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A inquisição é um dos principais bodes expiatórios usados pelos inimigos da Igreja Católica, quando pretendem atacá-la. Filmes de Hollywood, livros didáticos, documentários de televisão – são muitos os meios à disposição dos que ousam dizer coisas sem o devido fundamento historiográfico.

Quando se trata, porém, de artigos ou teses acadêmicas, a mentira já começa a ficar mais difícil, diante da necessidade de comprovar as afirmações com as respectivas fontes históricas. Pesquisadores não católicos (homens honestos, como o protestante Henry Charles Lea ou o marxista Henry Kamen), quando se debruçaram sobre o mar de documentos existentes sobre a inquisição, perceberam que a sua história não é um filme em preto e branco, mas cheio de nuances, levantando questões que ainda hoje nos inquietam e para as quais ainda não temos respostas definitivas, como, por exemplo, o problema da guerra justa ou da pena de morte. Investigadores sérios cada vez mais se rendem às evidências, admitindo que, sem a Igreja, com todos os seus erros e problemas, a nossa civilização não teria sido a mesma. Mais do que isto: teria regredido muito cedo à mais completa barbárie.

No caso específico da inquisição (que surgiu intrinsicamente ligada a um fenômeno histórico conhecido como heresia cátara ou albigense, da mais absoluta irracionalidade), o conhecimento das circunstâncias antropológicas e sociológicas é necessário para a sua correta avaliação, como tudo na história. Qualquer historiador prudente sabe que não é possível julgar uma época com os critérios de avaliação de outro período histórico.

É arriscado, por exemplo, aproximar-se da inquisição sem consciência da rigorosa proporcionalidade que havia, na Idade Média cristã, entre o crime e a sua punição. Era inconcebível, no mundo antigo e medieval, uma ordem jurídica sem a pena de morte. Houve erros? Certamente, pois os tribunais eram compostos de homens e não de anjos. Apesar de tudo, nos mais ou menos setecentos anos de existência daquela instituição católica, apenas um pequeno número de condenados foi entregue ao braço secular para a pena capital.

É preciso, além do mais, não esquecer a concepção penitencial da vida que predominava na época, sem a qual permanece ininteligível o rigor do homem medieval para com o corpo humano. Submeter um criminoso impenitente à morte cruel era favorecer o seu arrependimento e contribuir para a salvação de sua alma, ao contrário dos assassinatos ideológicos cometidos no século XX por ateus como Stalin, Hitler ou Fidel Castro. É absurdo julgar a inquisição com nossa concepção atual de direitos humanos, e, sobretudo, a partir do disseminado “culto do corpo” que passou a existir no mundo ocidental, sobretudo a partir do século XX.

O conceito de “cristandade” — período histórico em que os fundamentos da sociedade eram essencialmente religiosos, baseados nos valores evangélicos — é de fundamental importância para o justo enquadramento daqueles tribunais eclesiásticos. Na Idade Média, apogeu da cristandade, cultura e fé eram praticamente uma coisa só: carne e unha. Qualquer ataque aos dogmas da fé significava colocar em risco a própria ordem social.

Em sociedade completamente cristã, quando as instituições respiravam e transpiravam Jesus Cristo, e o poder temporal se submetia ao poder espiritual — “Roma falou, caso encerrado” —, era muito viva a consciência do perigo das heresias, capazes de provocar fraturas irreversíveis na estrutura social. Não era outra a razão de ser da estrita vigilância exercida sobre a prática religiosa, em que o herético era tratado como criminoso de Estado, e o seu crime considerado como de “lesa majestade”.