A tese de que a decadência moral da Igreja, sob os papas do Renascimento, tinha chegado a um extremo intolerável, e que Lutero liderou os “protestantes” contra esta situação, exigindo uma “reforma”, é falsa e nenhum historiador moderno é capaz de sustentá-la.

A atualidade de Lutero.-  Em  31 de Outubro de 2016 comemorou-se mais um  aniversário das 95 teses pregadas em 1517 por Lutero na porta  da Igreja do Palácio de Wittenberg. São várias as publicações recentes sobre Lutero, em que ele é mostrado como um amante da Bíblia e divulgador da mesma junto ao povo, um reformador da Igreja romana corrompida em sua época, etc. Parece, portanto, oportuno fazer algumas verificações.

Ele não foi um reformador de costumes, mas de doutrinas.- A tese de que a decadência moral da Igreja, sob os papas do Renascimento, tinha chegado a um extremo intolerável, e que Lutero liderou os “protestantes” contra esta situação, exigindo uma “reforma”, é falsa e nenhum historiador moderno é capaz de sustentá-la. Entre outras razões, porque o próprio Lutero rejeita esta interpretação do seu trabalho, em numerosas declarações explícitas. “Eu não contesto os maus hábitos, mas as doutrinas ímpias”. E anos mais tarde ele insiste: “Eu não contestei as imoralidades e abusos, mas a substância e a doutrina do papado.” “Entre nós — confessava abertamente —, a vida é ruim, como também entre os papistas; mas não os acusamos de imoralidade, mas de erros doutrinais”. De fato, “a guerra de Lutero é contra a doutrina corrupta, contra os dogmas ímpios” (Melanchthon).

Reformador da doutrina católica.- Lutero efetivamente, lutou com todas as suas forças contra a doutrina da Igreja Católica. Para começar, destruiu a Bíblia, uma vez que, deixando-a à mercê do livre exame, trocou a infalível e única Palavra Divina por uma variedade incontável e contraditória de falíveis palavras humanas. Destruiu a sucessão apostólica, o sacerdócio ministerial, bispos e padres, a doutrina dos Padres e dos Concílios. Ele eliminou a Eucaristia como sacrifício de redenção. Destruiu a devoção e culto da Virgem Santíssima e dos santos, os votos e a vida religiosa, o papel benéfico da lei eclesiástica. Reduziu a um e meio os sete sacramentos. Afirmou que, com base na corrupção total do homem pelo pecado original, “a razão é a grandíssima  prostituta do diabo, uma prostituta devorada  pela sarna e a lepra etc.” (e continua assim por cinco linhas). Pela mesma razão, e com igual paixão, ele negou a liberdade do homem (em De servo arbítrio, obra de 1525), estimando que “o mais seguro e religioso” seria que o próprio termo “livre arbítrio” desaparecesse da linguagem. Como consequência lógica, também negou a necessidade das boas obras para a salvação. Destruiu praticamente todo o cristianismo.

 Pensamento esquizoide.-  A Igreja Católica não separa razão e fé, entendendo a teologia como “ratio fide illustrata” (a razão iluminada pela fé), conforme ensina o Concílio Vaticano I. Une a Bíblia à Tradição e ao Magistério apostólico (Concílio Vaticano II, Dei Verbum 10). Une a graça à ação livre da vontade humana. “Et, et” (e, e).

O pensamento de Lutero, no entanto, é esquizóide: “Vel, vel” (ou, ou). Considerando que “a razão é a grandíssima prostituta do diabo”, conclui: “Sola fides” (só a fé salva). Convencido de que a mente e consciência do cristão estão acima dos Padres, Papas e Concílios, afirma: “Sola Scriptura” (a suprema autoridade teológica é a Bíblia). Sustentando que o homem não é livre, e que as boas obras não são necessárias à salvação, declara: “Sola gratia” (basta a graça).

