abadia

Havia, à época de São Bento, duas formas de praticar-se a solidão monástica: a eremítica e a cenobítica. São Bento, nascido de família nobre quase quinhentos anos depois de Cristo, em pequena cidade perto de Roma, teve uma educação bem cuidada. Ainda jovem, sentiu o chamado para a vida eremítica, própria dos que se isolam em lugares desertos, rezando e fazendo penitência. Fez-se monge eremita, não demorando porém a perceber, por inspiração divina, que seu caminho era outro: a vida comunitária (ou cenobítica). Essa troca foi fundamental para a vida de todos nós, como veremos a seguir.

São Bento, a partir de então, dedicará toda a sua vida a fundar mosteiros, a começar pela grande Abadia de Monte Cassino. Funcionavam regidos por um estatuto que ele mesmo redigiu, conhecido como “Regra de São Bento”, que delimitava os princípios da vida e da espiritualidade beneditina, cuja base era deixar sempre Cristo em primeiro lugar (Christo nihil praeponere). A comunidade beneditina tinha como propósito fundamental conduzir seus membros à união íntima com Deus, pela prática da oração e a conquista da vida virtuosa, sem desprezo, porém, pelo trabalho material e intelectual. Sua filosofia está condensada em sentença que ficou famosa: “Ora et labora” (Reza e trabalha).

Um monge que vive em comunidade deveria dosar, obviamente, solidão e convivência. A razão do sucesso da ordem religiosa fundada por São Bento estava justamente na integração de valores aparentemente discordantes, como o isolamento e a comunidade, o trabalho e a oração, vida prática e vida contemplativa, razão e ação.

São Bento viveu à época da queda do Império Romano, quando o mundo civilizado corria o sério risco de desaparecer e viver sob a mais completa barbárie. De fato, algo mais ou menos parecido ocorreu na História: os povos bárbaros, entre os séculos VI e VIII, passavam sobre o Ocidente como uma máquina de rolo compressor, destruindo o grande patrimônio cultural que gregos e latinos tinham legado à humanidade: o pensamento lógico e a ordenação jurídica da sociedade.

Outros, porém, eram os planos de Deus. As forças das trevas não venceriam. De fato, não venceram: a fé cristã ergueu das ruínas romanas uma nova civilização, juntando à filosofia grega e ao direito romano a sua nova mensagem, cuja base era a crença na vida eterna e a idéia do ser humano como pessoa inviolável.

Os monges provinham de todas as classes sociais: eram nobres e plebeus, operários e camponeses, cultos e analfabetos. Um grande respeito pelo estudo e pela pesquisa foi o traço distintivo da ordem beneditina, que transformou os monastérios medievais em verdadeiras ilhas de cultura, espalhadas por toda a Europa — trincheiras de uma guerra santa, em que as principais armas eram a oração, o trabalho e o estudo. A cópia perseverante de manuscritos antigos ligava o passado ao presente, impedindo que desaparecessem as lições do passado. A necessidade de sobrevivência obrigava os monges a preparar a terra e plantar, a maioria das vezes em terrenos inóspitos, levando-os a descobrir novas técnicas agrícolas. Foram pioneiros da pesquisa científica, e as escolas monásticas se transformaram em embriões das futuras universidades, fundadas pela Igreja a partir do século XII (e que, mal fundadas, já começariam a trair a sua natureza).

Mas nada disso teria ocorrido sem a força da oração, sem o contraponto da vida contemplativa, combustível espiritual que abasteceria essa grande máquina de fabricar cultura que foi a Ordem Beneditina. São Bento não tinha em mente fundar uma nova civilização, mas somente conservar os valores básicos do cristianismo, mas, ao fazer isto, criou a maior civilização da história humana: a ocidental. Jesus Cristo, através da Igreja Católica, será sempre a principal fonte das coisas boas, das coisas belas e das coisas verdadeiras.