A MISSÃO DO INTELECTUAL CATÓLICO HOJE – Padre Alfredo Sáenz, SJ

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Tratemos de expor agora o trabalho que, em nossa opinião, deve desenvolver, sob as circunstâncias atuais, aquele que queira “iluminar” o mundo (que é a missão do intelectual católico). Porque a sua é uma função “iluminatória”. Parece próprio da inteligência iluminar onde imperam as trevas. Se esta função sempre foi necessária, hoje o é mais do que nunca, porque a escuridão anda mais espessa. No fundo, não é nada além de uma participação na tarefa iluminadora d’Aquele que disse: “Eu sou a luz”, “Eu vim para trazer a luz do mundo”. A luz sobrenatural, mas também, de certo modo, a  natural. Onde há luz, em última instância há Cristo, Luz do mundo. Quais são as áreas que o intelectual católico deve iluminar com a sua presença e, acima de tudo, com a sua sabedoria?

Filosofia. Primeiro de tudo, o campo da filosofia. No terreno da filosofia, o processo de decadência a que nos referimos acima, tornou-se mais evidente do que em qualquer outro terreno. O intelectual católico deve conhecer o melhor possível as várias correntes filosóficas que, a partir de Descartes, culminaram no marxismo e na Nova Ordem Mundial Globalista.  Mas deverá conhecer, muito melhor ainda, a filosofia perene, que encontra uma magnífica realização no pensamento de Santo Tomás de Aquino.  Este será o seu ponto de referência, que lhe permitirá pronunciar um juízo sobre toda filosofia que se afaste do reto caminho em direção ao ser.

Nada poderia estar mais longe da ecletismo que esta posição. Sabemos bem que, na universidade, o jovem se instrui no conhecimento das diversas correntes filosóficas, não lhes atribuindo outro valor, além de sua mera manifestação cronológica. O filósofo cristão não pode ser um mero espectador do devir filosófico, um coqueteador das filosofias em voga. Deve, antes, ser um enamorado do ser, do ser natural e o Ser sobrenatural. Seu ofício não consistirá em “conhecer” diversas filosofias, mas “julgá-las” a partir do ponto de vista inabalável da verdade, que, além de conhecida, deverá também ser saboreada. Seu ofício não consistirá, tampouco, em uma repetição mecânica da ortodoxia escolástica, mas, aproveitando a validade perene de seus princípios, saberá iluminar a realidade do homem atual e responder aos seus problemas prementes. É mais importante saber responder às objeções de Marcuse ou Gramsci do que às de Durando ou Pedro Abelardo.

Direito. Outro ramo da cultura é o mundo do Direito. As épocas de plenitude cultural souberam distinguir o direito divino, o direito natural e direito positivo. Depois de recusar o direito divino, os homens tentaram estabelecer a justiça com base no direito natural e positivo. Numa etapa posterior, só restou o direito positivo, pois já se já afirmava, com franqueza, a inexitência de todo direito ancorado na natureza humana.

Hoje, assistimos a negação do próprio direito positivo. Só resta o direito do mais forte. O papel do jurista católico é, portanto, enorme, devendo refazer o caminho anterior à destruição. Será necessário recriar todo o direito positivo, ancorando-o no direito natural, e este, sempre compreendido como participação do direito divino no homem. Só então a sociedade voltará a encontrar a jurisprudência que merece.

Ciência. O intelectual católico também deverá iluminar o campo da ciência. Campo especialmente privilegiado pelos inimigos de Cristo e da Igreja. Não é em vão que numerosos expoentes do processo destrutivo proclamam um “materialismo científico”. Será necessário reposicionar este campo do conhecimento em seu devido lugar, em depedência Daquele que é o início e o fim de toda lei física, de qualquer propriedade química. Einstein chegou a afirmar que “a ciência sem religião é manca e religião sem a ciência é cega… Eu não estou interessado neste ou outro fenômeno, nem no espectro de um elemento químico. Eu quero conhecer o pensamento de Deus; o resto é detalhe.”

Se o universo canta a glória de seu Criador, se este mundo, com suas leis admiráveis, ​​é, nas palavras de Santo Agostinho, “o grande poema do inefável modulador”, caberá ao cientista católico fazer com que a ciência cante sempre um cântico novo. As descobertas científicas já não serão pretensos argumentos contra a fé, mas um trampolim para Deus, em continuidade com a visão que nos dá a Sagrada Escritura, despertando em nós a admiração pela ordem, a beleza e a sabedoria que resplandecem na criação.

Política. Outra área que deve ser iluminada pelo intelectual católico é a política. Este âmbito da atividade humana – e quão humana! — está obviamente ferido. A expressão, em si, já se tornou sinônimo de interesse proprio, roubo, imoralidade. Em sua natureza, porém, a política possui tal nobreza, que corresponde a uma das mais elevadas atividades humanas, oferecendo a oportunidade de praticar o que Pío XI chamava de “caridade política”; atreveríamos a dizer que, se bem compreendida, é uma das formas mais altas de caridade que o cristão pode exercitar, na ordem temporal. Caridade política, pois o governante católico, ao propiciar aos cidadãos o bem-estar temporal, coloca, de alguma forma, as bases naturais de seu destino transcendente e, assim, o cidadão, sem se deixar envolver pelos bens da terra, não perde de vista o seu fim escatológico.

É claro que o homem pode ser salvo mesmo vivendo sob um regime de terror, sob o regime do Anticristo. Mas, então, a salvação será extremamente difícil, altamente heróica. Ao contrário, quando um governo se dedica à busca do bem comum, não só cuida diretamente da felicidade terrena de seus súditos, mas de alguma forma facilita, mesmo que indiretamente, a sua salvação eterna. Iluminar, pois, este campo tão tenebroso, explicar o que se tem chamado de “concepção católica da política”, é outro dos objetos de especulação do intelectual católico.

Educação. Um âmbito privilegiado para a atuação do católico militante é certamente o da educação. O fato de que os inimigos de Cristo, da Igreja e da Pátria dediquem tantos esforços nesta tarefa, mostra-nos, pela astúcia que tão bem caracteriza os perversos, a importância do mesmo. Urge uma investigação teórica sobre o que é a educação, os seus fins, os seus meios, o que deve ser uma escola, uma Universidade. Graças a Deus, nas últimas décadas foram escritos notáveis ​​obras sobre o assunto, obras que honram o nível alcançado pela cultura católica Argentina. No entanto, é um trabalho nunca concluído. O Santo Padre [Bento XVI], e, na América Hispânica, o documento de Puebla, exortam uma e outra vez para o que denominam “a evangelização da cultura”. Mais importante, talvez, do que a tomada do poder — que os que se dedicam à política devem ter como propósito substancial — é a tomada da cultura. Entendemos esta palavra em um sentido amplo, incluindo os meios de comunicação que, gostemos ou não, estão condicionando o modo de pensar dos argentinos. Acreditamos que, neste campo, como talvez nenhum outro lugar, são necessários espírito e imaginação criadores. É preciso construir boas escolas, boas universidades, boas revistas de cultura, grupos de estudo com sólida formação intelectual.

Artes. É necessário cuidar, também, das artes. Sob este nome, incluimos tudo o que normalmente entendemos por “belas artes” (música, literatura, pintura, arquitetura, escultura), ou seja, aqueles manifestações humanas que afirmam sua relação com o que, às vezes, se denomina “estética” . Eis aqui outro campo cobiçado pelo inimigo. As artes, que em si não devem ser mais do que o esplendor da verdade, estão tragicamente feridas e degeneradas. Assistimos ao espetáculo de uma pintura que encerra o homem em sua subjetividade, onirizando-o e destruindo-o. Estamos diante de uma literatura que não só atenta contra a beleza da língua, como também contra a verdade ética e, a fortiori, metafísica. Chegam também aos nossos ouvidos, cotidianamente, uma música sem alma. Não devemos esquecer que a música faz o homem. Os vários tipos de música fazem diferentes tipos de homens: o homem sensual, o homem materialista, homem superficial, o homem erótico, o homem virtuoso. Hoje, mais do que nunca, quando a música parece adorar a feiúra, o barulho ensurdecedor que torna praticamente impossível qualquer tentativa de vida interior, impõe-se o surgimento de músicos católicos não só capazes de transmitir o sentido das harmonias sensíveis, como também o sentido das verdades profundas, especialmente aquelas que estão relacionadas com o mistério, e isto não só no âmbito da música profana, mas também no ferido mundo da música sacra. Temos necessidade de músicos, pintores, escultores marcados pelo selo católico, que é feito de fidelidade ao ser e à Graça. Por eles, a arte conseguirá irradiar, através do sensível, o esplendor da verdade.

História. Finalmente, sem a pretensão de esgotar todas as linhas em que o intelectual católico deve aplicar seus talentos, não podemos deixar de nos referir à pesquisa histórica. Nele nos deteremos um pouco mais do que em outros campos, porque o consideramos particularmente importante.

Somente a memória fiel do passado torna possível uma análise aceitável do presente e uma séria perspectiva do futuro. Assim, se em algo deve exercitar-se a tarefa iluminante do intelectual católico, é no campo da interpretação da história.

