SE DEUS NÃO EXISTE, TUDO É PERMITIDO 

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“Os irmãos Karamazov” é o último romance do grande escritor russo Dostoievsky (nascido em 1821 e morto em 1881). Junto com Tchekhov, Gogol, Tolstói e Turguenev, o romancista Dostoievsky compôs esse maravilhoso time dos clássicos da literatura russa, talvez a mais densa literatura de ficção do século XIX, em todo o mundo ocidental.

O romance “Os irmãos Karamazov” foi publicado um ano antes da morte de seu autor. Seria a primeira parte de uma extensa biografia ficcional do mais novo dos irmãos Karamazov, o padre Aliocha. A morte, porém, frustrou os planos do escritor. Na verdade, “Os irmãos Karamazov” conta a história de uma família russa, ambientada em pequena cidade do interior, com o difícil relacionamento entre o pai Fiodor Karamazov (que se comportava de maneira imprópria a um chefe de família) e seus quatro filhos: o hedonista Dímitri, o intelectual Ivan, o monge Aliocha e o ressentido Smerdjakov, filho não assumido, que vivia em casa como empregado do pai.

A inimizade entre pai e filhos é o grande pano de fundo da obra. Mas é um romance em que há de tudo o que possa haver entre o céu e a terra, uma verdadeira suma da condição humana: pai e filho brigando pela mesma mulher; irmãos odiando-se pela mesma e feminina razão; grandes maldades e grandes generosidades; luxúria, vingança, orgulho, ressentimento, desespero, remorso; discussões sobre as consequências de crer ou não crer em Deus.

Há uma idéia no livro, defendida pelo ateu Ivan, que se tornou célebre: “Se Deus não existe, não há virtude. Tudo é permitido.” O meio irmão de Ivan, o ressentido Smerdjakov, tanto a ouviu que a transformou em princípio de vida: decidiu matar o próprio pai, a quem odiava profundamente. Foi um assassinato meticulosamente preparado, de modo que inculpasse o irmão Dímitri que, em momento de ira e ciúmes, havia prometido matar o velho Fiodor, com quem disputava a volúvel Grusenka. Dímitri talvez seja o personagem mais interessante da obra: era um homem impulsivo, agitado por sentimentos opostos, em que se alternavam momentos de crueldade e mansidão, luxúria e sacrifício, egoísmo e desprendimento.

Quando a verdade veio à tona, Ivan reconheceu que sua pregação ateísta tinha sido responsável pelo ato inadmissível de Smerdjakov, o mais inadmissível de todos os atos humanos: o parricídio. O próprio ateu Ivan ficou terrificamente abalado com a solução que ele mesmo admitia, como conclusão lógica do ateísmo. Percebeu, porém, que nem tudo era permitido. Portanto, se nem tudo era permitido, sob pena de tornar impossível a vida dos homens neste mundo, a conclusão só podia ser uma: Deus existia. Era Ele o nexo necessário que dava sentido à vida moral.

O grande tema da obra é a prova prática de que Deus não está morto (o romance termina com um belo ato de fé na ressurreição dos mortos). Era um assunto, no entanto, que batia de frente com a decisão do homem contemporâneo de afastar-se de Deus, teoricamente desinteressante às pessoas que, na modernidade, estavam se despedindo do cristianismo e partindo para a sua própria experiência de deserto espiritual e existencial. A obra fez, no entanto, grande sucesso. É um dos romances mais lidos dos últimos cem anos.

Aqueles quatro irmãos — o ressentido Smerdjakov, o hedonista Dímitri, o intelectual Ivan e o religioso Aliocha —, se transformaram em quatro caminhos possíveis para o homem moderno, que preferiu, no entanto, desgraçadamente, a solução de Dímitri (viver a vida sem limites) entregar-se à soberba intelectual como Ivan (que só acreditava nas verdades provisórias da ciência) ou a decisão de Smerdjakov, que viu no homicídio a saída para os seus problemas (pensemos nos milhões de mortos produzidos pelo ódio comunista e nazista, e nos milhões de abortos cometidos, nas últimas décadas, em nossas democracias ocidentais).

“O Ocidente perdeu o Cristo e por isso decai”, diria o mesmo Dostoievsky, antecipando profeticamente o que estamos vivendo hoje.

