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Nenhuma discussão das línguas faladas na Palestina, nos dias de Cristo, pode deixar de destacar quanto o hebreu e o aramaico diferiam das línguas ocidentais em sua natureza, ou como eram diversos os usos a que se prestavam.

Quando se tratava de transmitir dados reais, ou mesmo ideias, os israelitas naturalmente falavam como nós. O mesmo acontecia quando expressavam sentimentos, ou se desejavam advertir, persuadir ou ameaçar. Mas a língua pode ter tido muitos outros propósitos: por exemplo, existe aquela função poética para a qual nossa civilização materialista não tem praticamente aplicação, mas que teve grande importância em
Israel e em todas as outras nações do Oriente, particularmente os semitas; e também aquela transmissão de geração em geração — um papel ligado inseparavelmente à poesia, como vamos ver.

Para compreender, perfeitamente, este aspecto muito especial das palavras em Israel, devemos esquecer nossa civilização do papel e seus hábitos (e podemos, agora, acrescentar civilização do toca-discos e do toca-fitas): para nós, escrever e ler, isto é, colocar os pensamentos de uma forma duradoura e material a fim de que permaneçam inalterados, são atos que nos parecem tão naturais, que dificilmente poderemos imaginar sociedades que pudessem abster-se quase que totalmente deles. Nossa memória tornou-se anêmica e impotente; nossa capacidade de improvisação é muito mais didática que poética. Este não era absolutamente o caso em Israel, nem nas outras nações orientais. As ideias eram transmitidas da maneira mais duradoura e permanente, na sua maior parte através da palavra falada; e isto, naturalmente, afetava necessariamente a palavra falada, dando-lhe características muito particulares.

Muito antes de ter sido registrado por escrito, a princípio de forma parcial sob Ezequias e Josias e, a seguir, de maneira mais completa no quinto século, quando é dito que o escriba Esdras ditou noventa e quatro dos livros sagrados, o Velho Testamento só existia na forma falada. Declara-se, formalmente, que as profecias de Jeremias foram “ditas” durante vinte e dois anos, antes de serem escritas; e está claro que os Salmos, Provérbios e os cânticos nupciais dos Cantares de Salomão surgiram primeiro como falas e canções, e só passaram à forma escrita mais tarde. Foi este, também, o caso dos poemas de Homero; Pisístrato ficou famoso, em Atenas, por ter dado ao texto sua forma final, por escrito, e o livro sagrado dos persas, o Zend Avesta, foi registrado da mesma forma por Zaratustra. O Corão também existia, a princípio, só na forma oral; e, na verdade, o seu próprio nome dá a ideia de recitação.

Mesmo depois do texto sagrado ter sido registrado por escrito, o hábito da transmissão oral dos pensamentos não foi abandonado. São muitas as provas disto: os rabinos ensinavam oralmente, e seus pareceres foram transmitidos da mesma forma; o tratado Gittin chegou a di-
zer que escrevê-los seria uma transgressão da Lei. No ano mil da nossa era, Sheria Gaon afirmou que “os eruditos consideram seu dever recitar de memória”. Além disso, o termo Talmude significa “aprendido de cor”. Sabemos também que, entre os primeiros cristãos, era co-
mum transmitir as “boas novas”, isto é, o relato da vida do Senhor e seus ensinamentos, unicamente de forma oral. Os “Atos dos Apóstolos”, as “Epístolas” e o “Apocalipse” foram com toda certeza escritos desde o inicio, mas é também igualmente certo que os quatro Evangelhos foram falados antes de se transformarem em livros. Os homens que empreenderam a difusão do novo ensinamento fizeram sem dúvida uso de dispositivos mnemónicos para ajudá-los, os quais podem ser traçados nos evangelhos; mas o mais importante é que tudo, para eles, era o que haviam aprendido, o que sabiam. Tornou-se necessário colocar as coisas por escrito somente quando o
cristianismo alcançou aqueles círculos greco-romanos em que a leitura e a escrita constituíam prática comum; mas mesmo cerca do ano 130, quando os livros dos quatro evangelistas já circulavam há muito, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, afirmou que preferia acima de tudo,
em matéria de tradição, a “palavra viva eterna”. E, pouco mais tarde, Irineu, em Lions, falou de certa ocasião em que ouvira Policarpo, o grande bispo de Esmirna, relatando o que ouvira diretamente do apóstolo João.