Quantas vezes encontramos pessoas que, ao considerar os problemas do nosso tempo, o fazem como se se tratasse de  problemas de recente data, de problemas que acabam de aparecer, e cujas soluções lhes parecem estar, consequentemente, ao  alcance das mãos. E, dessa maneira, se equivocam nos remédios. Se queremos que nosso tempo seja inteligível, é absolutamente necessário que o localizemos sob a tela de fundo da história universal, sob esse leque amplíssimo que vai do Gênesis ao Apocalipse. Os problemas de nosso tempo não são recém nascidos, mas têm atrás de si um longo período de gestação, às vezes de séculos. Neste sentido, muito útil será ao militante católico a leitura das análises históricas de Berdiaeff, Gonzaga de Reynold, Belloc, Solzhenitsyn, e, entre nós, de Diaz Araujo e Alberto Caturelli. Ali, vamos encontrar a explicação desse grande processo de apostasia, iniciado desde o final da Idade Média, num processo que começou com a negação da Igreja pelo protestantismo, prosseguiu com a negação de Cristo pelo deísmo racionalista, culminando na rejeição do próprio Deus pelo marxismo ateu. Os problemas de hoe não surgiram, pois, aqui e agora, mas são os estertores de um longo processo histórico.

Decorre, daí, a necessidade do intelectual católico ter bem estruturada, em sua mente, o que se tem chamado de “filosofia da história”, embora melhor seria denominá-la “teologia da história”. Para esta visão global nada melhor que a meditação da imortal obra de S. Agostinho De Civitate Dei, onde o Santo Doutor compreende o devir histórico à luz do conflito teológico entre duas cidades, a Cidade de Deus e a Cidade de Satanás, a radicada no amor de Deus até o desprezo de si mesmo, e a fundada no amor de si até o desprezo de Deus.

Nesta obra, o Doutor de Hipona oferece-nos as chaves da história universal. Trata-se, contudo, de uma obra inacabada, considerando-se as inevitáveis limitações do grande mestre que, naturalmente, só podia analisar o curso da história até o século em que viveu. Cabe a nós, agora, continuar a sua tarefa, sempre de acordo com as claves que ele nos deu, mas aplicando-as aos novos acontecimentos que se vão sucedendo.

Conclusão. Percorremos diversas áreas, pelas quais deve irradiar-se o trabalho esclarecedor dos que aspiram ser líderes católicos, no campo da inteligência.

A amplitude da tarefa pode suscitar grande temor. Já alertamos que o mundo da cultura vai para o outro lado, que a verdade não é aceita pela multidão. E o sistema da maioria simples — metade mais um —, saindo do terreno onde se cristalizou, que é o da política eleitoral, ameaça invadir também o campo dos defensores da verdade. Hoje, está se espalhando, perigosamente, uma espécie de ceticismo doutrinal. Fala-se da “minha verdade”, da “sua verdade”, todo mundo tem “sua verdade”. Condena-se ao ostracismo o que pretende afirmar não “sua” verdade, mas “a” verdade. Não temamos, porém, a solidão: a verdade nunca está sozinha. A verdade está com o ser, e, portanto, com a verdadeira universalidade. Cristo tinha razão, mesmo quando a “metade mais um” preferiu Barrabás. Nada é mais pernicioso a um intelectual católico do que o desejo de estar bem com o mundo, diluindo consideravelmente a verdade, fragmentando-a, mesmo que o faça com a intenção de que seja aceita.

“Não sejais semelhantes ao mundo”, ensinava João Paulo II, “não procureis ser semelhantes ao mundo. O que deveis fazer é tornar o mundo semelhante à Palavra Eterna” (Discurso à Pia Sociedade de São Paulo, em 31/03/1980). Em última análise, em longo prazo, nada  atrai tanto quanto a integralidade da verdade, a verdade sem rodeios.

Além do mais, o intelectual católico deverá estar disposto a suportar grandes adversidades. Santo Agostinho, esse cunhador de frases imortais, disse-o incisivamente: “A verdade engendra o ódio.” É verdade que Cristo, por sua façanha redentora, foi amado como ninguém o foi na história. Mas, ao mesmo tempo, ao concentrar em si, encarnando-a, a plenitude da verdade — “Eu sou a verdade” —, também atraiu para junto de si o ódio do mundo, do espírito do mundo, que não só o levou à cruz, mas ainda o continua perseguindo até o fim dos séculos. Não só a ele, como também a todos que querem afirmar, em alta voz, a verdade. O mundo persegue-O neles. O mundo persegue aos que defendem a verdade, porque são diferentes, e sua própria presença já é uma espécie de censura implícita ao mundo.

Citemos, a propósito, alguns ensinamentos esclarecedores de João Paulo II: “Aprendei a pensar, falar e agir de acordo com os princípios da clareza evangélica: sim, sim; não, não. Aprendei a chamar de branco o que é branco e preto o que é preto; chamar de mal o que é mal, e bem o que é bem. Aprendei a chamar de pecado o que é pecado, e não o chameis de libertação ou progresso, mesmo quando toda a moda e propaganda forem contrárias a vós” (Discurso aos alunos universitários de Roma, em 26/03/1981).

Talvez a grande missão do intelectual católico, em nosso tempo, seja a de manter íntegro, em meio a um ambiente caótico e subversivo, o legado da tradição, a ação de conduzir a tocha da cultura à geração seguinte. Não foi de outra maneira que agiram os católicos mais clarividentes quando, nos séculos obscuros da Idade Média, ocorreu a invasão dos bárbaros. Hoje, novas ondas de barbárie já se lançam sobre os restos da civilização cristã.  Como outrora nos monastérios, mantenhamos viva a chama da cultura, mesmo que seja em pequenos cenáculos ou grupos de formação, para que ela possa ser conhecida por nossos filhos, os quais, por sua vez, a retransmitirão.

Em uma palavra, trata-se de refazer a Cristandade, não retornando, como é óbvio, aos aspectos anedóticos da Idade Média, mas aos princípios que a gestaram. Trata-se de fazer Cristo reinar na universalidade da ordem temporal. Todos os filões da cultura devem expressar ou refletir o Cristo, a Realeza de Cristo. Que a filosofia seja o reflexo de Cristo, enquanto sabedoria encarnada; que as ciências reflitam Cristo, enquanto perfeita exatidão; que a história reflita Cristo, Senhor dos espaços e dos tempos; que a política reflita Cristo, Soberano das sociedades e Rei das nações; que a educação reflita Cristo, o pedagogo supremo; que as artes reflitam Cristo, a beleza encarnada. Filosofia, ciência, história, política, educação, artes — são tantas as maneiras de irradiar-se o Cristo verdade, Cristo exatidão, Cristo Senhor da história, Cristo soberano, Cristo Mestre, Cristo, enfim, como o mais belo dos filhos dos homens .

“Aperite portas Redemptori!” (“Abri as portas ao Redentor!”), exclamava João Paulo II. Contribuamos para que não fique uma única porta fechada, pelo menos neste mundo da cultura em que nos cabe agir. Para que um dia se torne real aquela frase, segundo a qual Cristo se tornaria Tudo em todos.

(Trecho da palestra proferida pelo padre jesuíta argentino Alfredo Sáenz, ao receber o Doutorado Honoris Causa pela Universidade Católica de La Plata (UCALP), em 22 de Outubro de 2012, em reconhecimento por sua contribuição à cultura católica. Padre Saenz escreveu muito sobre problemas de história da Igreja, filosofia da história e atualmente sobre a Nova Ordem Mundial).

ORALIDADE E MEMORIZAÇÃO NA REDAÇÃO DA BÍBLIA – Daniel-Rops

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Nenhuma discussão das línguas faladas na Palestina, nos dias de Cristo, pode deixar de destacar quanto o hebreu e o aramaico diferiam das línguas ocidentais em sua natureza, ou como eram diversos os usos a que se prestavam.

Quando se tratava de transmitir dados reais, ou mesmo ideias, os israelitas naturalmente falavam como nós. O mesmo acontecia quando expressavam sentimentos, ou se desejavam advertir, persuadir ou ameaçar. Mas a língua pode ter tido muitos outros propósitos: por exemplo, existe aquela função poética para a qual nossa civilização materialista não tem praticamente aplicação, mas que teve grande importância em
Israel e em todas as outras nações do Oriente, particularmente os semitas; e também aquela transmissão de geração em geração — um papel ligado inseparavelmente à poesia, como vamos ver.

Para compreender, perfeitamente, este aspecto muito especial das palavras em Israel, devemos esquecer nossa civilização do papel e seus hábitos (e podemos, agora, acrescentar civilização do toca-discos e do toca-fitas): para nós, escrever e ler, isto é, colocar os pensamentos de uma forma duradoura e material a fim de que permaneçam inalterados, são atos que nos parecem tão naturais, que dificilmente poderemos imaginar sociedades que pudessem abster-se quase que totalmente deles. Nossa memória tornou-se anêmica e impotente; nossa capacidade de improvisação é muito mais didática que poética. Este não era absolutamente o caso em Israel, nem nas outras nações orientais. As ideias eram transmitidas da maneira mais duradoura e permanente, na sua maior parte através da palavra falada; e isto, naturalmente, afetava necessariamente a palavra falada, dando-lhe características muito particulares.