(Publicado originalmente em http://www.jczamboni.com.br)

 

A ÉTICA CATÓLICA DO TRABALHO – Scott Hahn

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Esse trabalho – humilde, monótono, pequeno – é oração plasmada em obras que te preparam para receber a graça do outro trabalho – grande, vasto e profundo – com que estás sonhando. (São José Maria Escrivá, Caminho, n. 825)

Às vezes, a propaganda dá-nos agudas – e dolorosas – percepções da religiosidade popular. Certa vez, vi em uma revista um anúncio que proclamava: “Se o pecado original tivesse sido de preguiça, ainda estaríamos no paraíso”.

O publicitário pretendia fazer uma piada, é claro. Mas sabia que roçava um tema poderoso: a noção comum de que a vida ideal consistiria em um ininterrupto tempo de ociosidade e de que o trabalho está para as férias como a vida está para o céu. Nas palavras da canção popular, “todo o mundo trabalha pelo fim de semana”.

O reverso dessa noção é bem mais insidioso e ilude muita gente: a crença de que o trabalho é uma punição pelo pecado. Os que sustentam essa teoria costumam invocar a condenação divina de Adão depois do seu pecado: “Maldita seja a terra por tua causa! Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra da qual foste tirado” (Gên 3, 17-19).

Esta passagem parece traçar um triste prognóstico de longo prazo para as condições do trabalho humano. E efetivamente retrata a fadiga do trabalho como uma punição pelo pecado. A punição, porém, não está no trabalho em si, mas nas duras condições que o tornam tedioso, frustrante e árduo.

O trabalho em si era uma das bênçãos originais de Deus. São Josemaria gostava de ressaltar que, “desde o começo da sua criação, o homem teve que trabalhar […], antes de que o pecado e, como conseqüência dessa ofensa, a morte e as penalidades e misérias entrassem na humanidade (cfr. Rom 5, 12). Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão belo, ut operaretur et custodiret illum (Gên 2, 15), para que o trabalhasse e guardasse” (1).

Deus fez Adão porque não havia homem que cultivasse a terra (cfr. Gên 2, 5). Ou seja, havia uma vaga de emprego, uma descrição do cargo e uma tarefa a ser executada. O próprio Deus criou o candidato perfeito para esse posto. E devemos lembrar-nos de que tudo isso aconteceu quando o mundo ainda não conhecia o pecado nem a infelicidade. Deus fez o homem e a mulher para o trabalho; em conseqüência, eles não poderiam – e nós não podemos – encontrar a realização fora do trabalho.

Porém, mais ainda do que fazer o homem e a mulher por causa do trabalho, fez o trabalho por causa do homem e da mulher – porque era só através do trabalho que eles poderiam tornar-se verdadeiramente semelhantes a Deus. Isto não significa que eles possam merecer a graça da divinização por força do seu trabalho. A graça é um dom e, por isso, não pode ser merecida (2). Antes, é o próprio trabalho que é um dom e torna os homens e as mulheres cada vez mais parecidos com Deus.

Com efeito, o Gênesis representa o próprio Deus entregue ao trabalho ao criar o mundo: Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho (Gên 2, 2). Portanto, o trabalho é em si mesmo algo divino, algo em que o próprio Deus se ocupa; é assim uma atividade divinizante para aqueles que foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Quando os seres humanos trabalham, imitam o seu Criador; compartilham a sua vida. Ele fez a terra do nada, mas quis que a criatura a trabalhasse e guardasse. Quis que os seus filhos terrenos conservassem os campos da família e se multiplicassem para assim viverem de modo mais perfeito à imagem do Pai celestial. Quis que o próprio trabalho pudesse tornar-se um ato de cooperação no ato criador, uma co-criação, feita por ambos, o Pai e os seus herdeiros.

TERMOS E CONDIÇÕES

Deus deu o trabalho à humanidade quando deu a vida a Adão, no tempo da inocência primitiva. O Gênesis conta-nos a história com o máximo laconismo, dando peso a cada palavra. Convém que nos detenhamos um pouco a examinar em que termos Deus nos confiou o trabalho.

O preceito de Deus a Adão de cultivar [o jardim] e guardá-lo exprime-se por meio de dois verbos hebraicos: ’abodah e shamar. Ambos são ricos e passíveis de um duplo sentido. Aparecem juntos em outros lugares da Bíblia – e sempre que isso acontece, é para descrever os deveres ministeriais dos levitas, antiga tribo sacerdotal de Israel (cfr. Núm 3, 7-8; 8, 26; 18, 5-6). O verbo ’abodah, freqüentemente traduzido por “servir”, tem no hebraico um duplo significado: pode designar “trabalho manual” ou “ministério sacerdotal” (enquanto “serviço ao culto”), ou pode sugerir os dois ao mesmo tempo. Já o verbo shamar significa “conservar” ou “guardar”, e descreve a proteção que os levitas deviam dispensar ao lugar sagrado, ao tabernáculo, que por eles era guardado e preservado da contaminação.

