praticadas de pé e elevando-nos na ponta dos pés, com a janela aberta. Não descureis nada, para evitar a congestão e o estiolamento dos órgãos.

Consagrai todos os dias algum tempo a exercícios corporais. Lembrai-vos da observação dum médico inglês: “Quem não encontra tempo para fazer ginástica, há-de encontrá-lo para estar doente”. Se não podeis exercitar-vos ao ar livre, não faltam métodos excelentes que suprem essa deficiência. O de J. P. Muller é um dos mais inteligentes; mas existem outros.

O trabalho manual suave e distrativo é igualmente precioso para o espírito e para o corpo. Os antepassados sabiam-no muito bem; mas o nosso século zomba da natureza. Por isso a natureza vinga-se. Reservai-vos todos os anos, e no decurso do ano, férias para descansar a sério. Não quero dizer que vos abstenhais de todo o trabalho, pois isso afrouxaria faculdades naturalmente ativas, mas sim que predomine, nesses períodos de tempo, o repouso, o ar livre e o exercício em plena natureza.

Cuidai da alimentação. Uma alimentação leve, simples, moderada em quantidade e em qualidade, permitir-vos-á trabalhar com mais prontidão e liberdade. O pensador não passa a vida em sessões de digestão.

Cuidai mais ainda do sono: não seja demasiado nem escasso. Demasiado, embrutece e entorpece, espessa o sangue e o pensamento; escasso, expõe-vos a prolongar e a sobrepor perigosamente as excitações do trabalho. Observai-vos; no que respeita ao sono, como ao alimento, encontrai a justa medida que vos convém e proponde não sair dela. Não se pode marcar aqui lei comum.

Em suma, o cuidado do corpo, instrumento da alma, é, para o intelectual, virtude e prova de sabedoria. Santo Tomás reconhece isso mesmo e classifica esta sabedoria do corpo entre os elementos que concorrem para a felicidade temporal, incentivo da outra. Não vos torneis raquíticos, malogrados, possivelmente futuros idiotas, velhos antes do tempo, portanto administradores insensatos do talento que o Mestre lhes confiou.

Mas o cuidado do corpo comporta outros elementos. Já falamos das paixões e dos vícios como de formidáveis inimigos do espírito. Pensávamos então nos seus efeitos psicológicos, nas perturbações que trazem ao juízo e à criação do espírito, que, chegados a certo grau, transformam em potência de trevas. Atualmente referimo-nos os seus efeitos corporais, que indiretamente se convertem em doenças da alma.

Quem é preguiçoso, guloso, escravo do travesseiro e da mesa, quem abusa do vinho, do álcool, do tabaco, quem se compraz em excitações malsãs, em hábitos que a um tempo debilitam e enervam, em pecados talvez perdoados periodicamente, mas cujos efeitos permanecem, como praticará a higiene que vimos ser necessária?

O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. Se obedecerdes à carne, estais em caminho de ser carne, quando deveríeis ser todo espírito.

Por que motivo se chama Santo Tomás o doutor angélico? Será unicamente pelo gênio alado? Não, é porque nele tudo se subordinava ao pensamento genial e santo, porque a sua carne, oriunda das margens tirrenas, se revestira da brancura do Carmelo e do Hermo; porque, sóbrio e casto, pronto para o ardor e afastado de excessos, era todo ele uma alma, “uma inteligência servida por órgãos”, segundo a célebre definição.

A disciplina e a mortificação do corpo, juntas aos cuidados necessários, de que, por sua conta, constituem a melhor parte: tal é, trabalhadores cristãos, e vós sobretudo, jovens, uma das mais preciosas salvaguardas do porvir.

(Do livro A vida intelectual, do padre A. D. Sertillanges)