Muito antes de ter sido registrado por escrito, a princípio de forma parcial sob Ezequias e Josias e, a seguir, de maneira mais completa no quinto século, quando é dito que o escriba Esdras ditou noventa e quatro dos livros sagrados, o Velho Testamento só existia na forma falada. Declara-se, formalmente, que as profecias de Jeremias foram “ditas” durante vinte e dois anos, antes de serem escritas; e está claro que os Salmos, Provérbios e os cânticos nupciais dos Cantares de Salomão surgiram primeiro como falas e canções, e só passaram à forma escrita mais tarde. Foi este, também, o caso dos poemas de Homero; Pisístrato ficou famoso, em Atenas, por ter dado ao texto sua forma final, por escrito, e o livro sagrado dos persas, o Zend Avesta, foi registrado da mesma forma por Zaratustra. O Corão também existia, a princípio, só na forma oral; e, na verdade, o seu próprio nome dá a ideia de recitação.

Mesmo depois do texto sagrado ter sido registrado por escrito, o hábito da transmissão oral dos pensamentos não foi abandonado. São muitas as provas disto: os rabinos ensinavam oralmente, e seus pareceres foram transmitidos da mesma forma; o tratado Gittin chegou a di-
zer que escrevê-los seria uma transgressão da Lei. No ano mil da nossa era, Sheria Gaon afirmou que “os eruditos consideram seu dever recitar de memória”. Além disso, o termo Talmude significa “aprendido de cor”. Sabemos também que, entre os primeiros cristãos, era co-
mum transmitir as “boas novas”, isto é, o relato da vida do Senhor e seus ensinamentos, unicamente de forma oral. Os “Atos dos Apóstolos”, as “Epístolas” e o “Apocalipse” foram com toda certeza escritos desde o inicio, mas é também igualmente certo que os quatro Evangelhos foram falados antes de se transformarem em livros. Os homens que empreenderam a difusão do novo ensinamento fizeram sem dúvida uso de dispositivos mnemónicos para ajudá-los, os quais podem ser traçados nos evangelhos; mas o mais importante é que tudo, para eles, era o que haviam aprendido, o que sabiam. Tornou-se necessário colocar as coisas por escrito somente quando o
cristianismo alcançou aqueles círculos greco-romanos em que a leitura e a escrita constituíam prática comum; mas mesmo cerca do ano 130, quando os livros dos quatro evangelistas já circulavam há muito, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, afirmou que preferia acima de tudo,
em matéria de tradição, a “palavra viva eterna”. E, pouco mais tarde, Irineu, em Lions, falou de certa ocasião em que ouvira Policarpo, o grande bispo de Esmirna, relatando o que ouvira diretamente do apóstolo João.

A memória desempenhava um papel importante em tudo isso, e os rabinos davam grande consideração ao exercício da mesma. O rabino Oostai, filho de Jani, falando em nome do rabino Meir, declarou: “O homem que se esquece de algo que aprendeu, provoca a sua própria ruína”. E o maior elogio a um discípulo era dizer que se assemelhava a “uma cisterna bem cimentada, que não perde sequer uma gota de água”. Existe também um ditado comum: “O homem que não recita é ímpio” A fim de treinar a memória, os alunos eram obrigados a de-
corar passagens enormes, que precisavam repetir sem qualquer omissão, sem acréscimo ou modificação de uma só palavra. Quem visita uma escola maometana, hoje em dia, pode observar que o método continua sendo usado no Islam: um grupo de meninos, sentados no chão, re-
petem juntos, em voz alta e ritmada, verso após verso do Corão. O mesmo acontece nas escolas talmúdicas. Deve ser enfatizado que este método de treinamento sistemático da memória não se destinava apenas aos especialistas, teólogos ou historiadores profissionais: como vi-
mos, as crianças já aprendiam a memorizar desde a mais tenra idade. E, quando alguém pensa no extraordinário comprimento da oração do Shemoneh Esreh, as dezoito bênçãos, é preciso admitir que a memória do judeu era na verdade muito bem treinada.

Este uso deliberado da memorização deu à língua, e às suas formas de expressão, algumas características altamente individuais. Em primeiro lugar, desde que todos os textos aprendidos de cor foram extraídos das Escrituras, a mente dos alunos ficava repleta de fatos, sentenças e
personagens bíblicos, o que explica os inúmeros ecos bíblicos ouvidos da boca dos homens e mulheres judeus da época — nas palavras dos próprios Maria e José. Acima de tudo, porém, os eruditos de Israel, desejosos de ajudar a memória a gravar, o mais profundamente possível, os
ensinamentos que ela deveria reter e transmitir, haviam inventado todo um sistema de ritmos, melodias, aliterações, repetições de palavras e antíteses, que tornava mais fácil a memorização dos elementos verbais. Este sistema era tanto mais importante, porque o aprendiz não tinha um caderno de apontamentos no bolso, nem um dicionário sobre a mesa.

Estudos recentes provaram a importância fisiológica e psicológica deste “estudo rítmico”. A maior parte do Velho Testamento provavelmente foi composta nessa base, em ritmos duplos ou triplos. Quanto ao
Evangelho, basta lê-lo com cuidado para sentir a batida rítmica e o jogo dos contrastes; a técnica característica continua perfeitamente visível, embora o livro tenha sido traduzido para o grego e, desta língua, para o português, isto é, duas línguas cujos ritmos e construções são radi-
calmente diferentes das semitas. O “Sermão da Montanha” é um exemplo típico, especialmente na versão de Lucas, com as bem-aventuranças e as maldições que se seguem. Também nas parábolas, e até mesmo nos ditos mais comuns, sentimos o que o Padre Jousse chamou de “re-
citativos paralelos”, que, ou em hebraico ou em aramaico, devem ter sido surpreendentemente claros para todos.

Quando um judeu tinha, portanto, de falar com extrema formalidade, como, por exemplo, ao ensinar ou orar, esta teria sido a base do seu estilo, sendo altamente provável que uma parcela do mesmo fosse incluída na linguagem diária. Uma jovem mulher do povo, como Maria, por exemplo, ao proferir espontaneamente seu agradecimento, o “Magnificat”, deu-lhe com naturalidade uma cadência poética que continua evidente na sua versão portuguesa: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus…”

Em nossa concepção moderna, baseada na palavra escrita, as palavras têm um lugar, as melodias outro e os ritmos um terceiro; na concepção israelita da linguagem, os três se interpenetravam; desempenhavam, juntos, o seu papel, e a expressão do pensamento tendia, naturalmente, a tornar-se uma forma de arte.

(Capítulo da obra A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo, Edições Vida Nova, 1986. Daniel-Rops é autor da célebre História da Igreja, em 10 volumes, editada no Brasil pela editora Quadrante, da Opus Dei. Nasceu na França, em Épinal, em 1901, e faleceu em Chambéry, em 1965. Foi professor de História e diretor da revista Ecclesiae (Paris). Tornou-se mundialmente famoso sobretudo pelas obras de historiografia: a coleção História Sagrada, que abrange os volumes O povo bíblico (1943), Jesus no seu tempo (1945). Também escreveu diversos ensaios e romances históricos, como Morte, onde está a tua vitória? (1934) e A espada de fogo (1938). Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.)

Paulo escreve a Timóteo para nos ensinar a viver

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Na segunda carta de Paulo a Timóteo encontramos um ensinamento de grande valor para todos aqueles que querem viver, hoje, uma vida digna e santa em um mundo em decadência. No capítulo 2 (A Igreja como Casa Grande) e 3 (Últimos Dias), Paulo nos aconselha medidas práticas de como viver e como enfrentar os tempos difíceis que atravessamos. A conclusão do apóstolo é grandiosa e dá sentido a nossa vida: Por inspiração divina recebemos as escrituras que são úteis para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeiro, capacitado para toda obra.

Seguem os versículos:

2:22.Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração. 23. Rejeita as discussões tolas e absurdas, visto que geram contendas. 24. Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. 25. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da verdade, 26. e voltem a si, uma vez livres dos laços do demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos.”

3:1 Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. 2. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, 3. desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, 4. traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, 5. ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! 6. Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, 7. sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da verdade. 8. Como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes homens de coração pervertido, reprovados na fé, tentam resistir à verdade. 9. Mas não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez, como o foi a daqueles dois. 10. Tu, pelo contrário, te aplicaste a seguir-me de perto na minha doutrina, no meu modo de vida, nos meus planos, na minha fé, na minha paciência, na minha caridade, na minha constância, 11. nas minhas perseguições, nas provações que me sobrevieram em Antioquia, em Icônio, em Listra. Que perseguições tive que sofrer! E de todas me livrou o Senhor. 12. Pois todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição. 13. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, sedutores e seduzidos. 14. Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste. 15. E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. 16. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. 17. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra.”

 

 

OS INIMIGOS DA FAMÍLIA – Padre Paulo Ricardo

Assim como, há dois mil anos, Herodes e Pilatos se uniram para crucificar Cristo, hoje, dois inimigos tidos como ferrenhos – a saber, os marxistas e certas organizações metacapitalistas – têm se unido com um propósito comum: a destruição da família. Grandes fundações – como Rockefeller, MacArthur, Ford e Bill & Melinda Gates – têm financiado pesadamente ONGs com ideologia de esquerda, unindo dois universos até então inconciliáveis.

