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Sua Eminência, o que o Senhor pode dizer sobre a carta que recebeu da Irmã Lucia enquanto estava trabalhando para fundar o Instituto Pontíficio João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, em Roma?

Em 1981 o Papa João Paulo II fundou o Instituto de Estudos sobre o Matrimônio e Família. Os primeiros anos (1983-1984) foram muito difíceis. O Instituto não foi bem quisto.

Quem não o queria?

Foi desaprovado tanto dentro como fora da Igreja, devido à visão proposta. Eu andava muito preocupado. Sem ter pedido a ninguém, eu pensei: “Vou escrever à Irmã Lúcia.”

Como isso lhe veio à mente?

Não saberia dizer. Mas como você sabe, desde o início a padroeira do Instituto era Nossa Senhora de Fátima. Estava previsto na Constituição Apostólica, na qual o Papa confiava o Instituto ao patrocínio da Beata Virgem de Fátima. Quem entrava no instituto, ao fim do corredor, via uma estátua de Nossa Senhora de Fátima (espero que ainda esteja assim). A capela do Instituto está dedicada a Nossa Senhora de Fátima. E, então, pensei em escrever à Irmã Lucia. Dizia simplesmente: “O Papa quis este instituto. Estamos passando por um momento muito difícil. Peço as suas orações “. E acrescentei: “Não precisa me responder.” Suas orações teriam sido suficientes. Como você sabe para ter qualquer contato com a Irmã Lúcia, mesmo por carta, era preciso passar para o seu bispo. Então eu mandei uma carta ao bispo, que a enviou à Irmã Lúcia. Para minha surpresa, depois de não mais do que duas ou três semanas, recebi uma resposta. Era uma longa carta escrita à mão. Estávamos em 1983 ou 1984. A carta terminava assim: “Padre, chegará um momento em que a batalha decisiva entre o reino de Cristo e Satanás será sobre o matrimônio e a família. E aqueles que trabalham para o bem da família vão experimentar perseguições e tribulações. Mas não devemos ter medo, pois Nossa Senhora já lhe esmagou a cabeça”. Isto se manteve gravado no meu coração, e em meio a todas as dificuldades que encontramos – e foram muitas – estas palavras sempre me deram uma grande força.

Quando o senhor leu as palavras da Irmã Lúcia, pensou que ela estava falando sobre qual momento histórico?

Alguns anos atrás eu comecei a pensar, depois de quase trinta anos: “As palavras da Irmã Lúcia estão sendo cumpridas.” Esta batalha decisiva será o tema do meu discurso de hoje. Satanás está construindo um anti-criação.

Um anti-criação?

Lendo o segundo capítulo do Gênesis, vemos que o edifício da criação é baseada em dois pilares. Primeiro, o homem não é algo; É alguém, e que merece respeito absoluto. O segundo pilar é a relação entre homem e mulher,  que é sagrado. Entre o homem e a mulher. Porque a criação encontra o seu cumprimento quando Deus cria a mulher. A tal ponto que, depois de ter criado a mulher, a Bíblia diz que Deus descansou. O que vemos hoje? Dois eventos terríveis. Em primeiro lugar, a legitimidade do aborto. Ou seja, o aborto tornou-se um direito subjetivo da mulher. O “direito subjetivo” é uma categoria ética, e portanto estamos no bem e do mal; diz-se que o aborto é um bem, que é um direito. A segunda coisa que vemos é a tentativa de equiparar as relações homossexuais e o matrimônio. Satanás está tentando ameaçar e destruir os dois pilares, a fim de forjar uma outra criação. Como se ele estivesse provocando o Senhor, dizendo-lhe: “Eu vou fazer uma outra criação, o homem e a mulher dirão: esta nos agrada muito mais.”

As Escrituras dizem que o diabo é o pai da mentira, que se apresenta como um anjo de luz ...

Em minha palestra, explicarei as palavras de Jesus sobre Satanás, “Quando ele diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8:44). E assim, segundo penso – e não sei se João Paulo II já o tinha previsto – neste tipo de situação, o ser humano que deve ser mais defendido é a mulher. De fato, em seu pontificado escreveu Mulieris dignitatem. Lá, ele queria desenvolver uma teologia da feminilidade, porque ele entendeu que este era um ponto delicado.

A mulher é, portanto, o campo de batalha?

Na Bíblia há um detalhe que sempre me impressionou. Após o pecado original, Deus se dirige à serpente e diz: “Porei inimizade entre tu e a mulher”. Deus pôs uma particular inimizade entre a mulher e o mal, como se a mulher tivesse uma espécie de instinto para o bem. Deus colocou essa inimizade exatamente entre a mulher e o mal. O texto continua: “Entre a tua descendência e a da serpente”, e aqui os teólogos veem a predição do Filho de Maria. Portanto, a mulher tem um compromisso especial, com consequências para a cultura, a sociedade e a família.

Estamos comemorando o centenário das aparições de Nossa Senhora às crianças de Fátima. Qual é a mensagem para os nossos dias?

Para mim, a originalidade de Fátima é esta: em Fátima, Nossa Senhora profetizou. Em outras aparições, ele não profetizou, mas exortou. Como em Lourdes: façam penitência, rezem, peçam aos sacerdotes que construam uma capela nesse lugar. Exorta e recorda as fortes exortações de Jesus para a penitência e a oração. Mas em Fátima ela profetiza; isto quer dizer que ela se introduz ns acontecimentos humanos e os interpreta. Nunca tinha feito antes.

Até Irmã Lúcia profetizou?

Sim, ela situou plenamente a profecia de Nossa Senhora, e ainda nos deixou suas memórias. Algumas são muito inquietantes. Ela sentiu que essa era a tarefa que Nossa Senhora lhe tinha dado, ou seja difundir e interpretar essa profecia.

E as palavras da Irmã Lúcia sobre “batalha decisiva” eram uma profecia?

Sim, seguramente. O que  Irmã Lúcia escreveu está se cumprindo hoje.

(Cardeal Carlo Caffarra é Arcebispo emérito de Bolonha e presidente fundador do Instituto de Estudos sobre o Matrimônio e Família. É atualmente membro do Supremo Tribunal da Sgnatura Apostólica, do Pontifício Conselho para a família e da Pontifícia Academia pela vida. Foi nomeado cardeal pelo Papa Bento XVI, em março de 2006. Participou do Sínodo Ordinário sobre a Família em 2015. Junto com outros três cardeias, Brandmüller, Burke e Meisner, assinou um pedido de esclarecimento, endereçado ao Papa, sobre afirmações ambíguas contidas no documento pós-sinodal Amoris laetitia. Em https://www.corrispondenzaromana.it/notizie-dalla-rete/intervista-esclusiva-al-cardinale-caffarra-quanto-mi-ha-scritto-suor-lucia-si-sta-adempiendo-oggi/).