Muitos estudiosos das Escrituras acreditam que o autor do livro do Gênesis pretendeu sugerir tudo isso na história da criação de Adão. Deus fez Adão para que trabalhasse, e Deus o fez para que fosse um sacerdote do templo cósmico. Não eram atividades separadas. No começo, Adão desfrutava de unidade de vida: o seu trabalho estava ordenado para a adoração a Deus e era em si mesmo um ato de adoração. Até a divisão do tempo refletiu esse princípio de ordenação: Deus trabalhou seis dias e no sétimo descansou, santificando-o. Deus plasmou o ritmo sabático na própria estrutura da criação.

Nós trabalhamos para podermos adorar de modo mais perfeito. Adoramos enquanto trabalhamos. Quando os primeiros cristãos andaram à busca de uma palavra para descrever a sua adoração, escolheram leitourgía, uma palavra que, como a hebraica ’abodah, podia indicar “adoração ritual”, mas também “serviço público”, como o trabalho dos varredores de rua ou dos homens que em outros tempos acendiam os lampiões de rua à noite. O significado é evidente para aqueles que conhecem as línguas bíblicas, estejam ou não familiarizados com a tradição litúrgica católica. O estudioso bíblico protestante inglês C.F.D. Moule explica bem a questão:

“A maneira surpreendente com que palavras «seculares» como leitourgein («prestar um serviço público») são aplicadas também ao «serviço divino» recorda-nos de modo muito salutar que, para uma pessoa verdadeiramente religiosa, adorar a Deus constitui toda a razão e finalidade do trabalho; e que, se distinguimos entre adoração e trabalho, é apenas por causa da fragilidade da natureza humana, que não pode fazer mais do que uma coisa de cada vez. A necessária alternância entre erguer mãos santas em oração e brandir com mãos fortes e dedicadas um machado para a glória de Deus é o sucedâneo humano para aquela vida divina una e simultânea em que o trabalho é adoração e a adoração é a atividade mais elevada possível. E a única palavra «liturgia» do Novo Testamento, tal como a ’abodah – «trabalho» e «serviço» – do Antigo Testamento, cobre os dois significados” (3).

Vemos uma vez mais que o trabalho é uma imagem terrena da atividade de Deus e, portanto, o trabalhador é uma imagem (e semelhança) de Deus. Como Deus é eterno, a sua atividade é simples e una. Nós, como vivemos no tempo, temos uma atividade diferenciada – e, com excessiva freqüência, dispersa. Porém, por compartilharmos a vida de Deus, as nossas próprias vidas começam a adquirir uma simplicidade, uma unidade entre trabalho e adoração.

No entanto, essa simplicidade muitas vezes confunde os cristãos de hoje, que tendem a pôr o trabalho e a oração em compartimentos separados e estanques. São Josemaria preveniu com freqüência sobre “a tentação […] de levar uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas”. Teve palavras fortes para essa atitude: “Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla […]. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e plena de Deus, desse Deus invisível que nós encontraremos nas coisas mais visíveis e materiais”.

E prosseguiu falando dessa vida unificada: “Por isso, posso afirmar que a nossa época precisa de devolver à matéria e às situações aparentemente mais vulgares o seu nobre e original sentido: pondo-as ao serviço do Reino de Deus” (4).

A PALAVRA EM AÇÃO

Nessa tarefa de restauração, Jesus Cristo foi, é claro, o primeiro. Muito simplesmente, Ele trabalhou. Os seus contemporâneos conheceram-no como um trabalhador bem capacitado, em grego um tekton, um artesão. A tradição diz-nos que o seu ofício foi o de carpinteiro. Os seus vizinhos maravilharam-se de que um trabalhador comum pudesse ter estudado as Escrituras, que tivesse adquirido sabedoria e ensinasse com a autoridade com que o fazia. “Não é ele o artesão?”, perguntavam (Mc 6, 3). E, em outro lugar, acrescentaram que era “o filho do carpinteiro” (Mt 13, 55).