Para compreender como se cruzam esses dois mundos aparentemente tão hostis, é importante a figura-chave do sociólogo americano Kingsley Davis. Em um renomado estudo sobre a sociedade humana [1], ele explica que ela é regulada por usos, costumes e leis: os usos solidificados tornam-se costumes; estes, por sua vez, consolidados, viram leis; e todo esse mecanismo cria um sistema de recompensas e punições, que se condensa em instituições. Para mudar a sociedade, diz Davis, é preciso desmontar essas instituições.

Davis também esteve à frente de estudos sobre o controle populacional e, junto com outros professores, aperfeiçoou a “teoria da transição demográfica”. Essa teoria, proposta por Warren Thompson em 1915, em sua obra Population: A Study in Malthusianism [“População: Um Estudo sobre o Malthusianismo”], dizia que o êxodo do campo para a cidade contribuía para a diminuição da população. Davis também vislumbrava o controle de natalidade como uma ferramenta para manter a paz no planeta, já que, com a agricultura se desenvolvendo nos países desenvolvidos e o superpovoamento dos países subdesenvolvidos, no futuro uma guerra por alimentos seria inevitável.

Todas essas ideias engendraram, em 1952, o Conselho Populacional, fundado por John Rockefeller III, juntamente com vários especialistas em demografia. Já de início, começou a investir-se na promoção de centros mundiais de estudos demográficos, além da implantação do DIU (dispositivo intrauterino) e de outros métodos contraceptivos ao redor do mundo, mormente em países periféricos, como Coréia, Hong Kong, Taiwan, Índia e Paquistão.

Só que o desenvolvimento de anticoncepcionais não era a forma ideal de reduzir a população mundial. Quem o percebeu foi justamente Kingsley Davis, que, em um almoço com o então presidente do Conselho Populacional, Frank Notestein, no dia 17 de maio de 1963, manifestou sua insatisfação com a forma como eles estavam lidando com o controle demográfico. O descontentamento de Davis deu origem, em 1967, a um estudo que mudaria os rumos da história da demografia. No artigo, de título Population Policy: Will Current Programs Succeed? [“Política Populacional: os Programas Atuais Terão Sucesso?”], publicado na revista Science, Davis mostra, à luz de seu pensamento sociológico, que não é possível reduzir a população simplesmente implantando DIUs nas mulheres. Para controlar efetivamente a demografia, é preciso mudar a sociedade e modificar os seus usos, costumes e leis. Mais do que distribuir meios de contracepção para as mulheres, é preciso alterar o tecido social e a família, a fim de que elas não queiram mais ter filhos.

À época, as ideias de Davis não foram bem aceitas. No entanto, ele continuou ensinando tudo isso aos seus alunos. Alguns anos mais tarde, o seu magistério deu frutos em uma aluna chamada Adrienne Germain. Essa mulher, presidente emérita da International Women’s Health Coalition [“Coalizão Internacional pela Saúde das Mulheres”], em uma entrevista concedida à Universidade de Harvard, em 2012, contou como um período de experiência com as mulheres do Peru, em sua juventude, marcou profundamente a sua carreira profissional. Ela percebeu, a partir de seu contato com Davis e Judith Blake, que aquelas mulheres “tinham razões muito boas para ter muitos filhos. E até que – ou a menos que – as suas vidas fossem mudadas, elas provavelmente continuariam tendo filhos” [2].

Contratada pela fundação Ford, Germain conseguiu convencer John Rockefeller III daquilo que Davis, com seu trabalho, não tinha conseguido. Agora, para controlar o crescimento populacional, as grandes fundações começariam a agir a partir da perspectiva feminina, procurando tirar das mulheres a motivação que tinham para a maternidade. Para tanto, seria necessário um verdadeiro projeto de engenharia social, no qual não haveria nem lei natural nem verdade alguma a ser respeitada, mas tão somente a vontade iluminada da cúpula antinatalista.

É neste ponto que os anseios dos grupos metacapitalistas se cruzam com o projeto marxista de poder. No livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, em que Engels reúne as anotações da última fase da obra filosófica de Marx, é possível ler que “o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino” [3]. Para o marxismo, portanto, a família é o primeiro de todos os antagonismos e de todas as opressões de classes. Nessa mesma linha, procuraram construir uma antifilosofia para destruir a instituição da família tanto a Escola de Frankfurt – sobre a qual se falou amplamente na última aula ao vivo [4] – quanto várias pensadoras feministas, dentre as quais se destacam, progressivamente, Margaret Sanger, Kate Millett e Shulamith Firestone.

Então, sejam marxistas radicais, sejam filantropos capitalistas, ambos querem transformar a sociedade e, para tanto, eles se unem a fim de destruir a família. É dessa união maligna que nasce, por exemplo, a ideologia de gênero, para a qual prestou uma grande contribuição Judith Butler, autora do famoso livro Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity [“Problemas de Gênero: Feminismo e a Subversão da Identidade”], de 1990.

Todos esses agentes de destruição de que falamos investiram em uma coisa: conhecimento. Se queremos vencer a batalha contra eles e defender a família, precisamos também nós investir em conhecimento e formação intelectual. Estudando esses autores, entendemos que, se tantos têm atacado a família – com o “divórcio relâmpago”, com o sexo sem compromisso, com a abolição das festas dos pais nas escolas etc. –, não é porque a sociedade enlouqueceu espontaneamente, mas porque há arquitetos sociais muito bem preparados por trás de todas essas coisas.

Ao mesmo tempo, permanece o dever de estudarmos com compromisso o caminho da Igreja e a vontade de Deus para a família. Esta não é nem a fonte de todas as opressões, como queriam Marx e Engels, nem uma “massinha de modelar”, como queria o sociólogo Kingsley Davis. Trata-se de uma realidade natural, fundada pelo próprio Deus e constituída no íntimo da humanidade. Por isso, destruir a família é destruir o próprio ser humano.

Obras recomendadas

Referências bibliográficas

SOBRE A MÚSICA – Josef Pieper

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O fato de que quem filosofa – sobretudo quando se ocupa da dinâmica da formação e da realização do ser humano – dedique especial atenção a meditar sobre a essência da música, não é casual nem movido por “interesses musicais” pessoais. Essa atenção especial remete, antes, a uma grande tradição que remonta quase à origem dos tempos, a Platão, a Pitágoras e às doutrinas de sabedoria do Extremo Oriente.

E isto não se deve somente ao fato de a filosofia ter por objeto coisas “espantosas” (para as quais, como afirmam Aristóteles e Tomás de Aquino, deve especificamente voltar-se quem filosofa) – não é somente porque a música é “mirandum”, uma das coisas mais maravilhosas e misteriosas do mundo. Não é só, tampouco, pelo fato de que “musicar” é uma atividade da qual se poderia dizer que é um oculto filosofar – um Exercitium Metaphysices Occultum – da alma que, sem saber, filosofava, como diz Schopenhauer na sua profunda discussão para o estabelecimento de uma metafísica da música.

O que a música sempre traz – e este é o fato mais decisivo – ao campo de visão do filósofo é a sua proximidade da existência humana, uma característica específica que torna a música necessariamente objeto essencial para todos os que refletem sobre a realização humana.

A pergunta que especialmente fascina o filósofo que medita sobre a essência da música, é: o que propriamente percebemos quando ouvimos música? Pois, sem dúvida, trata-se de mais (e de outra coisa) que os sons resultantes do roçar as cordas do violino, soprar a flauta ou percutir o teclado – isto tudo ouvem também os mais insensíveis. O que é, então, o que propriamente percebemos, quando ouvimos música de forma adequada?

Para as outras artes essa mesma indagação propõe-se mais facilmente – ainda que a pergunta: “O que é que propriamente vemos quando contemplamos o Rasenstück de Dürer?” também não seja fácil de responder, pois certamente não é o céspede que se apresenta à vista, na natureza ou numa foto – não é este “objeto” que nós propriamente vemos, quando observamos um quadro de forma adequada. O que realmente percebemos quando ouvimos um poema, quando apreendemos a poesia de um poema? Certamente é mais (e é outra coisa) do que o que foi “objetivamente” proferido (isto tem sido identificado na poética como uma impureza, mas é uma “impureza” sem dúvida necessária).

Estas perguntas são, pois, igualmente difíceis de responder. Agora, porém, a pergunta: o que se capta quando se escuta música de “maneira musical”? Será que se trata de um objeto, como nas artes plásticas ou na poesia – onde sempre algo precisa ser representado, algo precisa ser dito (algo objetivo)? A questão não remte a um objeto neste sentido, mesmo quando até grandes músicos muitas vezes pensem que remeta. Não, não é uma “Cena junto ao riacho” ou uma “Tempestade” ou uma “Sociedade alegre dos camponeses” o que propriamente se capta quando se ouve a sexta sinfonia de Beethoven. E o que ocorre com a “Canção” (Gesang)? Não ficaria – pelo menos neste caso – por conta do texto proferido, o que propriamente percebemos quando uma ária ou um recitativo são cantados? Certamente, ouvimos as palavras. Mas percebemos – quando a música é autenticamente grande e quando a ouvimos de maneira certa – um sentido secretíssimo, acima das palavras, um sentido que não percebemos quando somente palavras ouvimos. Este “sentido oculto” não se encontra ao se ler, como algo falado.

