No século XX, em torno licoes_de_abismodos anos trinta, surgiu uma corrente literária muito importante na literatura brasileira: o romance católico. Bastante negligenciada pela atual crítica acadêmica, quase completamente dominada por preconceitos ideológicos, a ficção católica preocupava-se com questões morais e espirituais quase inexploradas pelo romance realista do período.

A ficção católica brasileira dos anos trinta era confessional, introspectiva, de sondagem da alma. A narração de fatos exteriores e rápidas pinceladas psicológicas, próprias da maneira realista, cediam lugar nos autores católicos a uma viagem mais demorada pelo mundo interior dos personagens, geralmente inspirando-se nas técnicas proustianas de construção da alma. O seu centro de interesse eram questões do tipo: fé e dúvida, crime e castigo, justiça e misericórdia, inocência e pecado, carne e espírito, prazer e sacrifício, obediência e rebeldia, ódio e piedade, bem e mal, vício e virtude, caridade e egoísmo, esperança e desespero, perdição e santidade.

Vejamos alguns nomes representativos dessa importante vertente literária.

OCTAVIO DE FARIA. Nasceu de família abastada. Depois de diagnosticar os problemas de sua própria classe na obra Tragédia burguesa, romance-rio com personagens recorrentes e sem grande brilho estilístico, achava que só o cristianismo poderia salvar a família moderna: nem o liberalismo do deus Mercado, nem o marxismo da divindade igualitarista. A propósito, há uma tirada espirituosa do escritor, que de si mesmo dizia ser não um romancista católico, mas um católico que escrevia romances. Um católico que escreveu os romances mais católicos da literatura brasileira…

LÚCIO CARDOSO. Era o mais novo do grupo, mineiro, de família de fazendeiros. Além da ficção, praticou o teatro, a poesia e tentou o cinema. Começou mais ou menos naturalista, em 1934, com o romance Maleita, para depois descobrir o rico filão da narrativa psicológica. Adestrou a mão com uma série de romances antes de, em 1959, lançar-se à realização de sua indiscutível obra-prima no gênero: Crônica da casa assassinada. É um retrato de certa burguesia rural mineira, economicamente em decadência, flagrada em seus mais inconfessáveis pecados capitais. Foi filmado, em 1971, por Paulo Cesar Saraceni, com bela trilha sonora de Tom Jobim, em versão infiel ao espírito da obra: tem mais de “cinema novo” do que de Lúcio Cardoso. A preocupação com a decadência da família burguesa aproximou-o de Octavio de Faria, que cuidou postumamente da edição do seu último e incompleto romance, O viajante.

JOSÉ GERALDO VIEIRA. Egresso da alta burguesia urbana, que lhe povoa os dez romances, era um virtuose do estilo. Médico, homem de formação enciclopédica, dominava a língua portuguesa como poucos colegas de sua geração. Algumas vezes, porém, abusava do virtuosismo: era capaz de, pela força dos detalhes e do rebuscamento estilístico, inflar seus textos de informações que acabavam por esconder o seu principal objetivo, que sempre foi o estudo das almas; as quais, inconformadas com os limites impostos por este mundo passageiro, andavam em permanente busca de transcendência: espacial, com as frequentes incursões europeias; cultural, com o papel privilegiado da arte na busca de sentido existencial; metafísica, com a convicção de que só o Paraíso é capaz de satisfazer as expectativas humanas.

CORNÉLIO PENA. Pessoa discretíssima, durante muito tempo hesitou entre as artes plásticas e a literatura. Sempre desprezou a vida literária. Escrever, para ele, era algo íntimo, uma espécie de ascese, cuja cristalização em obras literárias era mais um acidente do que um objetivo. Ligado à burguesia rural, passou pedaços da infância em algumas cidades mortas de Minas Gerais, ambiente que marcaria para sempre os seus quatro romances, de mistura com velhas fazendas paulistas do café; não pelos aspectos sociológicos da decadência, mas pela oportunidade de ali emoldurar seus dramas intimistas, de profunda angústia existencial e religiosa, para sempre marcado pelos escritores russos que devorou na juventude. Os ambientes mortos de Minas impregnaram o seu estilo, de rio largo e parado que avança lentamente pela trama, sem pressa de chegar ao final do enredo. Disse em entrevista, certa vez, que o homem, caso queira salvar-se, deve comparecer voluntariamente perante o Criador. Seus personagens foram criados com essa finalidade: responder ao apelo intransferivelmente pessoal de Deus.

GUSTAVO CORÇÃO. Foi engenheiro elétrico de profissão. Não só sabia calcular probabilidades, mas acreditava também na possibilidade da intervenção de Deus na natureza. Escreveu, lamentavelmente, só um romance: Lições de abismo, publicado no início dos anos cinquenta. Mergulho corajoso nos porquês da vida diante da morte, é um dos principais romances de sua geração e dos maiores de toda a literatura brasileira, tendo provocado inesperados elogios de um velho comunista, Oswald de Andrade, que equiparou com justiça o seu fino humorismo e a sua prosa concisa à de Machado de Assis. Prosa e humor que já estavam em seu primeiro, A descoberta do outro, de 1944, autobiografia espiritual em que o escritor, com arte consumada de romancista, relata a sua conversão à Igreja Católica (a quem dedicou toda a sua maturidade estilística, em artigos, ensaios e livros cuja arte apuradíssima é ressaltada até por inimigos). Quem escreveu com mais equilíbrio, em língua portuguesa moderna, do que esse inquieto autor de um único romance?