O maior insultador do Reino.- Lutero escreve que “toda a Igreja do papa é uma Igreja de putas e hermafroditas” e que o próprio Papa é “um louco furioso, um falsificador da história, um mentiroso, um blasfemo, um porco, um burro”, etc., e que todos os atos pontifícios estão “selados com a merda do diabo, e escritos com peidos do asno-papa”. Poder-se-iam encher muitas páginas com frases semelhantes ou piores. Os teólogos católicos da época de Lutero, que rejeitaram as suas teses, ganharam de sua parte qualificativos previsíveis. A Universidade de Paris era “a sinagoga condenada do diabo, a prostituta intelectual mais abominável que viveu sob o sol.” Os teólogos de Louvain são “rudes jumentos, malditos porcos, barrigas  blasfemas, epicuristas grosseiros, hereges e idólatras, caldo maldito do inferno.” Não é de estranhar que, pensando assim, rechaçasse Lutero a proposta feita por Carlos V, em Worms, para discutir suas doutrinas com os mais prestigiados teólogos católicos. Quem se interessaria em discutir com porcos endemoniados? Além disso, os insultos de Lutero tinham uma extensão universal: as mulheres alemãs, por exemplo, eram umas excomungadas sem vergonha; os camponeses e burgueses uns bêbados, entregues a todos os vícios. Dos estudantes, dizia que “só um ou dois se salvavam entre mil.”

O perfeito herege. “Eu, o Dr. Lutero, indigno evangelista de nosso Senhor Jesus Cristo, lhes asseguro que nem o Imperador romano […], nem o papa, nem os cardeais, nem os bispos, nem os santarrões, nem os príncipes, nem os cavalarianos poderão alguma coisa contra esses artigos, apesar do mundo inteiro e de todos os diabos […] Sou eu quem o afirmo, eu, o Dr. Martinho Lutero, falando em nome do Espírito Santo.” “Eu não admito que a minha doutrina possa ser julgada por ninguém, nem mesmo pelos anjos. Quem não ouvir a minha doutrina, não poderá ser salvo.”

Duro com os pobres, fraco com os poderosos.- Durante a revolta dos camponeses, que exigiam, primeiro por bem e, em seguida, por mal, o que consideravam como seus direitos, escreve Lutero uma invectiva duríssima contra suas “hordas assaltantes e homicidas” (1525). “É preciso abater o líder da revolta, estrangulando-o e matando-o privada ou publicamente, pois não há nada mais venenoso, nocivo e diabólico do que um promotor de revoltas, assim como você tem que matar um cão raivoso, porque se não acabas com ele, ele é que acabará contigo e com todo o país.” Ao contrário foi muito suave, com os poderosos príncipes alemães, a fim de conquistar o seu favor. Quando, por exemplo, Filipe de Hessen, grande Landgrave, casado com Catarina, com a qual tinha sete filhos, exigiu a aprovação de um casamento adicional com uma jovem da nobreza saxônica, obteve a licença de Lutero e Melanchthon, sob a condição de que a concessão se mantivesse em segredo.  Apoiou-se, para aprovar esse caso de poligamia, consumado em 1540, no precedente dos antigos patriarcas judeus.

Espantado com a própria obra.- Os resultados da predicação de Lutero foram devastadores na vida moral do povo, e ele mesmo reconhece: “Desde que a tirania do papa deixou de existir para nós, todos desprezam a doutrina pura e saudável. Nós já não temos aspectos de homens, mas de verdadeiros brutos, uma espécie bestial.” De seus seguidores, afirmava que “são sete vezes piores do que antes. Depois de predicar a nossa doutrina, os homens se entregaram ao roubo, à impostura, à devassidão, à embriaguez e a todos os tipos de vícios. Nós expulsamos um demônio [o papado] e vieram sete piores”. A Zwinglio, escreve espantado: “É assustador ver como, onde antes reinava  paz e tranquilidade, agora haja por todo lado seitas e facções: uma abominação que inspira lástima. Sou forçado a confessar: minha doutrina  produziu muitos escândalos. Sim; não posso negar; estas coisas frequentemente me apavoram.” E ainda previa maiores catástrofes. Um dia, confidenciou a seu amigo Melanchton: “Quantos mestres diferentes não surgirão no próximo século? A confusão chegará ao ponto máximo.” E assim foi. E assim tem sido, em progressão acelerada, até a grande apostasia atual das antigas nações católicas.

(Padre José María Iraburu Larreta nasceu em Pamplona, Espanha, em 28 de julio de 1935, em cuja diocese ainda atua. Possui vasta e respeitada obra teológica)