O que é, então, que percebemos com a música ? A música «não fala de coisas, mas ascende “ao bem e ao mal” (Wohl und Wehe)» – como diz a sentença schopenhaueriana que condensa o que foi dito de diferentes formas através dos séculos. Não seria exato dizer que essa sentença expressa o que foi pensado pela grande tradição de pensamento, mas, sim, que ela abre uma via, que permite penetrar no núcleo desse pensamento. “Wohl und Wehe” é algo que se insere no âmbito da vontade, do querer, do bonum , do bem, entendido como sentido intrínseco da vontade: “querer” expressa aqui o bem.

Ao afirmar isto, precisamos estar atentos para equívocos de natureza moralista. O que queremos dizer é que o ser do homem é dinâmico; o homem não é simplesmente “existente”. O homem “é” de tal maneira, que ele é um vir-a-ser – não simplesmente um ente que fisicamente cresce, amadurece, que gradualmente tende para a morte; mas também como ser espiritual está permanentemente em movimento. Ele próprio “acontece”; está “a caminho”. E aquilo, em direção ao qual ele está a caminho (no qual ele “é”: e de maneira alguma pode deixar de ser: o homem – consciente ou inconscientemente; quer queira quer não – está intrinsecamente a caminho, “sem ainda” ter chegado). A meta deste ser-a-caminho (Unterwegssein), para onde este movimento o impele, é o bem. Mesmo quando o homem faz o mal, o faz buscando um bem.

Quanto a para onde se dirige este insaciável movimento interior, esta inquietação irreprimível que é a última força vital deste ser fático, pode-se também dizer (e a grande tradição da sabedoria ocidental o disse!) que onde este ímpeto quer chegar é à felicidade; sobretudo no seu querer consciente, mas mesmo no mais profundo núcleo da vontade, queremos a felicidade: a isso queremos nos elevar!

Ao falarmos da vontade, incluímos o próprio processo de desenvolvimento, no qual – nos passos infinitamente ajustáveis do ritmo interior, em mil desvios reais ou aparentes – nos aproximamos da meta, sem nunca a alcançarmos. Ambos, meta e caminho, não são exprimíveis em palavras. Agostinho dizia «’Bem’ – tu escutas esta palavra e respiras fundo, tu a ouves e suspiras». E ele afirma que o homem não pode exprimir em palavras o sentido mais profundo, a riqueza que se esconde na noção de ‘bem’, assim como sua completa realização: “Dizer, não se pode; calar, também não… Mas o que fazer, se não é possível falar e não dá para calar? Exultai! Jubilate! Levantai a voz sem palavras da vossa profunda felicidade!”. Esta “voz sem palavras” (ou uma de suas formas) é: a música! Contudo, ela não é só a voz da felicidade, mas também a voz sem palavras da infelicidade, da carência pela ausência, da frustração, da tristeza, do desespero (a meta não é alcançável sem mais, pois pode ser íngreme e também pode ser dada por perdida!)”. No desenrolar mais profundo da realização do ser, mesmo onde a linguagem não se expressa, encontra-se esse impulso natural (também do espírito!). “Daí se segue”, diz Kierkergaard “que a música se acha relacionada à fala, tanto precedendo, como sucedendo, manifestando-se como primeiro e como último”. A música produz um âmbito de silêncio; nela, a alma entra ‘nua’, por assim dizer, sem a “veste” da oralidade “que se enrasca em todos os espinhos” (Paul Claudel).

A essência da música, dizia, foi vista de muitas maneiras na tradição ocidental: como um discurso sem palavras do “bem e do mal”; como um manifestar-se sem palavras daquele processo da mais íntima auto-realização; como o devir da pessoa moral; como o querer em todas as suas formas; como o amor. Foi isto talvez que Platão quis dizer com a frase: a música “imita o movimento da alma”; e Aristóteles: a música é ordenada ao ético e semelhante a ele. Na sua esteira, acham-se as exposições de Kierkergaard, de Schopenhauer e de Nietsche – quando dizem que a música “expressa continuamente o imediato através do seu imediatismo”, ou: de todas as artes, somente a música representa propriamente a vontade (Schopenhauer); ou: na música, soa “a natureza transformada em amor” (Nietsche, interpretando Wagner).

Ocorre então – apesar de tudo, pode-se dizer – que o processo de realização existencial interior do homem (que na música – como, por assim dizer, em sua “matéria” -, atinge sua expressão), que ambos – música e processo – também têm em comum isto: decorrem no tempo.

Mas “a música” não é um fazer impessoal objetivo; ela é “feita” completamente por compositores individuais e isto significa também que se podem distinguir milhares de formas diferentes de tais realizações interiores como criações musicais e (já que o devir interior da pessoa moral não é uma realização natural inabalável, mas uma realização que se dá sob a ameaça de incontáveis riscos e perturbações) também milhares de formas de falsificação, de distorção, de confusão. Pode-se representar musicalmente: a presunção banal que se satisfaz com a fácil obtenção dos bens mais vulgares; a negação da orientação fundamental do homem; o desespero da possibilidade de que a realização interna do homem possua um fim em si, ou que ele possa ser atingido. Pode também, como no “Doutor Fausto” de Thomas Mann, dar-se a música dos niilistas, cujo princípio é a paródia e realiza-se com o “auxílio do diabo e do fogo infernal na caldeira”.

Precisamente este perigo ao se fazer música, estas possibilidades de degeneração já haviam sido observadas pelos antigos muito claramente, sobretudo por Platão e Aristóteles, que procuraram obstruí-las. Assim, a proximidade da existência humana como característica distintiva da música, não significa somente que os acontecimentos básicos da existência – tanto autênticos como inautênticos, justos ou injustos – estejam relacionados ao músico criador e sua obra: colocá-los em música. Não significa, tampouco, somente que exista música autêntica e grande, e inautêntica e banal e, como acontece do “outro lado”, do lado do ouvinte, uma relação, por assim dizer, neutra, de captar ou não captar, de aplaudir, de concordar ou não concordar.

Não, a tal proximidade da existência humana significa muito mais: significa que a música expressa imediatamente o imediato dos processos humanos existenciais e o ouvinte, neste nível profundo, no qual a auto-realização acontece, é atingido e convocado. Nesta profundidade, para muito além de qualquer enunciado formulável, vibra imediatamente a mesma corda que também é tangida na música ouvida.

Aqui, vem à tona como e quanto a música tem que ver com a formação ou também com a frustração da realização humana – ambas antes de qualquer esforço consciente de formação, ensino e educação. Torna-se evidente também, a necessidade de uma preocupação com estes processos muito imediatos de influência – como a tiveram Platão e Aristóteles, enquanto nós mal podemos entender como esses grandes gregos, nos seus escritos éticos, ou mesmo nos políticos, trataram de música.

A música é, diz Platão, não somente um “meio para formação do caráter”, mas também um meio para a “reta configuração das disposições da lei”. “Vê-se a questão”, assim diz no diálogo sobre o estado, “como uma mera questão de deleite, como se não pudesse causar dano algum”; o decisivo seria então o prazer do ouvinte; pouco importando se “moralmente presta para alguma coisa ou não”, isto é, tanto faz que uma pessoa seja interiormente dirigida de modo reto ou não. Esta opinião é chamada, com grande seriedade, de mentirosa no trabalho de velhice de Platão, As Leis. Não é possível transformar a música sem que as mais importantes leis da vida do estado sejam afetadas. Isto foi ensinado – diz Platão – já por um famoso teórico da música entre os gregos (Damon) e ele está convencido de que é verdade. Evidentemente, não queria referir-se ao lado “jurídico” da constituição do estado, mas ao lado, sem dúvida real, da constituição interna da coisa pública, tendo em vista a realização do bem. Assim, reflete muito séria e pormenorizadamente sobre que formas musicais e mesmo que instrumentos devam ser banidos da comunidade; a Idade Média também conheceu até a época de Bach instrumentos “indecorosos”. Os casos concreto não são aqui de maior importância; naturalmente há neles muito de específico da época. O que é decisivo, porém, é ver (e aplicar!) a conexão intrínseca que existe entre a música ouvida e tocada por um povo de um lado e, de outro, a existência interna deste povo – hoje não diferente do que no tempo de Platão!

Certamente nós pertencemos àqueles que, como diz Platão, enxergam todo o campo musical como uma “mera recreação” – enquanto, na verdade, a música efetivamente tocada e ouvida – junto com o ethos da existência humana interior – cai numa desestruturação calamitosa, quanto menos a pessoa se preocupa com sua realização autêntica. E os fatos constantemente encontrados mostram que nunca uma autêntica instância da possibilidade da ordenação da música omite o conteúdo de uma viva ordenação interior do homem.

Quem, então, dirige o olhar para a realidade empírica da vida comum e medita sobre como a mediocridade da alegria barata da música de “entretenimento” tornou-se um fenômeno geral e público, vê a correspondência fiel – no âmbito da existência interior – de sua banalidade de auto-enganar-se e apresentar o bem como já alcançado: “a gente vai tocando”, no fundo “está tudo em ordem”.

O mesmo se dá em quem considera o espaço que os ritmos de uma música primitiva de ruído, uma música “para escravos” (como diz Aristóteles) vai conquistando e exigindo – na medida em que ambas as formas (a música das “alegres melodias baratas” e a do ruído surdo) se legitimam como música de entretenimento, isto é um meio de preencher o vazio e a monotonia da existência. E mais: há aí um ciclo vicioso entre o vazio existencial e a banalização da música, um clamando pelo outro e ascendendo como acontecimentos públicos e gerais.