Mas foi em uma referência ao seu Pai celestial que Cristo disse: “Meu Pai não cessa de trabalhar, e eu também trabalho” (Jo 5, 17). Jesus estava sempre trabalhando e o seu trabalho era uma só coisa com a sua vida divina e com a sua divina adoração. Estava continuamente criando, redimindo e santificando o mundo, e sempre unido ao seu Pai no amor do Espírito Santo. Cada uma das ações da sua vida terrena era uma manifestação terrena dessa atividade celestial una, simples e eterna, ao mesmo tempo serena e dinâmica. Portanto, todas as coisas que fez foram redentoras – não apenas o seu sofrimento e morte na cruz. As horas que gastou na carpintaria tiveram um valor redentor, uma eficácia reparadora. Ofereceu o seu trabalho a Deus, e todos esses seus atos trabalharam para salvar o mundo.

Como carpinteiro e cabeça de família, Jesus viveu o sacerdócio que Deus concebera para Adão – e para todos nós, na terra. Nisto, como em todas as coisas, Ele é o nosso modelo. Mas é mais que isso. Pelo Batismo e pela Sagrada Comunhão, está unido a nós. Por isso, não o imitamos apenas, mas participamos da sua vida. Trabalha em nós e nós trabalhamos nEle. Oferecemos o nosso trabalho como uma oferenda sacerdotal, um sacrifício redentor, em benefício dos nossos familiares, vizinhos, colegas de trabalho e amigos. E com Cristo recriamos o mundo por meio dos nossos trabalhos e orações.

Não se trata apenas de uma pie in the sky [de um “castelo nas nuvens”]. Trata-se também da pie on the table [da “torta na mesa”], para a mãe que a preparou e ofereceu esse trabalho a Deus; da pie chart [do “diagrama de pizza”], nos slides que o corretor prepara para uma apresentação; do pi na equação (5), para a professora de geometria que prepara os seus planos de aula.

Tudo isso, se bem feito e oferecido a Deus, faz avançar a causa da criação divina e alcança a redenção do mundo. E realmente funciona!

NA TERRA COMO NO CÉU

É razoável perguntar: – Se Jesus restaurou o projeto original para o trabalho, por que o nosso trabalho atual ainda traz as marcas do pecado de Adão? Por que o nosso trabalho tem de ser feito à força de suor, de frustrações, de tédio e de malogros? Por que as minhas costas têm de doer no fim de cada dia de trabalho, quando soa o apito da fábrica?

Devemos notar que Jesus não esteve livre do sofrimento na sua própria vida terrena de trabalho. Os seus esforços foram custosos, como os nossos. Além de que Ele sofreu incompreensões, falsas acusações, a inveja de outros mestres e – no Calvário – uma aparente derrota.

É correto dizer, como os evangélicos protestantes, que Jesus pagou uma dívida que Ele não tinha porque nós tínhamos uma dívida que não podíamos pagar. Mas Cristo não foi meramente o nosso substituto. Se o tivesse sido, poderíamos perguntar, e com razão, por que ainda temos de carregar com o peso da punição pelo pecado de Adão: por que o nosso trabalho ainda tem de ser custoso? Como nosso substituto, Cristo deveria ter eliminado a necessidade do nosso sofrimento, certo?

Errado. Cristo não foi o nosso substituto, mas o nosso representante, e, como a sua paixão salvadora foi em nossa representação, não nos exime do sofrimento, mas confere ao nosso sofrimento uma força divina e um valor redentor. São Paulo disse: Eu, agora, alegro-me nos meus sofrimentos por vós e completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (Col 1, 24). Que pode faltar ao sofrimento perfeito de Cristo? Somente aquilo que Ele quis que faltasse, porque desejava que fôssemos seus co-redentores, seus co-trabalhadores.

Jesus não erradicou o sofrimento, mas tornou-nos capazes de sofrer como Ele sofreu. Dotou o nosso sofrimento de poder divino e de valor redentor. E foi por isso que São Paulo pôde alegrar-se nos seus padecimentos por Cristo! Esta é a profunda fonte bíblica do gozoso espírito de mortificação que São Josemaria pregava, e que suscitou tantas incompreensões: “Abençoada seja a dor – escreveu –. Amada seja a dor. Santificada seja a dor… Glorificada seja a dor!” (6) Não dizia nenhuma tolice inane, como o faria se dissesse que “a dor é boa”; o que dizia é que, através da dor, podemos alcançar um grande bem nas nossas vidas, e, mais ainda, que Deus pode proporcionar-nos uma grande santidade por meio dela. Através da dor, podemos assemelhar-nos mais a Jesus Cristo nos seus sofrimentos.