A memória desempenhava um papel importante em tudo isso, e os rabinos davam grande consideração ao exercício da mesma. O rabino Oostai, filho de Jani, falando em nome do rabino Meir, declarou: “O homem que se esquece de algo que aprendeu, provoca a sua própria ruína”. E o maior elogio a um discípulo era dizer que se assemelhava a “uma cisterna bem cimentada, que não perde sequer uma gota de água”. Existe também um ditado comum: “O homem que não recita é ímpio” A fim de treinar a memória, os alunos eram obrigados a de-
corar passagens enormes, que precisavam repetir sem qualquer omissão, sem acréscimo ou modificação de uma só palavra. Quem visita uma escola maometana, hoje em dia, pode observar que o método continua sendo usado no Islam: um grupo de meninos, sentados no chão, re-
petem juntos, em voz alta e ritmada, verso após verso do Corão. O mesmo acontece nas escolas talmúdicas. Deve ser enfatizado que este método de treinamento sistemático da memória não se destinava apenas aos especialistas, teólogos ou historiadores profissionais: como vi-
mos, as crianças já aprendiam a memorizar desde a mais tenra idade. E, quando alguém pensa no extraordinário comprimento da oração do Shemoneh Esreh, as dezoito bênçãos, é preciso admitir que a memória do judeu era na verdade muito bem treinada.

Este uso deliberado da memorização deu à língua, e às suas formas de expressão, algumas características altamente individuais. Em primeiro lugar, desde que todos os textos aprendidos de cor foram extraídos das Escrituras, a mente dos alunos ficava repleta de fatos, sentenças e
personagens bíblicos, o que explica os inúmeros ecos bíblicos ouvidos da boca dos homens e mulheres judeus da época — nas palavras dos próprios Maria e José. Acima de tudo, porém, os eruditos de Israel, desejosos de ajudar a memória a gravar, o mais profundamente possível, os
ensinamentos que ela deveria reter e transmitir, haviam inventado todo um sistema de ritmos, melodias, aliterações, repetições de palavras e antíteses, que tornava mais fácil a memorização dos elementos verbais. Este sistema era tanto mais importante, porque o aprendiz não tinha um caderno de apontamentos no bolso, nem um dicionário sobre a mesa.

Estudos recentes provaram a importância fisiológica e psicológica deste “estudo rítmico”. A maior parte do Velho Testamento provavelmente foi composta nessa base, em ritmos duplos ou triplos. Quanto ao
Evangelho, basta lê-lo com cuidado para sentir a batida rítmica e o jogo dos contrastes; a técnica característica continua perfeitamente visível, embora o livro tenha sido traduzido para o grego e, desta língua, para o português, isto é, duas línguas cujos ritmos e construções são radi-
calmente diferentes das semitas. O “Sermão da Montanha” é um exemplo típico, especialmente na versão de Lucas, com as bem-aventuranças e as maldições que se seguem. Também nas parábolas, e até mesmo nos ditos mais comuns, sentimos o que o Padre Jousse chamou de “re-
citativos paralelos”, que, ou em hebraico ou em aramaico, devem ter sido surpreendentemente claros para todos.

Quando um judeu tinha, portanto, de falar com extrema formalidade, como, por exemplo, ao ensinar ou orar, esta teria sido a base do seu estilo, sendo altamente provável que uma parcela do mesmo fosse incluída na linguagem diária. Uma jovem mulher do povo, como Maria, por exemplo, ao proferir espontaneamente seu agradecimento, o “Magnificat”, deu-lhe com naturalidade uma cadência poética que continua evidente na sua versão portuguesa: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus…”

Em nossa concepção moderna, baseada na palavra escrita, as palavras têm um lugar, as melodias outro e os ritmos um terceiro; na concepção israelita da linguagem, os três se interpenetravam; desempenhavam, juntos, o seu papel, e a expressão do pensamento tendia, naturalmente, a tornar-se uma forma de arte.

(Capítulo da obra A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo, Edições Vida Nova, 1986. Daniel-Rops é autor da célebre História da Igreja, em 10 volumes, editada no Brasil pela editora Quadrante, da Opus Dei. Nasceu na França, em Épinal, em 1901, e faleceu em Chambéry, em 1965. Foi professor de História e diretor da revista Ecclesiae (Paris). Tornou-se mundialmente famoso sobretudo pelas obras de historiografia: a coleção História Sagrada, que abrange os volumes O povo bíblico (1943), Jesus no seu tempo (1945). Também escreveu diversos ensaios e romances históricos, como Morte, onde está a tua vitória? (1934) e A espada de fogo (1938). Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.)