Nessa mesma linha, deve-se meditar também sobre a procura e o gozo de uma música possivelmente de nível incomparavelmente elevado como um meio de encantamento, de evasão da realidade, como uma espécie de pseudo-salvação, como um deslumbramento “de fora para dentro” (como disse Rilke) e que há música, mesmo grande música, que pode nos propiciar isto.

Quem finalmente reflete sobre o fato de que a paródia da criação, a música niilista do desespero de grandes virtuoses, não existe somente em romances como «Doutor Fausto», de maneira que foi possível dizer, com toda a seriedade, que a história da música ocidental seria a «história do desvirtuamento das almas»; quem, assustado, medita nisto tudo, tendo como base o fato de que na música, a existência interior se desvela em sua nudez e se mostra (e precisa mostrar-se) sem simulação; enquanto ela – a existência interior – recebe em troca, da mesma música, impulsos diretos, tanto construtivos como destrutivos; quem vê isto e pondera estes fatos, experimenta a sensação especial e nova de felicidade que dá a música de Johann Sebastian Bach (também ela, precisamente ela e ainda ela).

Certamente isto não acontece em nós assim sem mais, por si só: depende de nós percebermos o caráter desta música; experimentarmos este caráter na imediação de nossa alma, como resposta a cordas que vibram por sintonia – num energia nova, clara, fresca, da existência interior; na rejeição de meras realidades aparentes, na sóbria vigilância do olhar que, no gozo de harmonias arrebatadoras, não se afasta da realidade da vida atual . E no voltar-se perseverante, inabalável, esperançoso para o “Bem”, bem sereno, cheio de graça, ao qual a música de Bach glorifica com sua “voz sem palavras” e sua bem-aventurada alegria sonante.

 

(Joseph Pieper, alemão, é filosofo católico contemporâneo. Trad. de Sivar Hoepner Ferreira. O texto foi publicado no site http://www.hottopos.com)

AS GRANDES HERESIAS DE LUTERO – Padre José María Iraburu

A tese de que a decadência moral da Igreja, sob os papas do Renascimento, tinha chegado a um extremo intolerável, e que Lutero liderou os “protestantes” contra esta situação, exigindo uma “reforma”, é falsa e nenhum historiador moderno é capaz de sustentá-la.

A atualidade de Lutero.-  Em  31 de Outubro de 2016 comemorou-se mais um  aniversário das 95 teses pregadas em 1517 por Lutero na porta  da Igreja do Palácio de Wittenberg. São várias as publicações recentes sobre Lutero, em que ele é mostrado como um amante da Bíblia e divulgador da mesma junto ao povo, um reformador da Igreja romana corrompida em sua época, etc. Parece, portanto, oportuno fazer algumas verificações.

Ele não foi um reformador de costumes, mas de doutrinas.- A tese de que a decadência moral da Igreja, sob os papas do Renascimento, tinha chegado a um extremo intolerável, e que Lutero liderou os “protestantes” contra esta situação, exigindo uma “reforma”, é falsa e nenhum historiador moderno é capaz de sustentá-la. Entre outras razões, porque o próprio Lutero rejeita esta interpretação do seu trabalho, em numerosas declarações explícitas. “Eu não contesto os maus hábitos, mas as doutrinas ímpias”. E anos mais tarde ele insiste: “Eu não contestei as imoralidades e abusos, mas a substância e a doutrina do papado.” “Entre nós — confessava abertamente —, a vida é ruim, como também entre os papistas; mas não os acusamos de imoralidade, mas de erros doutrinais”. De fato, “a guerra de Lutero é contra a doutrina corrupta, contra os dogmas ímpios” (Melanchthon).

Reformador da doutrina católica.- Lutero efetivamente, lutou com todas as suas forças contra a doutrina da Igreja Católica. Para começar, destruiu a Bíblia, uma vez que, deixando-a à mercê do livre exame, trocou a infalível e única Palavra Divina por uma variedade incontável e contraditória de falíveis palavras humanas. Destruiu a sucessão apostólica, o sacerdócio ministerial, bispos e padres, a doutrina dos Padres e dos Concílios. Ele eliminou a Eucaristia como sacrifício de redenção. Destruiu a devoção e culto da Virgem Santíssima e dos santos, os votos e a vida religiosa, o papel benéfico da lei eclesiástica. Reduziu a um e meio os sete sacramentos. Afirmou que, com base na corrupção total do homem pelo pecado original, “a razão é a grandíssima  prostituta do diabo, uma prostituta devorada  pela sarna e a lepra etc.” (e continua assim por cinco linhas). Pela mesma razão, e com igual paixão, ele negou a liberdade do homem (em De servo arbítrio, obra de 1525), estimando que “o mais seguro e religioso” seria que o próprio termo “livre arbítrio” desaparecesse da linguagem. Como consequência lógica, também negou a necessidade das boas obras para a salvação. Destruiu praticamente todo o cristianismo.

 Pensamento esquizoide.-  A Igreja Católica não separa razão e fé, entendendo a teologia como “ratio fide illustrata” (a razão iluminada pela fé), conforme ensina o Concílio Vaticano I. Une a Bíblia à Tradição e ao Magistério apostólico (Concílio Vaticano II, Dei Verbum 10). Une a graça à ação livre da vontade humana. “Et, et” (e, e).

O pensamento de Lutero, no entanto, é esquizóide: “Vel, vel” (ou, ou). Considerando que “a razão é a grandíssima prostituta do diabo”, conclui: “Sola fides” (só a fé salva). Convencido de que a mente e consciência do cristão estão acima dos Padres, Papas e Concílios, afirma: “Sola Scriptura” (a suprema autoridade teológica é a Bíblia). Sustentando que o homem não é livre, e que as boas obras não são necessárias à salvação, declara: “Sola gratia” (basta a graça).

O maior insultador do Reino.- Lutero escreve que “toda a Igreja do papa é uma Igreja de putas e hermafroditas” e que o próprio Papa é “um louco furioso, um falsificador da história, um mentiroso, um blasfemo, um porco, um burro”, etc., e que todos os atos pontifícios estão “selados com a merda do diabo, e escritos com peidos do asno-papa”. Poder-se-iam encher muitas páginas com frases semelhantes ou piores. Os teólogos católicos da época de Lutero, que rejeitaram as suas teses, ganharam de sua parte qualificativos previsíveis. A Universidade de Paris era “a sinagoga condenada do diabo, a prostituta intelectual mais abominável que viveu sob o sol.” Os teólogos de Louvain são “rudes jumentos, malditos porcos, barrigas  blasfemas, epicuristas grosseiros, hereges e idólatras, caldo maldito do inferno.” Não é de estranhar que, pensando assim, rechaçasse Lutero a proposta feita por Carlos V, em Worms, para discutir suas doutrinas com os mais prestigiados teólogos católicos. Quem se interessaria em discutir com porcos endemoniados? Além disso, os insultos de Lutero tinham uma extensão universal: as mulheres alemãs, por exemplo, eram umas excomungadas sem vergonha; os camponeses e burgueses uns bêbados, entregues a todos os vícios. Dos estudantes, dizia que “só um ou dois se salvavam entre mil.”

O perfeito herege. “Eu, o Dr. Lutero, indigno evangelista de nosso Senhor Jesus Cristo, lhes asseguro que nem o Imperador romano […], nem o papa, nem os cardeais, nem os bispos, nem os santarrões, nem os príncipes, nem os cavalarianos poderão alguma coisa contra esses artigos, apesar do mundo inteiro e de todos os diabos […] Sou eu quem o afirmo, eu, o Dr. Martinho Lutero, falando em nome do Espírito Santo.” “Eu não admito que a minha doutrina possa ser julgada por ninguém, nem mesmo pelos anjos. Quem não ouvir a minha doutrina, não poderá ser salvo.”

Duro com os pobres, fraco com os poderosos.- Durante a revolta dos camponeses, que exigiam, primeiro por bem e, em seguida, por mal, o que consideravam como seus direitos, escreve Lutero uma invectiva duríssima contra suas “hordas assaltantes e homicidas” (1525). “É preciso abater o líder da revolta, estrangulando-o e matando-o privada ou publicamente, pois não há nada mais venenoso, nocivo e diabólico do que um promotor de revoltas, assim como você tem que matar um cão raivoso, porque se não acabas com ele, ele é que acabará contigo e com todo o país.” Ao contrário foi muito suave, com os poderosos príncipes alemães, a fim de conquistar o seu favor. Quando, por exemplo, Filipe de Hessen, grande Landgrave, casado com Catarina, com a qual tinha sete filhos, exigiu a aprovação de um casamento adicional com uma jovem da nobreza saxônica, obteve a licença de Lutero e Melanchthon, sob a condição de que a concessão se mantivesse em segredo.  Apoiou-se, para aprovar esse caso de poligamia, consumado em 1540, no precedente dos antigos patriarcas judeus.

