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“Poderia a Igreja, por amor da pobreza, deixar de parte os interesses da propriedade, esquecer o rico? Não, porque o primeiro rico é o próprio Deus. Poderia a Igreja, por amor da estabilidade da propriedade, por amor do rico, esquecer o pobre? Não, porque o primeiro de todos os pobres é Jesus Cristo.” (Padre Júlio Maria, sacerdote redentorista brasileiro do século XIX)

Não é raro, hoje em dia, o católico encontrar, em meio às tradicionais orações da Igreja, a presença de palavras, expressões ou até frases inteiras que fogem completamente ao estilo cristão de rezar. São palavras, expressões ou frases de clara conotação política, do setor mais à esquerda da política, dominado pelo vocabulário do marxismo, condenado por todos os Papas (pelo menos até Bento XVI).

O que dizem tais palavras, expressões ou frases mais sociológicas do que teológicas? É o mesmo refrão de sempre: pede-se pelos pobres, pelos marginalizados, pelas vítimas de preconceitos. O pedido é justo, mas a forma do pedido está claramente comprometida por insinuações ideológicas. Algumas vezes, há uma tal insistência e ênfase na abordagem desses temas, que o católico tem a impressão de que os autores de tais textos já não crêem na vida após a morte; e que o novo céu e a nova terra, prometidos por Deus para a eternidade celeste, devessem se realizar neste mundo, aqui e agora, a partir de um esforço social e político, basicamente humano.

Ao contrário, ensina a Igreja Católica, desde sempre, que todos os batizados são filhos de Deus, sejam pobres, ricos, remediados; e que, no fundo, somos todos pobres, pobres, pobres: pobres pecadores.

Quem será mais necessitado de oração do que o rico? Jesus mesmo já avisou, no Evangelho, que é mais difícil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico salvar-se, tais são os obstáculos que a riqueza material oferece às pessoas. Pensemos, sobretudo, nos pecados capitais a que estão sujeitos os ricos (e, obviamente, também os pobres): acúmulo desnecessário de bens, sofrimento com o sucesso do próximo, exibicionismo do próprio sucesso, revolta contra os obstáculos interpostos. O rico, em primeiro lugar, prejudica-se a si mesmo, com a sua soberba, sua vanglória, sua avareza, sua ira. E, evidentemente, prejudica os que o cercam e dele dependem.

A sociologia marxista ensina que os burgueses, detentores dos meios de produção, são inimigos do povo, gerando com tal pensamento um clima de ódio entre as classes sociais e um natural endeusamento das classes desfavorecidas, numa clara idolatria do povo. O cristianismo prega o contrário: ricos e pobres, burgueses e proletários, são todos irmãos, miseráveis irmãos decaídos da Graça e seqüestrados pelo pecado. Se o rico explora o pobre, e se transforma, portanto, em seu inimigo, não deve atrair sobre si o ódio classista do oprimido, mas aoração humilde e confiante (que não deve impedir o pobre de defender-se legalmente dos que o exploram).

A oração cristã não pode privilegiar ricos ou pobres. Para melhorar o mundo (até o ponto em que isto seja possível), não convém jogar uma classe contra outra, nem revoltar-se contra o princípio de autoridade, irando-se contra Deus, o pai ou o patrão. Comece-se pedindo ao Espírito Santo, que habita em cada um dos homens: “Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da Terra.”

É preciso levar a sério o que diz São Paulo (ICoríntios 6, 19), ao insistir que somos templos do Espirito Santo. Ora, onde está o Espirito Santo, estão inseparavelmente as outras duas pessoas da Trindade: Pai e Filho. Logo, somos morada da Trindade Santa. E onde está a Trindade, está toda a corte celeste: anjos e santos. Misteriosamente, de uma forma que não podemos compreender, todo o Céu está condensado dentro de nós. Cada um de nós — ou, pelo menos, a parte mais nobre de nossa alma, como ensina Santa Teresa d’Ávila —, é um privilegiado microcosmo do Céu.

Qual é o objetivo de toda essa maquinaria celeste posta à disposição da humanidade? A nossa santificação. Concretamente, isto só pode significar morte ao pecado e ao Dragão livre das correntes, que destroem a pobres e ricos. O mundo só vai melhorar quando ricos e pobres se entreolharem, e um enxergar no outro o Templo vivo do Espírito Santo.

(Publicado em 19/04/2017, no site http://www.jczamboni.com.br)