Ela é belga, casada, tem três filhos, uma licenciatura em filosofia e um mestrado em ciências sociais pela Sorbonne de Paris, e tem apenas 32 anos. Mas Thérèse  Hargot não só contradiz “a antítese contemporânea (que tem o seu símbolo na contracepção) para a qual a maternidade e carreira profissional são incompatíveis”.  Estudou enquanto já era casada, com filhos a tiracolo, é bonita e nada vulgar, demonstrando também que a mulher pode ser valorizada por sua modéstia. Feminina até a medula, Thérèse parece prova viva de que confiança, no homem, não é sinônimo de “fraqueza”. Ao contrário. Esta jovem filósofa francesa é muito determinada e segura de si, porque sabe que a “ambivalência feminina” se resolve confiando na figura masculina. Demonstra enfim, como não crente, que “a visão da Igreja sobre o homem não é verdadeira somente para aqueles que têm fé”, mas para qualquer homem racional. Estas são as questões que Hargot aborda em seu último livro: A juventude sexualmente livre (Eeditora Sonzogno, 176 páginas).

Hargot, em seu livro você fala do aborto como consequência da contracepção, e, em seguida afirma que a verdadeira liberdade está na prática de métodos naturais. Por quê?

O fato de que as mulheres possam conhecer o seu corpo lhes dá grande autonomia, mas também para os seus homens. Para mim, a verdadeira liberdade não pode residir na dependência de um médico que me prescreve contracepção e uma empresa farmacêutica que produz contraceptivos.

Por que  argumenta que a contracepção é responsável por uma visão social que tornou a figura da mãe antitética àquela da mulher que trabalha?

Quando a mulher contemporânea chega ao momento fatal do nascimento do primeiro filho, percebe que existe uma incompatibilidade entre estas duas funções. Não porque o sejam, em si, mas porque a nossa sociedade tornou-os assim, impelindo a mulher a fazer carreira como um homem, conforme uma modalidade que não lhe pertence. Neste sentido, o feminismo falhou. A verdadeira revolução social, o novo feminismo, deveria ao contrário contribuir para que o mundo do trabalho permitisse às mulheres fazer carreira, tendo em conta o seu papel de mães, por ex., através de mais flexibilidade, segundo os tempos e modos adequados à natureza feminina. Seria necessário ajudar os adolescentes a ter confiança no próprio corpo e nos próprios desejos, inclusive o de formar uma família sem contraposição à vontade de desenvolver uma carreira. A maternidade valoriza a mulher em suas capacidades.

A contracepção é o resultado de uma visão “libertina” resumida pelo slogan “o corpo é meu e eu o administro.” No entanto, nunca antes, como no século feminista, a mulher tornou-se um objeto. Por quê?

Foi a pregação de que “o corpo é meu” e “eu o administro”,  que transformou o corpo feminino em um objeto, justificadora da mercantilização consensual do corpo. Vemos isso com relação à mãe de aluguel. “Se a mulher quer – diz-se por aí –, pode fazê-lo.” Mas quem aceita esse slogan acaba não tendo argumentos teóricos para refutar, por ex., a prática dos serviços sexuais de adolescentes em troca de dinheiro ou aparelhos celulares. Por isso, eu creio que seja uma hipocrisia das feministas oporem-se a essas práticas, inclusive o útero de aluguel, sem rever as premissas do seu pensamento resumida naquele slogan.

Acha que há uma ligação entre os direitos feministas e a guerra que visa tornar a mulher e o homem inimigos entre si?

O fato é que o feminismo de Simone de Beauvoir e suas companheiras produziu um ideal feminino superior ao dos homens, desprezando a igualdade dos sexos que diziam querer, pelo menos com palavras. Mas, também neste caso, o conflito só é possível graças à contracepção, que produz uma guerra interna nas mulheres, que lutam para compatibilizar o seu ser-mãe e o seu ser-mulher. É graças a esta luta interna que a guerra pode estourar também em nível social.

Você descreve a mulher como um ser de natureza ambivalente: pode estar grávida, pode querer ter um filho e, ao mesmo tempo, ter dúvidas sobre isto. Pelo contrário, o homem é a autoridade que, garantindo a lei, lembra à mulher que seu filho deveria nascer. Desta maneira,você não termina também por contrapor os dois sexos?

Não diria isto. O homem tem essa natureza em função protetora da mulher, embora a sociedade o tenha deposto deste papel. Basta pensar sobre a lei do aborto, que o priva de toda responsabilidade.

Quando você fala da lei, o que quer realmente dizer?

Não é da “lex”, mas da “ius”, ou seja, não da lei específica, adaptada a cada caso, mas da norma geral. Na verdade, há um nível objetivo fundamental da lei (ius), que depois se espalhou para vários níveis, para se adaptar a casos especiais (lex). A “lei” sobre o aborto contradiz a “ius”, banalizando o problema da maternidade. Mas eu gostaria de repetir que o problema subjacente continua a ser a contracepção, ao qual o aborto presta um serviço em caso de falha.

Mas qual é, então, a função das mulheres em relação aos homens, e, portanto, em relação à sociedade?

A mulher é um testemunho do mistério da vida. Gosto de uma frase de João Paulo II, segundo a qual “a mulher é uma testemunha do invisível”. Testemunha, ou seja, uma conexão com o sentido sagrado da existência. É por isso que o seu ministério é o da humildade, na medida em que tem a tarefa de lembrar ao homem que ele não é Deus. Por exemplo: quando uma mulher dá à luz com dor, lembra ao homem a sua impotência. Ele, naquele momento, tem a tarefa de protegê-la, mas ao mesmo tempo não pode fazer nada para impedir que o parto seja doloroso. Esta posição de humildade, em que o homem é colocado pela mulher, será para ele necessária para acompanhar o filho pela vida afora.

Muitas vezes, o seu pensamento chegou às mesmas conclusões que o Magistério da Igreja. Você nunca se perguntou por quê?

Eu me explico isso com o fato de que compartilhamos a mesma visão filosófica sobre a idéia de pessoa: para a Igreja, a fé e a razão são as duas asas com as quais o intelecto se eleva para a verdade. Este é o lado do meu trabalho que pode interessar aos católicos: compartilhando, como laica, o realismo do magistério católico, demonstro precisamente a razoabilidade da fé. (10/03/2017)

(Este texto se encontra em: http://www.lanuovabq.it/it/articoli-parola-di-femministale-ragioni-dellachiesa-sul-sesso-19191.htm)