Espantado com a própria obra.- Os resultados da predicação de Lutero foram devastadores na vida moral do povo, e ele mesmo reconhece: “Desde que a tirania do papa deixou de existir para nós, todos desprezam a doutrina pura e saudável. Nós já não temos aspectos de homens, mas de verdadeiros brutos, uma espécie bestial.” De seus seguidores, afirmava que “são sete vezes piores do que antes. Depois de predicar a nossa doutrina, os homens se entregaram ao roubo, à impostura, à devassidão, à embriaguez e a todos os tipos de vícios. Nós expulsamos um demônio [o papado] e vieram sete piores”. A Zwinglio, escreve espantado: “É assustador ver como, onde antes reinava  paz e tranquilidade, agora haja por todo lado seitas e facções: uma abominação que inspira lástima. Sou forçado a confessar: minha doutrina  produziu muitos escândalos. Sim; não posso negar; estas coisas frequentemente me apavoram.” E ainda previa maiores catástrofes. Um dia, confidenciou a seu amigo Melanchton: “Quantos mestres diferentes não surgirão no próximo século? A confusão chegará ao ponto máximo.” E assim foi. E assim tem sido, em progressão acelerada, até a grande apostasia atual das antigas nações católicas.

(Padre José María Iraburu Larreta nasceu em Pamplona, Espanha, em 28 de julio de 1935, em cuja diocese ainda atua. Possui vasta e respeitada obra teológica)

OS PRINCÍPIOS INEGOCIÁVEIS – Discurso do Papa Bento XVI aos participantes em congresso promovido pelo Partido Popular Europeu – 30 de Março de 2006

Ilustres Parlamentares! Senhoras e Senhores!

Sinto-me feliz em receber-vos por ocasião dos Dias de Estudo sobre a Europa organizados pelo vosso grupo parlamentar. Os Pontífices Romanos prestaram sempre uma especial atenção a este Continente. Por conseguinte, a audiência de hoje é oportuna e insere-se numa longa série de encontros entre os meus predecessores e os movimentos políticos de inspiração cristã. Agradeço ao Deputado Pöttering as palavras que me dirigiu em vosso nome e manifesto-lhe, assim como a todos vós, as minhas cordiais saudações.

Actualmente a Europa deve enfrentar questões complexas de grande importância, como o crescimento e o desenvolvimento da integração europeia, a definição cada vez mais completa da política de proximidade no seio da União e o debate do seu modelo social. Para alcançar estes objectivos, será importante inspirar-se, com fidelidade criativa, na herança cristã que contribuiu de modo particular para forjar a identidade deste continente. Valorizando as suas raízes cristãs, a Europa será capaz de oferecer uma orientação segura às opções dos seus cidadãos e das suas populações, fortalecendo a sua consciência de pertencer a uma civilização comum, e alimentará o compromisso de todos para enfrentar os desafios do presente para o bem e para um futuro melhor.

Portanto, aprecio o reconhecimento, da parte do vosso grupo, da herança cristã da Europa que oferece orientações éticas preciosas para a busca de um modelo social que satisfaça adequadamente as exigências de uma economia já globalizada e responda às mudanças demográficas, garantindo crescimento e progresso, tutela da família, iguais oportunidades na instrução dos jovens e solicitude pelos pobres.

Além disso, o vosso apoio à herança cristã pode contribuir de modo significativo para derrubar aquela cultura tão difundida na Europa que limita na esfera privada e subjectiva a manifestação das próprias convicções religiosas. As políticas elaboradas partindo desta base não só implicam o repúdio do papel público do cristianismo, mas, mais em geral, excluem o compromisso com a tradição religiosa da Europa, que é tão clara apesar das suas variedades confessionais, ameaçando desta forma a própria democracia, cujo vigor depende dos valores que promove (cf. Evangelium vitae, 70). A partir do momento que esta tradição, precisamente no que podemos definir a sua união polifónica, transmite valores que são fundamentais para o bem da sociedade, a União Europeia só pode receber um enriquecimento do compromisso com ela. Seria um sinal de imaturidade, ou até de debilidade, optar por se opor a ela ou por ignorá-la, em vez de dialogar com ela. Neste contexto, é necessário reconhecer que uma certa intransigência secular demonstra ser inimiga da tolerância e de uma visão sadia da sociedade. Portanto, sinto-me feliz pelo facto de o tratado constitucional da União Europeia prever uma relação estruturada e permanente com as comunidades religiosas, reconhecendo-lhes a sua identidade e o seu contributo específico.

Sobretudo, tenho esperança de que a realização eficaz e correcta deste relacionamento comece agora, com a cooperação de todos os movimentos políticos independentemente das suas orientações. É preciso não esquecer que, quando as Igrejas ou comunidades eclesiais intervêm no debate público, manifestando dúvidas ou recordando certos princípios, com isso constitui uma forma de intolerância ou uma interferência porque tais intervenções são unicamente destinadas a iluminar as consciências, permitindo que elas se movam livre e responsavelmente segundo as exigências autênticas de justiça, mesmo quando isso pudesse entrar em conflito com situações de poder e com interesses pessoais.

No que se refere à Igreja Católica, o interesse principal das suas intervenções no campo público é a tutela e a promoção da dignidade da pessoa e, por conseguinte, ela chama conscientemente a uma particular atenção aos princípios que não são negociáveis. Entre eles, hoje emergem os seguintes:

  1. tutela da vida em todas as suas fases, desde o primeiro momento da concepção até à morte natural;
  2. reconhecimento e promoção da estrutura natural da família, como união entre um homem e uma mulher baseada no matrimónio, e a sua defesa das tentativas de a tornar juridicamente equivalente a formas de uniões que, na realidade, a danificam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu carácter particular e o seu papel social insubstituível;
  3. tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos.

Estes princípios não são verdades de fé mesmo se recebem ulterior luz e confirmação da fé. Eles estão inscritos na natureza humana e, portanto, são comuns a toda a humanidade. A acção da Igreja de os promover não assume, por conseguinte, um carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, prescindindo da sua filiação religiosa. Ao contrário, esta acção é tanto mais necessária quanto mais estes princípios forem negados ou mal compreendidos porque isto constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma grave ferida infligida à própria justiça.

Queridos amigos, ao exortar-vos a ser testemunhas críveis e coerentes destas verdades fundamentais através da vossa actividade política e mais basilarmente através do vosso compromisso de levar uma vida autêntica e coerente, invoco sobre vós e sobre a vossa obra a permanente assistência de Deus, em cujo nome concedo a minha Bênção Apostólica a vós e a quantos vos acompanham.

(https://w2.vatican.va/content/benedictxvi/pt/speeches/2006/march/documents/hf_ben-xvi_spe_20060330_eu-parliamentarians.html)

A IGREJA CATÓLICA E A NOVA ORDEM MUNDIAL

 

Voltam a aparecer especulações sobre a misteriosa renúncia do Papa Bento XVI, ocorrida há quatro anos. Uma pessoa próxima ao Papa, Bispo Luigi Negri, da diocese italiana de Ferrara, falou em recente entrevista sobre as grandes pressões que Bento XVI sofreu, antes de sua renúncia. Mencionou, também, o recente apelo de católicos norte-americanos dirigido ao presidente Trump, para que abra investigação sobre possíveis ações secretas do ex-presidente Obama contra o então pontífice romano. “Permanece por enquanto um grande mistério, mas estou certo de que a responsabilidade acabará aparecendo”, concluiu o Bispo Negri.

A quem interessava a queda do Papa Bento XVI? A quem ele incomodava, com sua defesa intransigente dos chamados “princípios inegociáveis”, expostos em famoso discurso lido a 30 de Março de 2006? Esses princípios eram só três, mas o bastante para contrariar fortes interesses do mundo atual: defesa da vida em todas as suas fases, da concepção à morte natural; casamento como união permanente entre um homem e uma mulher; direito dos pais de decidir sobre a educação dos próprios filhos.

Incomodava, em primeiro lugar, à chamada “elite globalista”, que há décadas planeja e lentamente executa um governo mundial, acima das soberanias nacionais. Tal “elite globalista” é uma reunião de forças políticas e econômicas internacionais, sobretudo americanas e européias, composta basicamente por representantes do capital financeiro (banqueiros e investidores) e da grande mídia, envolvendo muitos intelectuais e cientistas, muitos deles pertencentes à chamada Nova Esquerda.

A alegação desta “elite globalista” é que, na atual situação do mundo, o crescimento da população deverá ser obrigatoriamente controlado, já que os recursos da terra são finitos e sua diminuição poderia ser causa de sérios conflitos entre as nações. Para evitar guerras, portanto, urgia praticar-se uma política agressiva, com duas medidas intimamente coligadas: controle da natalidade e defesa do meio-ambiente. Em palavras mais simples, menos pessoas no mundo e mais controle dos recursos naturais.

Para isto, era importante mudar o comportamento das pessoas. Somente uma força mundial, com amplos poderes, teria condições de salvaguardar os recursos naturais do planeta e alterar uma mentalidade tão entranhada nos povos, como era a da procriação generosa. Esse governo planetário seria capitaneado pela ONU e algumas bilionárias fundações norte-americanas, ditas filantrópicas (Fundação Ford, Fundação Rockefeller, Fundação MacArthur, Fundo Global para Mulheres, entre várias outras).