Assim, o nosso trabalho é custoso, mas na realidade o seu custo não sobrepuja os seus benefícios, porque estes são concedidos por Deus todo-poderoso. E são benefícios que podemos aplicar não apenas em favor dos nossos familiares, mas de todas as pessoas das nossas relações e do mundo inteiro, pelos vivos e pelos mortos, pelo eterno descanso dos nossos antepassados e pela perseverança dos nossos descendentes na fé cristã. E podemos viver na alegre esperança de que todas essas pessoas virão igualmente a rezar e oferecer o seu trabalho por nós. O Credo chama a isto “comunhão dos santos”.

ABENÇOADO PELO SUCESSO?

Quando eu era ministro presbiteriano, orgulhava-me daquilo que os cientistas sociais designaram por “ética protestante do trabalho”. O sociólogo Max Weber cunhou essa frase para descrever uma determinada atitude que observou nos calvinistas. Eles trabalhavam arduamente e procuravam dar sempre o melhor de si no campo profissional. Não é que pensassem que com isso ganhavam um bilhete para o céu. Pelo contrário, acreditavam que todos na terra estavam predestinados ou para o céu ou para o inferno, mas achavam que o sucesso terreno era um sinal providencial do favor divino, de terem sido escolhidos, de estarem destinados ao céu. Weber estava certo, ao menos parcialmente, quando apontava essa ética como a força que movia o dínamo do capitalismo.

A ética protestante do trabalho não é um dogma cristão, mas apenas um fenômeno sociológico (embora, efetivamente, poderoso). Já o que vimos no livro do Gênesis é muito mais profundo do que qualquer tendência cultural e não é uma ética do trabalho, e sim algo mais completo e sólido. É uma verdadeira “teologia do trabalho”, uma metafísica do trabalho. Não é apenas a resposta coletiva de alguns fiéis ao Credo, e sim uma verdade inserida no próprio tecido da Criação.

Além disso, não depende do sucesso terreno. Como a Bem-aventurada Madre Teresa dizia com freqüência, Deus não nos pede que sejamos bem-sucedidos, mas apenas fiéis.

Fidelidade significa que tentaremos sempre fazer o melhor que pudermos. Mas isso não garante que venhamos a receber um aumento, ou a ser promovidos, ou a ganhar as eleições: poderemos até ter o salário diminuído, ser despedidos ou sofrer um acidente de trabalho. Mesmo assim, a teologia do trabalho é uma motivação mais poderosa que qualquer mera ética do trabalho: reivindica audaciosamente que o trabalho que realizamos nos pode levar para o céu – e também redimir muitas outras almas –, não por se tratar do nosso trabalho, mas por ser trabalho de Deus, opus Dei. Se o mundo nos considera um sucesso ou um fracasso, é coisa secundária; desejamos o sucesso unicamente para glorificar a Deus. O que é primordial é que trabalhemos com as mãos de Deus, com a mente de Cristo (cfr. 1 Cor 2, 16).

Santa Teresa de Ávila falou da assombrosa dignidade que Cristo nos conferiu ao fazer-nos seus colaboradores no trabalho:

“Cristo agora não tem outro corpo senão o vosso,

não tem outras mãos nem outros pés na terra senão os vossos.

Vossos são os olhos com que Ele olha

compassivamente para este mundo.

Vossos são os pés com que Ele caminha para fazer o bem.

Vossas são as mãos com que Ele abençoa o mundo inteiro” (7).

Jesus foi fiel até ao fim, e foi precisamente isso que constituiu o seu sucesso. Cumpriu a vontade de seu Pai e salvou o mundo com o sangue que marcou a sua “derrota”. E continua a operar as maravilhas da redenção através dos seus irmãos e irmãs, dos nossos êxitos e dos nossos malogros, de todo o trabalho que oferecemos com Ele a Deus nosso Pai.

Não é preciso dizer que deveríamos sempre trabalhar o melhor que pudermos, porque nada que esteja abaixo disso merece ser colocado no altar de Deus. Leiamos os profetas do Antigo Testamento e meditemos no que aconteceu quando os sacerdotes do Templo se tornaram preguiçosos ou gananciosos e começaram a oferecer a Deus animais defeituosos e com manchas, pois queriam guardar o melhor para si próprios. Nós corremos o risco de fazer o mesmo com o nosso tempo, com a nossa atenção e os nossos esforços. Semelhante egoísmo deu péssimos resultados para Israel e pode dar péssimos resultados também para nós. Se o nosso trabalho é culto a Deus, deve ser perfeito!