Como impor ao planeta um governo mundial? Para realizar aquele projeto bípede — menos pessoas no mundo e mais controle dos recursos naturais —, algumas providências básicas deveriam ser tomadas: desestruturação da família convencional através do divórcio, legalização do aborto, disseminação dos métodos anticoncepcionais, cultura de poucos filhos, fortalecimento do movimento homossexual, educação para o sexo livre, defesa histérica do meio-ambiente, e, sobretudo, uma educação a serviço das novas idéias, privando os pais do direito de educar os próprios filhos.

Parte fundamental desse projeto mundialista era elaborar estratégias de repressão às vozes discordantes, em especial os cristãos, que eram e são os seus principais adversários, cujas normas morais dificultariam a instalação da nova mentalidade. A solução, portanto, era diminuir o poder das religiões mais dogmáticas, como a Igreja Católica, favorecendo-se a difusão de uma espécie de sincretismo religioso, misturando-se elementos de várias religiões, visando uma futura e mais flexível religião universal, moralmente neutra.

Era necessário que as novas gerações se deixassem moldar pelo “relativismo moral”, ou seja, não mais acreditassem em verdades imutáveis, válidas para pessoas de quaisquer épocas, mas em verdades flexíveis e adaptáveis a cada nova circunstância histórica.

Papa Bento XVI não quis colaborar com esse programa insensato. Ao contrário, repudiou-o com veemência, cunhando-lhe uma expressão que ficou célebre — “ditadura do relativismo” —, e por isso teve, contra si, os inimigos mais poderosos do planeta. A grande mídia o atacava continuamente. Adversários internos, dentro da própria Igreja, o constrangiam a ceder às pressões do mundo. Mas ele foi firme e manteve-se fiel a Cristo.

POR QUE PESQUISADOR NÃO-CATÓLICO ESTÁ DESMASCARANDO SÉCULOS DE HISTÓRIA ANTI-CATÓLICA? – Por Carl E. Olson

Entrevista com o Dr. Rodney Stark, sociólogo e autor do livro Tolerando falsas testemunhas (Bearing False Witness)”. Dr. Rodney Stark escreveu cerca de 40 livros sobre variados temas, entre estes, alguns sobre a história do Cristianismo, do monoteísmo, do Cristianismo na China e as raízes da modernidade. Depois de iniciar como jornalista e passar algum tempo no Exército, Stark recebeu seu Ph.D. na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde ocupou cargos como sociólogo e pesquisador no Departamento de Pesquisa no Centro de Estudos de Direito e Sociedade. Mais tarde foi Professor de Sociologia e de Religião Comparada na Universidade de Washington. Atualmente, ele está na Universidade de Baylor, onde ensina desde 2004. Stark é ex-presidente da Sociedade para o Estudo Científico da Religião e da Associação para a Sociologia da Religião, e ganhou vários prêmios nacionais e internacionais por distinta bolsa de estudos. Criado como um luterano, ele se identificou como um agnóstico, mas, mais recentemente, chamou a si mesmo de “cristão independente”. Seu livro mais recente é Tolerando falsas testemunhas: Contradizendo séculos de história anticatólica ( Bearing False Witness: Debunking Centuries of Anti-Catholic History. Templeton Press, 2016), que aborda os dez maiores mitos sobre a história da Igreja Católica. Dr. Stark recentemente respondeu, por e-mail, algumas perguntas de Carl E. Olson, editor do site Catholic World Report.

Carl: Em primeiro lugar, você inicia o livro ressaltando a sua educação como protestante americano e, em seguida, examinando o “fanático ilustre”. O que é um “fanático ilustre”? E como essas pessoas influenciaram o modo como a Igreja Católica é compreendida e percebida por muitos americanos hoje?

Dr. Rodney Stark: Ao distinguir o fanático, falo proeminentemente dos acadêmicos e intelectuais que claramente são antagônicos à Igreja Católica lançando falsas sentenças e afirmações históricas que são falsas.

Carl: Como você identificou e selecionou os dez mitos anticatólicos que você refuta em seu livro? Até que ponto esses mitos fazem parte de uma cultura protestante em geral (embora às vezes vaga), e até que ponto eles são encorajados e difundidos por uma elite cultural mais secular?

Dr. Stark: Na maior parte dos casos, encontrei esses mitos anticatólicos quando escrevi sobre vários períodos e acontecimentos históricos e descobri que esses conhecidos “fatos” eram falsos e, portanto, eu era forçado a lidar com eles nesses estudos. Esses mitos não se limitam a uma cultura protestante generalizada — muitos católicos, inclusive alguns bem conhecidos, também os repetiram. Esses mitos têm sido muitas vezes, e por muito tempo, admitidos como verídicos e verdadeiros por historiadores em geral. É claro que os secularistas — especialmente ex-católicos como Karen Armstrong — adoram esses mitos.

Carl: O primeiro capítulo é sobre “os filhos do antissemitismo”. Talvez o mais decisivo e controverso dos tópicos que você aponta. Como seu ponto de vista sobre esses assuntos mudaram e por quê? Por que você acha que continua a existir uma ampla convicção ou impressão de que a Igreja Católica é intrinsecamente antissemita?

Dr. Stark: Quando comecei como estudioso, “todos”, incluindo os principais católicos, tinham que a Igreja era a principal fonte de antissemitismo. Foi só mais tarde, quando trabalhei com documentos medievais sobre judeus, que descobri o papel efetivo da Igreja em opor-se e reprimir tais ataques — essa verdade é contada pelos cronistas judeus medievais e, portanto, certamente verdadeira. Por que tantos “intelectuais”, muitos deles ex-católicos, continuam a aceitar a noção de que o Papa Pio XII era “o Papa de Hitler”, quando isso é tão obviamente uma mentira viciosa? Só pode ser ódio à Igreja. Tenha em mente que são principalmente os judeus que defendem o Papa [Pio XII].

Carl: Por que vários historiadores, como Gibbons, apresentaram os antigos pagãos como benevolentes ou, na maioria, tolerantes com o cristianismo? Qual foi a relação real entre o cristianismo e o paganismo nos primeiros séculos da existência da Igreja?

Dr. Stark: Naqueles dias, a maneira segura de atacar a religião era deixar os leitores assumirem que era apenas um ataque ao catolicismo, de modo que foi o que Gibbon e seus contemporâneos fizeram. Talvez surpreendentemente, uma vez que os pagãos já não eram capazes de perseguir os cristãos, eles foram praticamente ignorados pela Igreja e pelos imperadores e apenas desapareceram lentamente.

Carl: Como se desenvolveu a mito da “Idade das Trevas”? Quais são alguns dos principais problemas com esse mito?

Dr. Stark: Voltaire e seus associados fizeram a ficção da Idade das Trevas para que pudessem alegar os ter superados com o Iluminismo. Como todos os historiadores competentes (e até mesmo as enciclopédias) reconhecem agora, não houve Idade das Trevas! Ao contrário, foram nesses séculos que a Europa deu o grande salto cultural e tecnológico que a colocou tão à frente do resto do mundo.

Carl: Que relação existe entre o mito da “Idade das Trevas” e o mito do “Iluminismo secular”? Quão racional e científico, de fato, foi o Iluminismo?

Dr. Stark: Os “filósofos” do chamado “Iluminismo” não desempenharam qualquer papel na ascensão da ciência — o grande progresso científico da época foi alcançado por homens altamente religiosos, muitos deles clérigos católicos.

Carl: As Cruzadas e as Inquisições continuam sendo apresentadas como épocas e eventos que envolveram a barbárie cristã e o assassinato de milhões. Por que esses mitos são tão populares e difundidos, especialmente depois que os estudiosos passaram décadas corrigindo e esclarecendo o que realmente aconteceu (ou não)?

Dr. Stark: Sou competente para revelar que as Cruzadas eram legítimas guerras defensivas e que a Inquisição não era sangrenta. Não sou competente para explicar por que uma pilha de pesquisas finas que apoiam essas correções não teve impacto nos cursos desses tagarelas. Suspeito que esses mitos sejam preciosos demais para os antirreligiosos se renderem.

Carl: Ao abordar a “Modernidade Protestante”, você afirmou categoricamente que a tese de Max Weber de que com o Protestantismo nasceu o capitalismo e a modernidade é “absurda” [nonsense]. Quais são os principais problemas com a tese de Weber?

Dr. Stark: O problema é que o capitalismo simplesmente foi desenvolvido e cresceu na Europa muitos séculos antes da Reforma.

Carl: Você afirma enfaticamente que, como um estudioso com um fundo protestante trabalhando em uma universidade Batista, você não escreveu seu livro como “uma defesa da Igreja”, mas “em defesa da história”. Por que isso é significativo? E, finalmente, você acha que a maioria dos americanos realmente dá mais crédito à história do que à Igreja?

Dr. Stark: Eu acho que os ilustres fanáticos terão dificuldade em me acusar de ser um católico, tentando encobrir os pecados da Igreja. O único machado que tenho a moer é que a história deve ser honestamente relatada. Quanto ao seu ponto final: Eu não acho que “a maioria dos americanos” jamais saberá que este livro foi escrito. Só posso esperar que influencie intelectuais e escritores de livros didáticos — talvez.

(Tradução de Allan L. Dos Santos. Publicado em: https://medium.com/@allandossantos/por-que-esse-pesquisador-não-católico-está-desmascarando-séculos-de-história-anti-católica-3fcabaeb9c84#.yqccej)