Uma última palavra: Jesus ensinou-nos, pela palavra e pelo exemplo, a trabalhar muito, mas não a idolatrar o trabalho ou o dinheiro que possamos ganhar trabalhando muito. Quando Deus fez o mundo, dividiu o tempo de tal modo que não pudéssemos esquecer a razão pela qual trabalhamos. Ele trabalhou seis dias para santificar o sétimo. Nós também devemos santificar o dia do Senhor. Os nossos seis dias de trabalho estão ordenados para um sétimo dia dedicado a uma adoração mais pura.

Deus fez-nos para esse descanso sabático, e os nossos corpos e o nosso trabalho deixam transparecer esse inteligente desígnio divino. É humano esperar ansiosamente pelo descanso sabático. É humano necessitar do Sabbath.

O exército dos Estados Unidos descobriu isso há muito tempo, na década de 1940, e pelo caminho árduo. Visando atingir quotas ambiciosas, o governo pediu às fábricas de munição que estendessem a semana de trabalho a sete dias de vinte e quatro horas. A maior parte das fábricas seguiu essa diretriz, mas algumas não. Curiosamente, as únicas fábricas que cumpriram as suas quotas foram aquelas que fecharam aos domingos. Os seus operários estavam mais descansados e por isso eram mais eficientes e sofriam menos acidentes de trabalho. Como Jesus sublinhou, o sábado foi feito para o homem (Mc 2, 27). Cumpre uma necessidade do corpo, da mente e do espírito. E também nesse sentido o homem foi feito para o sábado.

Uns anos depois de me ter feito católico, e uns anos depois de ter entrado no Opus Dei, pude assistir um dia à missa em memória do recém-declarado Beato Josemaria Escrivá. Vibrei ao ouvir a primeira leitura que a Igreja escolheu para essa Missa. Era do livro do Gênesis: O Senhor tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse (Gên 2, 15).

NOTAS:

(1) São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 2001, n. 57.

(2) A primeira graça, para o pecador, não pode ser merecida; no cristão em estado de graça, porém, os atos bons animados pelo amor (caridade) e feitos com a graça merecem o aumento da graça santificante e o prêmio da vida eterna (N. do T.).

(3) C.F.D. Moule, The Birth of the New Testament, Harper & Row, San Francisco, 1981, pág. 43.

(4) Questões atuais do cristianismo, n. 114.

(5) O número pi, em inglês, pronuncia-se como pie (N. do T.).

(6) Caminho, n. 208.

(7) “Oração de Santa Teresa”, adaptação musical de John Michael Talbot. In The John Michael Talbot Collection, Sparrow, 1995.

Scott Hahn é Professor de Teologia da Sagrada Escritura na Universidade Franciscana de Steubenville e catedrático de Teologia Bíblica e Proclamação Litúrgica no Seminário de São Vicente, na Pensilvânia. É também fundador e presidente do Saint Paul Institute for Biblical Theology, órgão dedicado à interpretação da Bíblia à luz do Magistério da Igreja. É autor de mais de uma dezena de livros, dentre os quais destacamos: “Rome, Sweet Home” (tradução portuguesa: “Todos os caminhos vão dar a Roma”, Diel, Lisboa, 2002), escrito em colaboração com a sua esposa, Kimberly, em que ambos narram a sua conversão ao catolicismo; “The Supper of the Lamb” (tradução portuguesa: “O banquete do Cordeiro”, Loyola, São Paulo, 2003); e “First comes Love” (tradução portuguesa: “Primeiro, é o amor”, Diel, Lisboa, 2006).

(Fonte: Trabalho ordinário, graça extraordinária. Quadrante, 2ª edição, São Paulo: 2008. Link: http://www.quadrante.com.br Tradução: Élcio Carillo)

 

A imitação de Deus

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A perfectibilidade do homem que é a sua capacidade de se contruir, de se tornar melhor a cada dia, é o que nos leva a Deus.

Não é Deus que nos torna melhores, somos nós que inspirados pela perfeição Divina devemos nos esforçar para nos aperfeiçoarmos, para nos tornarmos melhores a cada dia, para superarmos nossas fraquezas, nossas debilidades, nossas infelicidades.

O amor de Deus não significa o amor ao ídolo, ao ser poderoso e milagroso que pode nos salvar  de um golpe. O amor de Deus significa a vontade insuplantável de nos aproximarmos da perfeição Divina, de nos comportarmos com uma centelha de sua bondade absoluta, de nos inspirarmos na sua misericórida incondicional, de particarmos um átomo de sua justiça infalível.

O verdadeiro amor a Deus não se realiza no abstrato da oração ou na esterilidade do cristianismo passivo, mas na ação de uma vida virtuosa, nas nossas obras cotidianas, naqueles momentos em que procuramos imitar a Deus por amor a nós mesmos e aos nossos semelhantes. Amar a Deus significa amar incondicionalmente suas virtudes e praticá-las no nosso dia-a-dia.

O catolicismo, como religião viva, se faz hoje e agora na vida dos fieis e não nas missas dominicais que devem ser apenas o pináculo, o ponto alto da semana santa que todos nós devemos viver continuamente.

As ações humanas inspiradas pelos exemplos que Cristo, Deus encarnado, nos legou, a imitação cotidiana das virtudes Divinas que a vida dos Santos nos revelam é o único caminho que é capaz de nos redimir neste mundo de desespero e caos  a que fomos lançados.

Desejar, procurar, amar intensamente a Deus significa, a cada dia, imitar suas virtudes. Imitando Deus superaremos nossas fraquezas e construiremos uma vida melhor, um mundo melhor. Este é o único caminho para o verdadeiro cristão.

DISCURSO NA PONTIFÍCIA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS – Papa Bento XVI

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Excelências, ilustres Senhores e Senhoras,

Saúdo os membros da Pontifícia Academia das Ciências por ocasião desta Assembleia Plenária e expresso a minha gratidão ao vosso presidente, professor Werner Arber, pelas cordiais palavras de saudação que me dirigiu em vosso nome. Tenho o prazer de cumprimentar o Bispo Marcel Sánchez Sorondo, vosso Chanceler, e agradeço-lhe pelo importante trabalho que faz para vós.

A presente sessão plenária sobre «Complexity and Analogy in Science: Theoretical, Methodological and Epistemological Aspects» (Complexidade e analogia na ciência: aspectos teoréticos, metodológicos e epistemológicos), enfrenta um tema importante que revela uma série de perspectivas que apontam para uma nova visão da unidade das ciências. Com efeito, as importantes descobertas e os progressos dos últimos anos convidam-nos a examinar a grande analogia entre física e biologia, que se manifesta claramente sempre que obtemos uma compreensão mais profunda da ordem natural. Se é verdade que alguns dos novos conceitos obtidos deste modo podem permitir que tiremos conclusões sobre os processos do passado, esta extrapolação realça também a grande unidade da natureza na complexa estrutura do universo e o mistério do lugar que o homem ocupa nele. A complexidade e a grandeza da ciência contemporânea em tudo o que consente que o homem saiba sobre a natureza têm repercussões diretas sobre os seres humanos. Só o homem pode ampliar constantemente o próprio conhecimento da verdade e ordená-la sabiamente para o bem próprio e do seu contexto.

Nos vossos debates tentastes examinar, por um lado, a dialética em curso sobre a expansão constante da pesquisa científica, dos métodos e das especializações e, por outro, a busca de uma visão global deste universo no qual os seres humanos, dotados de inteligência e liberdade, são chamados a compreender, amar, viver e trabalhar. Atualmente, a disponibilidade de instrumentos poderosos de pesquisa e o potencial para realizar experiências altamente complexas e precisas permitiram que as ciências naturais se aproximassem dos próprios fundamentos da realidade material, mesmo sem conseguir compreender totalmente a sua estrutura unificadora e a sua realidade última. A sucessão infinita e a integração paciente de diversas teorias, onde os resultados obtidos servem, por sua vez, como pressuposto para novas pesquisas, confirmam quer a unidade do processo científico quer o impulso constante dos cientistas em direção a uma compreensão mais apropriada da verdade da natureza e de uma visão mais inclusiva da mesma. Podemos pensar aqui, por exemplo, nos esforços da ciência e da tecnologia para reduzir as diversas formas de energia a uma força elementar fundamental, que agora parece ser expressa melhor na abordagem emergente da complexidade como base para modelos explicativos. Se esta força fundamental já não parece ser tão simples, isso desafia os pesquisadores a elaborar uma formulação mais ampla, capaz de abranger tanto os sistemas mais simples quanto os mais complexos.

Esta abordagem interdisciplinar da complexidade demonstra inclusive que as ciências não são mundos intelectuais separados uns dos outros e da realidade, mas ao contrário estão interligados e orientados para o estudo da natureza como realidade unificada, inteligível e harmoniosa na sua indubitável complexidade. Esta visão tem pontos de encontro fecundos com a visão do universo adoptada pela filosofia e pela teologia cristãs, com a noção de ser participado, no qual cada criatura, dotada da própria perfeição, participa também numa natureza específica, e isto no seio de um universo ordenado que tem origem na Palavra criadora de Deus. É precisamente esta organização intrínseca «lógica» e «analógica» da natureza que incentiva a pesquisa científica e leva a mente humana a descobrir a comparticipação horizontal entre os seres e a participação transcendente da parte do Primeiro Ser. O universo não é caos ou resultado do caos, mas parece cada vez mais claramente uma complexidade organizada que nos permite elevar-nos, através da análise comparativa e da analogia, da especialização para um ponto de vista mais universalizante e vice-versa. Enquanto os primeiros instantes do cosmos e da vida eludem ainda a observação científica, a ciência reflete sobre um grande número de processos que revela uma ordem de constantes e correspondências evidentes e serve como componente essencial da criação permanente.

É neste contexto mais amplo que gostaria de observar quanto se demonstrou fecundo o uso da analogia na filosofia e na teologia, não só como instrumento de análise horizontal das realidades da natureza, mas também como estímulo para a reflexão criativa num plano transcendente mais elevado. Precisamente graças ao conceito da criação o pensamento cristão utilizou a analogia não só para investigar a realidade terrena, mas também como meio para passar da ordem criada à contemplação do seu Criador, com a devida consideração do princípio segundo o qual a transcendência de Deus implica que cada semelhança com as suas criaturas necessariamente comporta uma maior dessimilaridade: enquanto a criatura é estruturalmente um ser por participação, Deus é um ser por essência, ou Esse subsistens. No grande empreendimento humano de tentar trazer à luz os mistérios do homem e do universo, estou convicto da necessidade urgente de diálogo constante e de cooperação ente os mundos da ciência e da fé para edificar uma cultura de respeito da dignidade e liberdade do homem, do futuro da nossa família humana e do desenvolvimento sustentável a longo prazo do nosso planeta. Sem esta interação necessária, as grandes questões da humanidade deixam o âmbito da razão e da verdade, e são abandonadas ao irracional, ao mito ou à indiferença, com grande desvantagem para a humanidade, para a paz no mundo e para o nosso destino último.

Queridos amigos, ao concluir estas reflexões, gostaria de chamar a vossa atenção para o Ano da fé que a Igreja está a celebrar para comemorar o cinquentenário do concílio Vaticano II. Agradecendo-vos pelo contributo específico da Academia para o fortalecimento da relação entre razão e fé, garanto-vos o meu interesse profundo pelas vossas atividades e as minhas orações por vós e vossas famílias. Invoco sobre todos as bênçãos de Deus Todo-Poderoso da sabedoria, da alegria e da paz.

(Sala Clementina, Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012)

 

Sabedoria de Salomão

A sabedoria de Salomão

Pois que homem conhece os desígnios de Deus?

Quem pode conhecer o que deseja o Senhor?

 Os pensamentos dos mortais são tímidos e falíveis os nossos raciocínios;   

Um corpo corruptível pesa sobre a alma e esta tenda de argila faz o espírito pesar com muitas preocupações.”

A custo conjeturamos o terrestre, com trabalho encontramos o que está à mão; mas quem rasteará o que há nos céus? Quem conhecerá tua vontade, se não lhe deste Sabedoria e não criaste do alto do teu Espírito Santo?

Somente assim foram retos os caminhos dos terrestres e os homens aprenderam o que te agrada e a Sabedoria os salvará.

A sabedoria infusa é o que almejo. A ciência humana é incompleta e não pode resolver os mistérios que existem no universo. Os humanos são limitados na sua razão e não é pela razão que atingirão a sabedoria.

A sabedoria vem por outro caminho e nos atinge na forma de intuições, revelações, sonhos, inspirações inexplicáveis do ponto de vista da razão.

Não é racional a emoção que sentimos ante um ato puro de bondade; não é racional a conexão que o amor nos proporciona; não é racional a admiração que nos escraviza ante a beleza da natureza.

O homem, além de racional, é um ser sobrenatural pois carrega em sí o Espírito Santo, emanação divina que nos orienta e inspira.

 

Ó Deus,

Criador do céu e da terra,

Ato perfeito, pureza perfeita.

Sabedoria infinita que nos orienta,

que nos guia na curta existência terrena.

Ó Deus,

Que é causa e efeito de tudo o que existe e existirá.

Em tí nada falta,

Tudo abunda na sua perfeição.

Ó Deus,

Eu que sou o oposto de ti,

Criatura em que tudo falta,

Em que tudo é potência à espera de atualização,

Rogo-te:

Dai-me sabedoria, inspiração, inteligência

para que possa compreender e realizar teus desígnios.